sábado, abril 18, 2026

LOGRADOUROS 1891

Entre nomes, memórias e projetos: a gênese simbólica das ruas de Sant'Anna do Rio São João Acima

(18/04/1891-18/04/2026)

No dia 18 de abril de 1891, no edifício do antigo Theatro do arraial de Sant’Anna de São João Acima (embrião da atual cidade de Itaúna) um pequeno grupo de conselheiros distritais reuniu-se para realizar um ato que, embora aparentemente burocrático, possuía profunda carga simbólica: atribuir nomes às ruas do povoado. 

Sob a presidência do dr. Augusto Moreira, os conselheiros Miguel José de Faria e João Antônio da Fonseca não apenas organizaram o espaço urbano — eles inscreveram no território a memória que desejavam perpetuar.

Era o início da Primeira República, período em que o Brasil buscava substituir símbolos imperiais por novos marcos cívicos, celebrando datas e personagens republicanos. Não surpreende, portanto, que muitas das ruas nomeadas expressassem essa adesão ao novo regime e seus ideais modernizantes.

1. Datas e ideais republicanos impressos no chão

Entre as denominações propostas, sobressaem as alusões a efemérides da construção nacional:

Rua 15 de Novembro — homenagem direta à Proclamação da República, e que permanece com este nome até os dias atuais;

Rua 13 de Maio, alusiva à Abolição da Escravidão, igualmente mantida no traçado urbano contemporâneo;

Rua 7 de Setembro, Rua 21 de Abril, Rua 15 de Junho e outras marcações temporais, compondo uma cronologia patriótica na cartografia local.

Cumpre destacar que, mesmo sem constar na ata apresentada, a Rua Silva Jardim, existente em Itaúna e preservada até hoje, insere-se nesse mesmo movimento de exaltação cívica. Seu nome homenageia Antônio da Silva Jardim, militante republicano fluminense, orador apaixonado e mártir da causa, morto tragicamente em 1891, ano da sessão analisada. Sua memória encontra, assim, eco e reverência no espaço itaunense.

Essas referências demonstram que o arraial almejava situar-se dentro do espírito republicano, incorporando-se simbolicamente à nova ordem nacional.

 Fé e tradição e o costume oral: da permanência do sagrado à formalização urbana

Ao lado da modernidade republicana, o tecido urbano preservou nomes ancorados na devoção católica, como Rua da Matriz, Rua do Rosário, Rua de São José, Rua de São Sebastião, Largo do Cruzeiro e Largo dos Passos. Em uma terra marcada por irmandades, procissões e fé comunitária, o sagrado continuava a orientar caminhos, reafirmando que o nascimento cívico da cidade não apagaria sua alma religiosa.

Persistiram também referências locais e comunitárias, tais como Beco do Tio João, Rua da Harmonia (antiga do Felizardo), Rua da Concórdia, Rua do Buracão, entre outras. São vestígios do modo como o povo nomeava os espaços antes da institucionalização: pelos moradores, pela paisagem, por acontecimentos cotidianos. O Conselho, assim, congelava em letra pública uma geografia que já existia na memória viva dos habitantes.

A metamorfose da Rua Direita

Dentre as alterações posteriores, merece destaque especial a antiga Rua Direita, eixo estruturante da malha urbana. O nome, tradicional em vilas coloniais brasileiras para designar a rua principal, foi posteriormente substituído por Avenida Getúlio Vargas, durante o período autoritário do Estado Novo.

Trata-se de um exemplo emblemático de como o poder político também inscreve seus símbolos na cidade: um nome republicano e popular cedendo lugar, por imposição do regime, à exaltação do governante centralizador e ditatorial.

Hoje, ao caminhar pela avenida, o cidadão pisa não apenas no asfalto, mas na disputa histórica entre memória local e intervenções do poder estatal.

Além das denominações, a ata revela outras preocupações típicas de uma comunidade que se modernizava: criou-se uma comissão para estudar o desvio das águas pluviais, evidenciando as primeiras ações de planejamento urbano, e reclamou-se sobre as irregularidades nas malas postais vindas pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, sinal da importância crescente da comunicação e do transporte ferroviário para o desenvolvimento econômico local.

Considerações

Nomear ruas é escolher memórias e escolher memórias é escolher identidades. Em 1891, Sant’Anna de São João Acima delineou, na tinta e no papel, o que desejava ser: uma comunidade enraizada na fé, mas aberta à República e à modernidade; uma vila que registrava sua oralidade e seu cotidiano, mas que almejava civilidade, ordem e lugar na história nacional.

Curiosamente, alguns nomes sobreviveram incólumes ao tempo, como Rua 15 de Novembro, Rua 13 de Maio e Rua Silva Jardim, não apenas como placas de ferro, mas como símbolos de permanência e memória coletiva. Outros se transformaram, como a antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, lembrança viva de que a cidade, assim como a história, também pode ser moldada por decisões centralizadoras e por projetos políticos impostos.

Cada esquina nomeada naquela data, portanto, é um capítulo da formação urbana e simbólica de Itaúna. E ao revisitarmos essa ata, não lemos apenas uma lista, lemos o instante em que uma comunidade gravou sua alma nas ruas.

 

  TEXTO ORIGINAL

CONSELHO DISTRITAL

ATA DA 1ª SESSÃO ORDINÁRIA

Aos 18 dias do mês de abril de 1891, no edifício do Theatro deste distrito de Sant’Anna de São João Acima, às 12 horas do dia, presentes os srs. Conselheiros: dr. Augusto Moreira, presidente, Capitão Miguel José de Faria e João Antonio da Fonseca, havendo número legal o sr. Presidente declara aberta a sessão.

ORDEM DO DIA

O sr. Presidente propõe e é aceito pelo Conselho um projeto dando às ruas desta freguesia as seguintes denominações:

A rua compreendida entre as casas dos srs. Serafim Caetano e Francisco da Costa — Rua Direita.

A que que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua Direita.

A que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua 15 de Novembro.

A antiga dos Ferreiros — Rua 14 de Junho.

A que vai da casa do sr. Custódio Dornas à Igreja do Rosário — Rua 21 de Abril.

A que vai do Serafim à Matriz — Rua Silva Jardim.

A que vai do sr. José Pinto à Porteira do Vigário — Rua Tiradentes.

A que vai da Matriz à Vargem — Rua da Matriz.

A antiga das Viúvas — Rua da Boa Vista.

A que vai do sr. Joaquim de Freitas ao sr. Francisco Dornas — Rua São José.

A antiga da Vargem — Rua da Alegria.

A que vai da casa do sr. José Silvério ao Mirante — Rua do Rosário.

O antigo beco do Tio João — Beco do Tio João.

A antiga do João Lopes — Rua do Theatro.

A antiga do Felizardo — Rua da Harmonia.

A antiga do Canto — Rua 7 de Abril.

A antiga Rua Nova — Rua Nova.

A antiga de São Sebastião — Rua de São Sebastião.

A antiga do Buracão — Rua do Buracão.

A que vai da Rua 13 de Maio à 15 de Novembro — Rua 7 de Setembro.

A que vai da Rua Direita ao Quitão — Rua de Santo Antônio.

A antiga Rua do Xilindró — Rua da Justiça.

A que fica paralela a do Buracão — Rua do Fogo.

A antiga das Diogas — Rua da Concórdia.

A que vai do sr. José Pinto a Vargem — Rua 15 de Junho.

O antigo beco de Francisco Gonçalves — Beco 15 de Novembro.

Antigo beco do Costa — Beco do Costa.

A Rua que vai da 15 de Novembro à do Buracão — Rua do Descanso.

O antigo beco do Rosário — Beco do Rosário.

O que vai da Rua Direita a da Concórdia — Beco da Concórdia.

O antigo Largo da Matriz — Largo da Matriz.

O antigo do Cemitério — Largo do Cemitério.

Antigo Lardo do Serafim — Largo do Cruzeiro.

Antigo Largo do Primo — Largo dos Passos.

 

Por proposta do Presidente nomeou-se a seguinte comissão, composta dos srs. Capitão Miguel José de Faria, João Antônio da Fonseca e Capitão Vicente Gonçalves de Souza para apresentar na sessão de junho deste ano um plano de desvios das águas pluviais, nas ruas desta freguesia.

Foi apresentada uma outra proposta do Presidente, mandando que se oficie ao Ilustrado Diretor dos Correios deste Estado, pedindo providencias sobre as irregularidades havidas nas malas desta freguesia, na estra de ferro Oeste de Minas.

Aprovada. E nada mais havendo a tratar o sr. Presidente levanta a sessão até que se lavre a Ata. Reaberta a sessão e, esta aprovada, o sr. Presidente marca a 2ª sessão para 28 de julho, e encerra a presente sessão. Eu dr. Augusto Moreira, Presidente, servindo de secretário a escrevi.

<Dr. Augusto Moreira>

<Miguel José de Faria>

<João Antônio da Fonseca>

 

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

Jornal Centro de Minas, Sant’ Anna de São João Acima, 24 de abril de 1892, p. 2-3.

Logradouros de Itauna (MG) by Itaúna Décadas

sexta-feira, abril 17, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P2

CAPÍTULO 6 (Parte 2)

Mapeando jornalistas: redes,

vigilância e o alcance do sistema de informações

 Dando continuidade à análise, esta segunda parte explora como o sistema de informações não apenas registrava dados, mas construía interpretações sobre a atuação da imprensa. 

A partir de novos documentos, é possível perceber que o monitoramento se estendia para além do âmbito local, alcançando redes mais amplas, espaços institucionais e articulações políticas.

No caso de José Waldemar Teixeira de Melo (B1354048), o nível de circulação é ainda mais amplo. 

Ele aparece como jornalista responsável no Jornal Folha do Oeste (1987 e 1988), mas também como radialista na Rádio Divinópolis (1988) e como jornalista no Jornal A Semana, também em Divinópolis.

Esse monitoramento, no entanto, não se inicia nesse momento. Já em 1981, o SNI havia realizado um “Levantamento de dados de Jornais” em diversos estados, incluindo Minas Gerais. Nesse levantamento, o Jornal Folha do Oeste já aparece registrado, tendo o próprio José Waldemar Teixeira de Melo como proprietário. 

Para isso, foi utilizado um questionário padronizado, o que indica que o acompanhamento da imprensa não era pontual, mas integrava um processo sistemático anterior às fichas analisadas neste estudo.

Além disso, a documentação produzida pelo SNI no final da década de 1980 amplia significativamente o alcance desse acompanhamento ao situar José Waldemar Teixeira de Melo também no circuito nacional da imprensa política. 

Em dossiê classificado como “Confidencial”, com os informes dos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, voltado à atuação de jornalistas credenciados no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, Waldemar aparece listado como repórter credenciado, identificado pelo registro nº 264/87, vinculado ao jornal Diário da Tarde, ao lado de profissionais provenientes de diferentes estados do país.

Mais do que ampliar a escala desse acompanhamento, esse documento também evidencia uma mudança qualitativa importante. Se, nos registros anteriores, o foco recaía sobre a organização técnica do sistema e o acompanhamento dos profissionais, neste documento observa-se um deslocamento: a incorporação de interpretações sobre o próprio papel da imprensa no cenário político.

Nesse sentido, o documento não se limita a um simples cadastro funcional. Ele se insere em uma narrativa produzida pelos órgãos de informação que atribui à atuação da imprensa um papel ativo em disputas ideológicas.

Ao afirmar, com base em “declarações de jornalistas credenciados”, que “as esquerdas” exerceriam um suposto “controle das comunicações” no interior do Congresso Nacional, influenciando a circulação das notícias “do interesse de facções esquerdistas”, o registro evidencia não apenas a coleta de informações, mas também a construção de uma leitura específica sobre o campo jornalístico.

Essa formulação não deve ser tomada como descrição neutra da realidade, mas como parte de um enquadramento discursivo próprio do sistema de informações, que operava por meio da seleção, interpretação e classificação dos dados coletados. Mais do que registrar, o documento interpreta e, ao fazê-lo, revela as lentes através das quais a atividade jornalística era observada pelos órgãos de inteligência.

Nesse contexto, a presença de Waldemar no conjunto documental não apenas confirma a continuidade de sua vigilância, mas o posiciona em um espaço considerado estratégico pelos órgãos de inteligência: o da mediação entre informação jornalística e poder político.

Diferentemente dos registros anteriores, centrados em sua atuação regional, este documento evidencia que seu acompanhamento se estendia a instâncias centrais da vida política nacional, reforçando a hipótese de que o monitoramento incidia prioritariamente sobre indivíduos capazes de transitar entre diferentes escalas, local, regional e federal, no campo da comunicação.

A documentação analisada revela ainda um elemento que amplia significativamente a compreensão do alcance desse monitoramento: a participação da imprensa regional em espaços coletivos de articulação, como o 5º Congresso de Jornais do Interior, realizado entre 30 de outubro e 2 de novembro de 1986, em Caxambu (MG), com a participação de cerca de 500 pessoas e representantes de diferentes estados brasileiros e países sul-americanos.

Esse evento também foi registrado pelo SNI como “Confidencial” e identificado pelos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, o que amplia significativamente a compreensão do alcance desse sistema de vigilância.

No caso de Minas Gerais, o evento reuniu diversos veículos de comunicação do interior, entre os quais se destacam, no âmbito da imprensa itaunense, os jornais Brexó, Ita Vox, Folha do Centro-Oeste e Folha do Oeste. A esses somavam-se periódicos de cidades vizinhas, como a Gazeta Paraminense, de Pará de Minas, e o jornal Agora, de Divinópolis.

Outro aspecto relevante presente na documentação é a indicação de apoio institucional ao evento, registrado na programação oficial como “Apoio: Minas Gerais – Governo Hélio Garcia”. A presença do governo estadual como apoiador do congresso evidencia que a imprensa do interior não operava à margem das estruturas institucionais, mas mantinha relações diretas com o poder público.

No entanto, esse vínculo não pode ser interpretado de forma linear: ao mesmo tempo em que eventos dessa natureza recebiam apoio governamental, os documentos do SNI demonstram que esses mesmos espaços, veículos e profissionais eram objeto de monitoramento sistemático pelos órgãos de informação.

Nesse sentido, a manutenção do mesmo código em todos esses registros indica que o acompanhamento não se restringia a um único meio de atuação ou espaço geográfico, mas ocorria de forma contínua e integrada ao sistema. 

Como demonstrado em capítulos anteriores, cada indivíduo era associado a um identificador, que permitia registrar, ao longo do tempo, suas mudanças de função, inserção profissional e deslocamentos. Tal procedimento evidencia que a vigilância não se vinculava apenas ao cargo ou ao órgão de imprensa, mas à própria pessoa, integrando indivíduos e veículos de comunicação a uma mesma lógica classificatória baseada em códigos específicos.

No caso da Rádio Clube de Itaúna, os documentos revelam que o veículo também foi incluído nas chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, seguindo o mesmo padrão aplicado aos jornais da cidade. Assim como nos demais registros, há a coleta detalhada de informações institucionais, como endereço, estrutura administrativa e a identificação nominal de seus integrantes, acompanhados de suas funções.

Entre os nomes registrados estão Guaracy de Castro Nogueira, diretor-presidente; Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-secretário; Ari Carvalho, diretor-tesoureiro; Arnaldo Gonçalves Moreira, encarregado geral; Geraldo Lopes, locutor esportivo; Antônio Paulo Nogueira, Danilo Lopes de Oliveira e José Coelho Neto, locutores; além de Cosme Caetano Silva, jornalista, e Marcelo Augusto de Faria Matos, locutor. Esse conjunto de dados demonstra que o monitoramento não se limitava à imprensa escrita, alcançando também a radiodifusão local.

Outro aspecto relevante surge ao cruzar essas informações com diferentes fontes do Arquivo Nacional. Embora os registros analisados pertençam ao fundo do SNI, a pesquisa sobre a Rádio Clube de Itaúna também leva a documentos vinculados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambos disponíveis no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), ainda que organizados em tipologias documentais distintas.

No acervo, destaca-se um dossiê da Cia. Industrial Itaunense, com mais de 270 páginas, referente ao período de 1983 a 1987, que reúne informações sobre a companhia e sua estrutura administrativa.

Nesse documento, aparecem nomes de integrantes da Rádio Clube de Itaúna e suas funções, como Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, presidente do Conselho de Administração; Dr. Affonso de Cerqueira Lima, membro do Conselho; Dr. Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-gerente; e Jofre Gonçalves de Souza, também ligado à presidência do Conselho, além de registros detalhados das trajetórias e das atividades exercidas por todos os membros. Esse cruzamento de fontes amplia a compreensão do funcionamento da rádio e reforça a articulação entre diferentes esferas institucionais.

Na prática, esse sistema operava como um banco de dados integrado, capaz de cruzar informações, identificar vínculos e mapear a circulação de profissionais da comunicação em diferentes contextos. Mais do que registros isolados, tratava-se de um mecanismo que permitia acompanhar trajetórias completas e estabelecer conexões entre diferentes veículos.

Dessa forma, os documentos pesquisados no SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional) revelam que o SNI (Serviço Nacional de Informações) não apenas observava jornais e rádios como instituições, mas também monitorava diretamente os profissionais da comunicação, construindo um mapa detalhado das relações e redes de atuação da imprensa em nível local e regional.

Mais do que vigilância pontual, os documentos revelam um sistema contínuo de acompanhamento, evidenciando a profundidade e a sofisticação do controle exercido sobre a imprensa nas barrancas do Rio São João Acima — hoje Itaúna (MG), a histórica Pedra Negra.

Nota final

Ao longo destes seis capítulos, publicados no Jornal Folha do Povo, antigo Folha do Oeste, fundado em 1944, foi possível apresentar uma análise da imprensa itaunense na década de 1980, com base na documentação disponível.

Com a consolidação desta etapa, dedicada aos veículos de comunicação da cidade, abre-se, em um futuro não muito distante, uma nova fase de investigação: o aprofundamento da análise sobre indivíduos e grupos específicos que também foram alvo de vigilância. 

Entre eles, destacam-se cidadãos identificados nominalmente, empresas, representantes do poder público municipal, instituições de ensino, lideranças religiosas e outros espaços de atuação social e intelectual.

Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser ignorado: o fato de que estes capítulos são publicados no Jornal Folha do Povo, herdeiro do antigo Folha do Oeste, reforça a dimensão histórica do próprio trabalho. Trata-se de um veículo que, no passado, esteve inserido nesse contexto de vigilância e que, hoje, permanece ativo, não apenas como meio de comunicação, mas como espaço de memória, reflexão e análise crítica sobre esses mesmos processos.  


Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.84009714. Título: Publicações de órgãos da imprensa. Descrição: Dossiê. p. 1–4. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/84009714/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_84009714_d0001de0001.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Título: Cadastros de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 19–20v. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 29–30. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Rádio Clube de Itaúna (MG). Descrição: Dossiê. p. 45–65. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0002de0007.pdf. Acesso em: 13 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.86012625. Título: Congressos de jornais do interior. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/86012625/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_86012625_d0001de0001.pdf. Acesso em: 2 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.89072766. Título: Jornalistas credenciados no Congresso Nacional. Descrição: Dossiê. p. 1–3, 23. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/89072766/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_89072766_d0001de0001.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastros de veículos de comunicação – Rádio Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 127–128. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0003de0007.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Jornal A Semana, Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 5–6. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0001de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê (continuação). Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0002de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.  


CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 6) P 2 by Itaúna Décadas

quinta-feira, abril 16, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P1

CAPÍTULO 6 (Parte 1)

Códigos do silêncio: como o SNI estruturava o controle da imprensa em Itaúna

Este capítulo apresenta o funcionamento do sistema de informações do Serviço Nacional de Informações (SNI) a partir da análise de documentos que revelam como códigos, fichas e classificações eram utilizados para organizar e controlar a circulação de dados.

 Ao observar registros relacionados à imprensa de Itaúna (MG), torna-se possível compreender como veículos de comunicação e profissionais da área passaram a integrar uma estrutura nacional de monitoramento.

Ao examinar a “Capa de ACE”, é possível notar a presença de várias siglas, números e letras que, à primeira vista, parecem difíceis de entender. No entanto, esses códigos faziam parte de um sistema organizado de controle de informações utilizado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI). Esse sistema não era aleatório. Pelo contrário: ele foi criado justamente para organizar e, ao mesmo tempo, esconder informações sensíveis.

Segundo a pesquisadora Laís Nóbrega Gabetto de Sá, que estudou a atuação do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o processo constituinte (1985–1988), havia uma padronização rigorosa no registro dessas informações. A “Capa de ACE”, por exemplo, integrava um sistema de arquivamento conhecido como Acesso Cronológico de Entrada, utilizado para controlar a circulação interna dos documentos.

Mas o ponto mais importante é que esses códigos não eram feitos para serem facilmente compreendidos. De acordo com a própria documentação analisada pela autora, havia uma orientação clara: “descaracterizar os documentos de informações […] a fim de que não sejam identificados ou comprovada a sua origem”.

Ou seja, os códigos serviam também para esconder a origem das informações. Na prática, isso funcionava por meio de uma espécie de “tabela de códigos”. Como explica a dissertação, no final dos documentos existia uma lista que traduzia essas siglas “codificadas”.

Ao olhar para a ficha, vemos exatamente isso acontecendo. No campo de sigilo, aparece a letra “W”, indicando que o conteúdo era confidencial. Já no campo “Agência”, aparece “B6H”, que identifica a unidade onde o documento foi produzido. E, no campo “Acesso Inicial”, surge também o código “B1C”, mostrando que esse material também era enviado à Agência Central, ou seja, ao núcleo principal do sistema. No que se refere à tipologia documental, o código “RR1” indicava que se tratava de um informe.

Isso revela algo importante: o documento não ficava apenas na origem. Ele circulava dentro de uma rede organizada, com controle sobre quem podia acessar a informação. Como destaca a autora, o sistema de informações era amplo e integrado, funcionando como uma rede de órgãos conectados, mas com centralização no SNI.

Em resumo, essa ficha mostra que: havia um controle rigoroso sobre a informação, os documentos circulavam entre diferentes setores e os códigos serviam tanto para organizar quanto para esconder dados.  Mais do que simples siglas, esses registros revelam um sistema pensado para controlar informações e proteger seus próprios agentes.

A análise desses documentos ganha ainda mais relevância quando se observa que esse mesmo tipo de registro com “Capa de ACE” foi utilizado para acompanhar veículos de comunicação de Itaúna (MG).

Foram identificados vários documentos relacionados a imprensa itaunense. Todos esses meios aparecem vinculados a registros que utilizavam esse modelo de classificação e controle. Isso indica que a produção jornalística local e a comunicação na cidade estavam inseridas em um sistema mais amplo de monitoramento, no qual informações eram coletadas, registradas e analisadas dentro de uma estrutura nacional de inteligência.

Esses códigos ganham sentido mais amplo no contexto da redemocratização do Brasil. Nesse período, como aponta a pesquisadora Laís Nóbrega, os próprios agentes do SNI demonstravam preocupação com a possibilidade de que esses documentos viessem a público, o que levou à adoção de estratégias para ocultar sua origem e controlar a circulação das informações.

Nesse sentido, a “Capa de ACE” não deve ser vista apenas como uma ficha técnica, mas como parte de um sistema que, ao mesmo tempo em que organizava os dados, também buscava se proteger, dificultando a identificação de quem produziu aquelas informações.

O documento que acompanha a “Capa de ACE” aprofunda ainda mais a compreensão do funcionamento desse sistema. Classificado também como “Confidencial”, ele traz o título “Cadastros de Veículos de Comunicação”, indicando que o foco era justamente o acompanhamento da imprensa e dos meios de comunicação.

O ponto mais importante do documento aparece na explicação dos códigos utilizados, especialmente o código Z7. Segundo o próprio texto, havia duas classificações principais: Z7 “A”: fichas cadastrais acompanhadas de exemplares de jornais; Z7 “B”: apenas fichas cadastrais, sem os jornais. Essa distinção é fundamental. Ela mostra que, no caso do código Z7 “A”, não apenas se registrava o veículo de comunicação, mas também se enviava material concreto, ou seja, os próprios jornais para análise em instâncias superiores do sistema.

O documento ainda reforça que esses exemplares eram destinados à Agência Central (B1C), o que confirma que o conteúdo produzido localmente era encaminhado diretamente para o núcleo central do sistema de informações. Isso evidencia um fluxo estruturado: a informação era coletada na base, organizada em fichas e, quando considerada relevante, acompanhada de material para análise mais aprofundada.

O mais relevante é perceber que o código Z7 “A”, encontrado em várias fichas de jornais da imprensa itaunense, não era apenas um detalhe técnico. Ele indica que esses veículos estavam sendo monitorados de forma ativa, com envio de seus conteúdos para análise dentro do sistema de inteligência. Ou seja, não se tratava apenas de registros burocráticos, mas de acompanhar e analisar aquilo que era publicado.

Isso reforça a interpretação de que jornais como Tribuna Itaunense, Folha do Centro-Oeste, Folha do Oeste, Ita Vox e Brexó, além da Rádio Clube de Itaúna, não estavam apenas catalogados, mas inseridos em um processo de observação sistemática, no qual suas produções podiam ser selecionadas, enviadas e analisadas em nível central.

Além do acompanhamento dos veículos e do envio de exemplares para análise, como indica o código Z7 “A”, os documentos revelam um nível ainda mais profundo de controle: o registro individualizado dos profissionais da imprensa, todos identificados por códigos numéricos únicos. Esses códigos permitem observar, com precisão, como o sistema acompanhava as pessoas ao longo do tempo e em diferentes veículos.

No Jornal Brexó, o proprietário Célio Silva (B0783936) aparece nas fichas de 1987 e 1988 com o mesmo código, sugerindo acompanhamento contínuo por parte do SNI. Na ficha de 1988, o próprio Jornal Brexó passa a ser identificado por um código interno (B2566126), evidenciando um nível mais estruturado de catalogação e controle das informações. Em contraste, o redator Huascar Soares Gomide (B0886312) foi localizado apenas em registro anterior, de 1984, classificado no assunto “Publicações de Órgãos da Imprensa”.

Esse conjunto de registros revela não apenas a manutenção de vínculos individuais ao longo do tempo, mas também uma ampliação do monitoramento, que passa a abranger o próprio veículo de comunicação como objeto de vigilância sistemática. O mesmo ocorre com o colaborador Márcio José Bernardes (B1403059), também presente nas duas versões. Já em 1988, surge um novo nome: Hely de Souza Maia (B2271801), que passa a integrar o quadro de colaboradores.

Esse mesmo colaborador não aparece apenas no Brexó: ele também está registrado no Jornal Tribuna Itaunense (1987) e como colunista/colaborador no Jornal Folha do Oeste (1988). Trata-se, portanto, do mesmo indivíduo, identificado pelo mesmo código, atuando em diferentes jornais da cidade — o que sugere a circulação de colaboradores entre veículos e o acompanhamento sistemático dessas trajetórias pelo SNI.

Outro exemplo importante é o de Alberto Libânio Rodrigues (B1426783). Em 1987, ele aparece como editor do Jornal Folha do Centro-Oeste e, em 1988, passa a atuar como repórter no Jornal Folha do Oeste, mantendo o mesmo código.  No Jornal Folha do Oeste, observa-se também a permanência de Sérgio Fernandes da Cunha (B2058170), que figura como diretor responsável em 1987 e continua vinculado ao jornal em 1988.

Por fim, nos registros de 1987 e 1988, o Jornal Ita Vox (B2725654) passa a ser codificado apenas no último ano. Entre seus articulistas, destaca-se José Elias Murad (B0555356), igualmente registrado no sistema.

Se, até aqui, os documentos permitem compreender a estrutura técnica do sistema e seus mecanismos de funcionamento, eles também indicam que o monitoramento da imprensa ultrapassava o registro administrativo, alcançando dimensões mais amplas de interpretação e análise.

O SNI não apenas registrava — ele interpretava e classificava a realidade.

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 6) P1 by Itaúna Décadas

 

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

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 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por inteligência artificial com finalidade ilustrativa. Trata-se de uma representação simbólica do contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense analisados no texto, não correspondendo a registros fotográficos ou documentos históricos específicos. 

Sua função é sugerir, em termos visuais, a dinâmica dos sistemas de informação do período, caracterizados pela coleta, organização e controle da circulação de dados sobre veículos de comunicação e seus profissionais.