sábado, abril 25, 2026

PENA ENCANTADA II

Você se lembra de Helber? O menino de Itaúna que atravessou caminhos até a África em busca da misteriosa Pena Encantada. 

Mas há uma pergunta essencial: o que acontece depois que a jornada termina? Helber voltou. E é exatamente aí que tudo começa.

Antes de seguir, uma provocação: você conhece storytelling? 

Mais do que contar uma história, é fazer sentir, refletir e se reconhecer no que está sendo vivido.

O retorno de Helber não foi como ele imaginava. O mundo não mudou e o verdadeiro desafio passou a ser outro.

Se você está pronto para ir além de uma simples narrativa, continue. Porque, a partir daqui essa história pode dizer mais sobre você do que imagina.

 “O Retorno que Ninguém Esperava”

Helber voltou para Itaúna carregando a pena...

com o mesmo cuidado de quem guarda um segredo.

Durante toda a viagem de volta, acreditou que algo havia mudado.
Não apenas dentro dele — mas ao redor.

Afinal, ele havia feito o pedido.

E pedidos feitos com verdade… deveriam transformar o mundo.

Mas Itaúna estava igual.

As ruas, as casas, os olhares.
Nada parecia ter percebido o que ele viveu.

Nos primeiros dias, Helber tentou compartilhar sua arte.

Organizou pequenos encontros. Separou suas penas. 

Preparou cada detalhe com dedicação quase silenciosa.

Mas quase ninguém veio.

E os poucos que apareceram não ficaram.

Olhavam com curiosidade, mas não com presença.
E antes de sair, sempre diziam:

— É bonito…, mas difícil de entender.

A frase começou a ecoar dentro dele.

Difícil de entender.

Difícil.

Talvez o problema não estivesse no mundo.

Talvez estivesse nele.

Helber então fez algo que nunca imaginou fazer.

Guardou as penas.

Começou a produzir uma arte diferente.
Mais simples.
Mais direta.
Mais aceitável.

E, dessa vez, as pessoas gostaram.

Elogiaram.
Compartilharam.
Sorriram.

Pela primeira vez, Helber foi compreendido.

Mas não foi visto.

Numa noite silenciosa, sentado diante de suas próprias criações, 

Helber percebeu algo que não soube explicar de imediato.

Tudo estava certo.

Mas ele não estava.

A aprovação que antes parecia distante agora era fácil, 

constante, quase automática.

E ainda assim…

vazia.

Ele abriu uma pequena caixa esquecida.

Lá estava a Pena Encantada.

Imóvel.

Sem brilho.

Sem resposta.

Como se esperasse.

Helber a segurou com cuidado.

E, naquele silêncio, entendeu.

A pena nunca foi feita para tornar sua vida mais fácil.

Nunca foi sobre aceitação.

Nunca foi sobre caber.

Era sobre verdade.

E a verdade, agora clara como nunca, era dura:

O mundo não havia mudado.

E talvez nunca mudasse completamente.

No dia seguinte, Helber tomou uma decisão.

Voltou às penas.

Mas não tentou mais alcançar todos.

Começou pequeno.

Muito pequeno.

Uma criança apareceu.
Depois outra.
Depois mais uma.

E, pela primeira vez, alguém não apenas olhou ...

mas permaneceu.

Não era fácil.
Não era rápido.
E não era reconhecido.

Mas era real.

Helber entendeu, então, o verdadeiro sentido do seu pedido.

O mundo não passaria, de repente, a compreender tudo.

Mas algumas pessoas… começariam a enxergar.

E talvez sempre tivesse sido isso.

Não transformar o mundo inteiro.

Mas acender pequenas compreensões dentro dele.

Helber já não esperava aplausos.
Nem aceitação imediata.
Nem respostas fáceis.

Aprendeu algo maior:

Ser compreendido por todos era impossível.

Mas ser verdadeiro para alguém…

isso era suficiente.

E, naquele pequeno espaço, naquela troca silenciosa, 

naquela construção paciente ...

a Pena Encantada voltou a brilhar.

 

Texto, arte e concepção: Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG). 

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

Pena Encantada II by Itaúna Décadas

sexta-feira, abril 24, 2026

LENDA CÓRREGO DO SOLDADO

A LENDA DO “CÓRREGO DO SOLDADO”

Você já ouviu falar da história por trás desse nome?

Entre memórias, mistérios e acontecimentos que atravessaram o tempo, nasce uma narrativa que vai muito além de uma simples curiosidade. 

A história em quadrinhos “A Lenda do Córrego do Soldado” convida você a mergulhar em um episódio marcante, onde realidade e tradição se entrelaçam para explicar a origem de um dos lugares mais conhecidos da região.

Hoje, o povoado Córrego do Soldado está localizado no município de Itaúna, em Minas Gerais, mas seu nome carrega ecos de um passado que ainda desperta curiosidade e reflexão.

Nesta HQ, cada cena foi construída para transportar você para aquele momento: a tensão, as escolhas, o desfecho… e o legado que permanece até hoje.

Agora é com você:
Venha ler, interpretar e descobrir…
Porque algumas histórias não apenas explicam nomes ...
...elas revelam memórias que o tempo nunca apagou.

Quer ir além da história em quadrinhos?
Conheça mais detalhes e aprofundamentos acessando:

CÓRREGO DO SOLDADO


 Elaboração:

Charles Aquino / Alexandre Campos 

Nota sobre a imagem:

A imagem apresentada foi produzida por meio de inteligência artificial com finalidade exclusivamente ilustrativa e didática. Trata-se de uma construção visual interpretativa, baseada em referências históricas e narrativas orais/documentais, não correspondendo a registros iconográficos originais, fotografias de época ou documentos históricos autênticos. Seu uso visa auxiliar na mediação do conteúdo, sem pretensão de substituição ou validação como fonte primária.

quinta-feira, abril 23, 2026

STORYTELLING

Storytelling Narrativas que Transformam a Educação

Há histórias que apenas são contadas.

E há aquelas que nos fazem ver o mundo de outra forma.

Este espaço nasce desse segundo caminho.

Aqui, cada narrativa é construída para aproximar o leitor de experiências que muitas vezes passam despercebidas, modos singulares de sentir, perceber e interagir com o mundo.

Este espaço foi criado para contar histórias que revelam, com sensibilidade e profundidade, diferentes experiências relacionadas ao autismo.

O storytelling é o caminho principal: não para explicar, rotular ou simplificar, mas para aproximar, provocar e transformar o olhar de quem lê.

Mas não paramos na narrativa...

Ao lado de cada história, o leitor encontrará também o QH (Quadro de Habilidades), um recurso que amplia a experiência narrativa ao traduzir, de forma estruturada, aspectos importantes da aprendizagem, da comunicação, do comportamento e das interações presentes em cada situação.

Enquanto a história sensibiliza, o QH organiza o olhar.

Enquanto a narrativa provoca, o QH orienta a reflexão pedagógica.

As narrativas apresentadas transitam entre o real, o fictício e o híbrido. 

São construídas a partir de vivências, inspirações e possibilidades, sempre respeitando a diversidade das pessoas autistas, suas maneiras únicas de sentir, comunicar, aprender e existir.

Mais do que ensinar diretamente, este espaço propõe uma dupla experiência:

sentir pela história e compreender pela análise.

Professores, famílias e alunos encontrarão, em cada narrativa e em cada QH, oportunidades de reflexão que nascem tanto da experiência quanto da observação consciente.

Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de abrir caminhos.

Porque, muitas vezes, é na história que compreendemos aquilo que a explicação não alcança —

e é na análise que conseguimos transformar essa compreensão em prática.

Este é um espaço para ler, sentir, analisar e, sobretudo, aprender a olhar o outro de forma mais humana, atenta e consciente.

PENA ENCANTADA (DISPONÍVEL)✅

PENA ENCANTADA - QH (Em breve)✔

PENA ENCANTADA II (DISPONÍVEL)✅

PENA ENCANTADA II - QH (Em breve)✔

 HÉLICES DO SILÊNCIO (DISPONÍVEL)✅

HÉLICES DO SILÊNCIO - QH (Em breve)✔

OS SEGREDOS DE MARIA (DISPONÍVEL)✅

OS SEGREDOS DE MARIA - QH (Em breve)✔


Texto, arte e concepção: Charles Galvão de Aquino — Historiador

(Registro nº 343/MG).

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

quarta-feira, abril 22, 2026

O BRASIL EM XEQUE (1831)

CORCUNDAS X PATRIOTAS

O Brasil volta a ferver...

Opiniões rígidas. Discursos inflamados. Certezas absolutas de todos os lados.

Mas antes de achar que estamos vivendo algo inédito, vale uma pergunta incômoda:
isso é realmente novo… ou apenas mais um capítulo de uma velha história?

Em 1831, o país já enfrentava um cenário de intensa divisão política. De um lado, os chamados “corcundas”, defensores da ordem tradicional e da monarquia.

Do outro, os “patriotas”, que questionavam esse modelo e defendiam mudanças profundas na organização do país.

O texto do historiador itaunense João Dornas Filho, ao apresentar esse embate em forma de diálogo popular, revela algo que atravessa o tempo: a dificuldade de lidar com o diferente sem transformá-lo em inimigo.

Ali, como agora, não faltavam acusações, certezas morais e discursos carregados de verdade absoluta.

Ali, como agora, o debate muitas vezes dava lugar ao confronto.

Revisitar “Corcundas x Patriotas” em 2026 não é apenas olhar para o passado.
É reconhecer padrões que insistem em se repetir.

Porque talvez o problema nunca tenha sido apenas quem estava certo…

mas a forma como escolhemos discordar.

Leia o texto completo:

CORCUNDAS X PATRIOTAS

E depois reflita:

Mudaram os nomes… ou continuamos vivendo o mesmo conflito?

Referência:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº 41- Junho de 1944, p.155-159.

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

sábado, abril 18, 2026

LOGRADOUROS 1891

Entre nomes, memórias e projetos: a gênese simbólica das ruas de Sant'Anna do Rio São João Acima

(18/04/1891-18/04/2026)

No dia 18 de abril de 1891, no edifício do antigo Theatro do arraial de Sant’Anna de São João Acima (embrião da atual cidade de Itaúna) um pequeno grupo de conselheiros distritais reuniu-se para realizar um ato que, embora aparentemente burocrático, possuía profunda carga simbólica: atribuir nomes às ruas do povoado. 

Sob a presidência do dr. Augusto Moreira, os conselheiros Miguel José de Faria e João Antônio da Fonseca não apenas organizaram o espaço urbano — eles inscreveram no território a memória que desejavam perpetuar.

Era o início da Primeira República, período em que o Brasil buscava substituir símbolos imperiais por novos marcos cívicos, celebrando datas e personagens republicanos. Não surpreende, portanto, que muitas das ruas nomeadas expressassem essa adesão ao novo regime e seus ideais modernizantes.

Datas e ideais republicanos impressos no chão

Entre as denominações propostas, sobressaem as alusões a efemérides da construção nacional:

Rua 15 de Novembro — homenagem direta à Proclamação da República, e que permanece com este nome até os dias atuais;

Rua 13 de Maio, alusiva à Abolição da Escravidão, igualmente mantida no traçado urbano contemporâneo;

Rua 7 de Setembro, Rua 21 de Abril, Rua 15 de Junho e outras marcações temporais, compondo uma cronologia patriótica na cartografia local.

Cumpre destacar que, mesmo sem constar na ata apresentada, a Rua Silva Jardim, existente em Itaúna é preservada até hoje, insere-se nesse mesmo movimento de exaltação cívica. Seu nome homenageia Antônio da Silva Jardim, militante republicano fluminense, orador apaixonado e mártir da causa, morto tragicamente em 1891, ano da sessão analisada. Sua memória encontra, assim, eco e reverência no espaço itaunense.

Essas referências demonstram que o arraial almejava situar-se dentro do espírito republicano, incorporando-se simbolicamente à nova ordem nacional.

 Fé e tradição e o costume oral: da permanência do sagrado à formalização urbana

Ao lado da modernidade republicana, o tecido urbano preservou nomes ancorados na devoção católica, como Rua da Matriz, Rua do Rosário, Rua de São José, Rua de São Sebastião, Largo do Cruzeiro e Largo dos Passos. Em uma terra marcada por irmandades, procissões e fé comunitária, o sagrado continuava a orientar caminhos, reafirmando que o nascimento cívico da cidade não apagaria sua alma religiosa.

Persistiram também referências locais e comunitárias, tais como Beco do Tio João, Rua da Harmonia (antiga do Felizardo), Rua da Concórdia, Rua do Buracão, entre outras. São vestígios do modo como o povo nomeava os espaços antes da institucionalização: pelos moradores, pela paisagem, por acontecimentos cotidianos. O Conselho, assim, congelava em letra pública uma geografia que já existia na memória viva dos habitantes.

A metamorfose da Rua Direita

Dentre as alterações posteriores, merece destaque especial a antiga Rua Direita, eixo estruturante da malha urbana. O nome, tradicional em vilas coloniais brasileiras para designar a rua principal, foi posteriormente substituído por Avenida Getúlio Vargas, durante o período autoritário do Estado Novo.

Trata-se de um exemplo emblemático de como o poder político também inscreve seus símbolos na cidade: um nome republicano e popular cedendo lugar, por imposição do regime, à exaltação do governante centralizador e ditatorial.

Hoje, ao caminhar pela avenida, o cidadão pisa não apenas no asfalto, mas na disputa histórica entre memória local e intervenções do poder estatal.

Além das denominações, a ata revela outras preocupações típicas de uma comunidade que se modernizava: criou-se uma comissão para estudar o desvio das águas pluviais, evidenciando as primeiras ações de planejamento urbano, e reclamou-se sobre as irregularidades nas malas postais vindas pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, sinal da importância crescente da comunicação e do transporte ferroviário para o desenvolvimento econômico local.

Considerações

Nomear ruas é escolher memórias e escolher memórias é escolher identidades. Em 1891, Sant’Anna de São João Acima delineou, na tinta e no papel, o que desejava ser: uma comunidade enraizada na fé, mas aberta à República e à modernidade; uma vila que registrava sua oralidade e seu cotidiano, mas que almejava civilidade, ordem e lugar na história nacional.

Curiosamente, alguns nomes sobreviveram incólumes ao tempo, como Rua 15 de Novembro, Rua 13 de Maio e Rua Silva Jardim, não apenas como placas de ferro, mas como símbolos de permanência e memória coletiva. Outros se transformaram, como a antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, lembrança viva de que a cidade, assim como a história, também pode ser moldada por decisões centralizadoras e por projetos políticos impostos.

Cada esquina nomeada naquela data, portanto, é um capítulo da formação urbana e simbólica de Itaúna. E ao revisitarmos essa ata, não lemos apenas uma lista, lemos o instante em que uma comunidade gravou sua alma nas ruas.

 

  TEXTO ORIGINAL

CONSELHO DISTRITAL

ATA DA 1ª SESSÃO ORDINÁRIA

Aos 18 dias do mês de abril de 1891, no edifício do Theatro deste distrito de Sant’Anna de São João Acima, às 12 horas do dia, presentes os srs. Conselheiros: dr. Augusto Moreira, presidente, Capitão Miguel José de Faria e João Antonio da Fonseca, havendo número legal o sr. Presidente declara aberta a sessão.

ORDEM DO DIA

O sr. Presidente propõe e é aceito pelo Conselho um projeto dando às ruas desta freguesia as seguintes denominações:

A rua compreendida entre as casas dos srs. Serafim Caetano e Francisco da Costa — Rua Direita.

A que que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua Direita.

A que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua 15 de Novembro.

A antiga dos Ferreiros — Rua 14 de Junho.

A que vai da casa do sr. Custódio Dornas à Igreja do Rosário — Rua 21 de Abril.

A que vai do Serafim à Matriz — Rua Silva Jardim.

A que vai do sr. José Pinto à Porteira do Vigário — Rua Tiradentes.

A que vai da Matriz à Vargem — Rua da Matriz.

A antiga das Viúvas — Rua da Boa Vista.

A que vai do sr. Joaquim de Freitas ao sr. Francisco Dornas — Rua São José.

A antiga da Vargem — Rua da Alegria.

A que vai da casa do sr. José Silvério ao Mirante — Rua do Rosário.

O antigo beco do Tio João — Beco do Tio João.

A antiga do João Lopes — Rua do Theatro.

A antiga do Felizardo — Rua da Harmonia.

A antiga do Canto — Rua 7 de Abril.

A antiga Rua Nova — Rua Nova.

A antiga de São Sebastião — Rua de São Sebastião.

A antiga do Buracão — Rua do Buracão.

A que vai da Rua 13 de Maio à 15 de Novembro — Rua 7 de Setembro.

A que vai da Rua Direita ao Quitão — Rua de Santo Antônio.

A antiga Rua do Xilindró — Rua da Justiça.

A que fica paralela a do Buracão — Rua do Fogo.

A antiga das Diogas — Rua da Concórdia.

A que vai do sr. José Pinto a Vargem — Rua 15 de Junho.

O antigo beco de Francisco Gonçalves — Beco 15 de Novembro.

Antigo beco do Costa — Beco do Costa.

A Rua que vai da 15 de Novembro à do Buracão — Rua do Descanso.

O antigo beco do Rosário — Beco do Rosário.

O que vai da Rua Direita a da Concórdia — Beco da Concórdia.

O antigo Largo da Matriz — Largo da Matriz.

O antigo do Cemitério — Largo do Cemitério.

Antigo Lardo do Serafim — Largo do Cruzeiro.

Antigo Largo do Primo — Largo dos Passos.

 

Por proposta do Presidente nomeou-se a seguinte comissão, composta dos srs. Capitão Miguel José de Faria, João Antônio da Fonseca e Capitão Vicente Gonçalves de Souza para apresentar na sessão de junho deste ano um plano de desvios das águas pluviais, nas ruas desta freguesia.

Foi apresentada uma outra proposta do Presidente, mandando que se oficie ao Ilustrado Diretor dos Correios deste Estado, pedindo providencias sobre as irregularidades havidas nas malas desta freguesia, na estra de ferro Oeste de Minas.

Aprovada. E nada mais havendo a tratar o sr. Presidente levanta a sessão até que se lavre a Ata. Reaberta a sessão e, esta aprovada, o sr. Presidente marca a 2ª sessão para 28 de julho, e encerra a presente sessão. Eu dr. Augusto Moreira, Presidente, servindo de secretário a escrevi.

<Dr. Augusto Moreira>

<Miguel José de Faria>

<João Antônio da Fonseca>

 

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

Jornal Centro de Minas, Sant’ Anna de São João Acima, 24 de abril de 1892, p. 2-3.

Logradouros de Itauna (MG) by Itaúna Décadas

sexta-feira, abril 17, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P2

CAPÍTULO 6 (Parte 2)

Mapeando jornalistas: redes,

vigilância e o alcance do sistema de informações

 Dando continuidade à análise, esta segunda parte explora como o sistema de informações não apenas registrava dados, mas construía interpretações sobre a atuação da imprensa. 

A partir de novos documentos, é possível perceber que o monitoramento se estendia para além do âmbito local, alcançando redes mais amplas, espaços institucionais e articulações políticas.

No caso de José Waldemar Teixeira de Melo (B1354048), o nível de circulação é ainda mais amplo. 

Ele aparece como jornalista responsável no Jornal Folha do Oeste (1987 e 1988), mas também como radialista na Rádio Divinópolis (1988) e como jornalista no Jornal A Semana, também em Divinópolis.

Esse monitoramento, no entanto, não se inicia nesse momento. Já em 1981, o SNI havia realizado um “Levantamento de dados de Jornais” em diversos estados, incluindo Minas Gerais. Nesse levantamento, o Jornal Folha do Oeste já aparece registrado, tendo o próprio José Waldemar Teixeira de Melo como proprietário. 

Para isso, foi utilizado um questionário padronizado, o que indica que o acompanhamento da imprensa não era pontual, mas integrava um processo sistemático anterior às fichas analisadas neste estudo.

Além disso, a documentação produzida pelo SNI no final da década de 1980 amplia significativamente o alcance desse acompanhamento ao situar José Waldemar Teixeira de Melo também no circuito nacional da imprensa política. 

Em dossiê classificado como “Confidencial”, com os informes dos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, voltado à atuação de jornalistas credenciados no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, Waldemar aparece listado como repórter credenciado, identificado pelo registro nº 264/87, vinculado ao jornal Diário da Tarde, ao lado de profissionais provenientes de diferentes estados do país.

Mais do que ampliar a escala desse acompanhamento, esse documento também evidencia uma mudança qualitativa importante. Se, nos registros anteriores, o foco recaía sobre a organização técnica do sistema e o acompanhamento dos profissionais, neste documento observa-se um deslocamento: a incorporação de interpretações sobre o próprio papel da imprensa no cenário político.

Nesse sentido, o documento não se limita a um simples cadastro funcional. Ele se insere em uma narrativa produzida pelos órgãos de informação que atribui à atuação da imprensa um papel ativo em disputas ideológicas.

Ao afirmar, com base em “declarações de jornalistas credenciados”, que “as esquerdas” exerceriam um suposto “controle das comunicações” no interior do Congresso Nacional, influenciando a circulação das notícias “do interesse de facções esquerdistas”, o registro evidencia não apenas a coleta de informações, mas também a construção de uma leitura específica sobre o campo jornalístico.

Essa formulação não deve ser tomada como descrição neutra da realidade, mas como parte de um enquadramento discursivo próprio do sistema de informações, que operava por meio da seleção, interpretação e classificação dos dados coletados. Mais do que registrar, o documento interpreta e, ao fazê-lo, revela as lentes através das quais a atividade jornalística era observada pelos órgãos de inteligência.

Nesse contexto, a presença de Waldemar no conjunto documental não apenas confirma a continuidade de sua vigilância, mas o posiciona em um espaço considerado estratégico pelos órgãos de inteligência: o da mediação entre informação jornalística e poder político.

Diferentemente dos registros anteriores, centrados em sua atuação regional, este documento evidencia que seu acompanhamento se estendia a instâncias centrais da vida política nacional, reforçando a hipótese de que o monitoramento incidia prioritariamente sobre indivíduos capazes de transitar entre diferentes escalas, local, regional e federal, no campo da comunicação.

A documentação analisada revela ainda um elemento que amplia significativamente a compreensão do alcance desse monitoramento: a participação da imprensa regional em espaços coletivos de articulação, como o 5º Congresso de Jornais do Interior, realizado entre 30 de outubro e 2 de novembro de 1986, em Caxambu (MG), com a participação de cerca de 500 pessoas e representantes de diferentes estados brasileiros e países sul-americanos.

Esse evento também foi registrado pelo SNI como “Confidencial” e identificado pelos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, o que amplia significativamente a compreensão do alcance desse sistema de vigilância.

No caso de Minas Gerais, o evento reuniu diversos veículos de comunicação do interior, entre os quais se destacam, no âmbito da imprensa itaunense, os jornais Brexó, Ita Vox, Folha do Centro-Oeste e Folha do Oeste. A esses somavam-se periódicos de cidades vizinhas, como a Gazeta Paraminense, de Pará de Minas, e o jornal Agora, de Divinópolis.

Outro aspecto relevante presente na documentação é a indicação de apoio institucional ao evento, registrado na programação oficial como “Apoio: Minas Gerais – Governo Hélio Garcia”. A presença do governo estadual como apoiador do congresso evidencia que a imprensa do interior não operava à margem das estruturas institucionais, mas mantinha relações diretas com o poder público.

No entanto, esse vínculo não pode ser interpretado de forma linear: ao mesmo tempo em que eventos dessa natureza recebiam apoio governamental, os documentos do SNI demonstram que esses mesmos espaços, veículos e profissionais eram objeto de monitoramento sistemático pelos órgãos de informação.

Nesse sentido, a manutenção do mesmo código em todos esses registros indica que o acompanhamento não se restringia a um único meio de atuação ou espaço geográfico, mas ocorria de forma contínua e integrada ao sistema. 

Como demonstrado em capítulos anteriores, cada indivíduo era associado a um identificador, que permitia registrar, ao longo do tempo, suas mudanças de função, inserção profissional e deslocamentos. Tal procedimento evidencia que a vigilância não se vinculava apenas ao cargo ou ao órgão de imprensa, mas à própria pessoa, integrando indivíduos e veículos de comunicação a uma mesma lógica classificatória baseada em códigos específicos.

No caso da Rádio Clube de Itaúna, os documentos revelam que o veículo também foi incluído nas chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, seguindo o mesmo padrão aplicado aos jornais da cidade. Assim como nos demais registros, há a coleta detalhada de informações institucionais, como endereço, estrutura administrativa e a identificação nominal de seus integrantes, acompanhados de suas funções.

Entre os nomes registrados estão Guaracy de Castro Nogueira, diretor-presidente; Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-secretário; Ari Carvalho, diretor-tesoureiro; Arnaldo Gonçalves Moreira, encarregado geral; Geraldo Lopes, locutor esportivo; Antônio Paulo Nogueira, Danilo Lopes de Oliveira e José Coelho Neto, locutores; além de Cosme Caetano Silva, jornalista, e Marcelo Augusto de Faria Matos, locutor. Esse conjunto de dados demonstra que o monitoramento não se limitava à imprensa escrita, alcançando também a radiodifusão local.

Outro aspecto relevante surge ao cruzar essas informações com diferentes fontes do Arquivo Nacional. Embora os registros analisados pertençam ao fundo do SNI, a pesquisa sobre a Rádio Clube de Itaúna também leva a documentos vinculados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambos disponíveis no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), ainda que organizados em tipologias documentais distintas.

No acervo, destaca-se um dossiê da Cia. Industrial Itaunense, com mais de 270 páginas, referente ao período de 1983 a 1987, que reúne informações sobre a companhia e sua estrutura administrativa.

Nesse documento, aparecem nomes de integrantes da Rádio Clube de Itaúna e suas funções, como Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, presidente do Conselho de Administração; Dr. Affonso de Cerqueira Lima, membro do Conselho; Dr. Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-gerente; e Jofre Gonçalves de Souza, também ligado à presidência do Conselho, além de registros detalhados das trajetórias e das atividades exercidas por todos os membros. Esse cruzamento de fontes amplia a compreensão do funcionamento da rádio e reforça a articulação entre diferentes esferas institucionais.

Na prática, esse sistema operava como um banco de dados integrado, capaz de cruzar informações, identificar vínculos e mapear a circulação de profissionais da comunicação em diferentes contextos. Mais do que registros isolados, tratava-se de um mecanismo que permitia acompanhar trajetórias completas e estabelecer conexões entre diferentes veículos.

Dessa forma, os documentos pesquisados no SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional) revelam que o SNI (Serviço Nacional de Informações) não apenas observava jornais e rádios como instituições, mas também monitorava diretamente os profissionais da comunicação, construindo um mapa detalhado das relações e redes de atuação da imprensa em nível local e regional.

Mais do que vigilância pontual, os documentos revelam um sistema contínuo de acompanhamento, evidenciando a profundidade e a sofisticação do controle exercido sobre a imprensa nas barrancas do Rio São João Acima — hoje Itaúna (MG), a histórica Pedra Negra.

Nota final

Ao longo destes seis capítulos, publicados no Jornal Folha do Povo, antigo Folha do Oeste, fundado em 1944, foi possível apresentar uma análise da imprensa itaunense na década de 1980, com base na documentação disponível.

Com a consolidação desta etapa, dedicada aos veículos de comunicação da cidade, abre-se, em um futuro não muito distante, uma nova fase de investigação: o aprofundamento da análise sobre indivíduos e grupos específicos que também foram alvo de vigilância. 

Entre eles, destacam-se cidadãos identificados nominalmente, empresas, representantes do poder público municipal, instituições de ensino, lideranças religiosas e outros espaços de atuação social e intelectual.

Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser ignorado: o fato de que estes capítulos são publicados no Jornal Folha do Povo, herdeiro do antigo Folha do Oeste, reforça a dimensão histórica do próprio trabalho. Trata-se de um veículo que, no passado, esteve inserido nesse contexto de vigilância e que, hoje, permanece ativo, não apenas como meio de comunicação, mas como espaço de memória, reflexão e análise crítica sobre esses mesmos processos.  


Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.84009714. Título: Publicações de órgãos da imprensa. Descrição: Dossiê. p. 1–4. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/84009714/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_84009714_d0001de0001.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Título: Cadastros de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 19–20v. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 29–30. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

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BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê (continuação). Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0002de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.  


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