domingo, maio 21, 2017

ITAÚNA: OS BATE PAUS 30's


 Em 1930, pouquíssimas pessoas em Itaúna sabiam o que estava acontecendo no resto do país. No meio das ruas esburacadas de nossa cidade que na época contava com uma população estimada em 5 mil habitantes, só se sabia que o Batalhão itaunense da Força Pública de Minas Gerais – hoje Polícia Militar – tinha sido convocado para reforçar as tropas mineiras na luta contra as forças federais aquarteladas no 12º RI, na Capital. Padre Waldemar, que na época estudava no seminário em Belo Horizonte, conta que às cinco horas da manhã do dia 4 acordou com sinos da igreja batendo e logo depois ouviu os primeiros tiros. “Eu estava no último ano do seminário e o colégio ficava a 3 km do quartel do 12. Não tive medo do que poderia acontecer. Deus queria assim ...”
  Em Itaúna, com o destacamento policial todo fora. Arthur Vilaça, então chefe do executivo municipal e presidente da Câmara dos Vereadores, convocou seus melhores funcionários e formou o destacamento policial de civis para guarnecer a cidade. Aqueles jovens e fortes senhores que dali por diante manteriam a cidade em ordem ficaram sendo conhecidos como os “ Bate – Paus”. Eles foram chamados assim, porque na falta de armas de fogo, os destacamentos provisórios de cada município, usavam um porrete de madeira.
  Benevides Garcia, 79 anos, fotógrafo e chofer da praça dos mais antigos daqui, era motorista da Câmara na época e lembra como foi convocado: “O Arthur Vilaça mandou que eu comandasse os “Bate-Paus” como sargento e o Enoque como cabo. Entrei contra a minha vontade. Nada foi discutido entre nós sobre o que estava acontecendo. Só esperávamos a vitória da Revolução. ” Outro que também entrou contra sua própria vontade foi o Sr. Cirilo José Gomes, que não concordava com o fato de ter que amarrar no pescoço, lenço vermelho que os identificava. Os “Bate-Paus” não tiveram muito trabalho para prender os bêbados que viviam aprontando arruaça pela cidade, até apareceu por aqui um bandido muito temido na redondeza. Um tal de Domingos Boca –de-Fogo. “ Até a polícia tinha medo dele”, conta Cirilo. Eu, o Benevides e o Gérson conseguimos prendê-lo. Era noite clara e ele se escondeu numa fazenda no caminho da Várzea da Olaria.  A gente estava numa baratinha e ele a cavalo. Quando nós chegamos, ele já estava debaixo de uma árvore. O Benevides saltou e deu voz de prisão, eu entrei pelo lado esquerdo, bati a mão no arreio do cavalo e a outra no braço dele. Se o homem desce para o lado esquerdo como nós todos do lado direito, ele sapecava fogo e matava todo mundo “

  As adesões ao movimento revolucionário e as notícias que vinham pelo trem com muito atraso, não chegavam a amedrontar a população. O Doutor Coutinho, que já exercia a medicina na época conta que “as adesões eram naturais quase ninguém foi contra. O poder em Itaúna aderiu sem finalidades. Os donos das duas fábricas, que já existiam, queriam era fazer dinheiro”. Dona Nair, sua esposa conta que os que tinham mais instrução chegavam a ficar um pouco sobressaltados. “Chegamos até a rezar pelo sucesso da Revolução. Quando o Getúlio subiu ao poder, saímos em passeata pelas ruas cantando mais ou menos assim: Vivo Getúlio ele é o nosso orgulho. Viva a Aliança é a nossa esperança! Todos os homens, as mulheres e crianças participaram. Só não entravam na passeata as pessoas da sociedade ...”
  Vitoriosa a Revolução, a Câmara foi dissolvida, tendo o Sr. Arthur Contagem Vilaça continuando como prefeito do Poder Legislativo Municipal foi substituído por um conselho consultivo nomeado pelo Governo estadual. Entre os membros desse Conselho, estava o Dr. Coutinho.

  No balanço geral, todas estas pessoas que aqui viveram esse grande momento da história de nossa República, concordam que muitas promessas feitas pelos revolucionários não foram até hoje cumpridas. Por outro lado, afirmam que alguns benefícios, a Revolução trouxe. No entender do padre Waldemar, “toda a obra humana tem os seus defeitos. A Revolução moralizou determinados setores, mas muita gente se aproveitou dela para subir ao poder sem muito esforço. ” As reformas trazidas pela revolução não chegaram a modificar a situação. Para o doutor Coutinho “eles propunham muito e acabaram não fazendo nada. Para a época algumas coisas foram resolvidas, mas a situação ficou na mesma. No entanto, a Revolução de 30 teve mais participação popular, enquanto essa de 64 não teve nenhuma. Nenhuma das duas, porém, cumpriram os seus propósitos”.


Pesquisa: Charles Aquino
Fonte: Jornal Panorama Itaunense, pag. 9 (Década 80)
Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC


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