quinta-feira, abril 16, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P1

CAPÍTULO 6 (Parte 1)

Códigos do silêncio: como o SNI estruturava o controle da imprensa em Itaúna

Este capítulo apresenta o funcionamento do sistema de informações do Serviço Nacional de Informações (SNI) a partir da análise de documentos que revelam como códigos, fichas e classificações eram utilizados para organizar e controlar a circulação de dados.

 Ao observar registros relacionados à imprensa de Itaúna (MG), torna-se possível compreender como veículos de comunicação e profissionais da área passaram a integrar uma estrutura nacional de monitoramento.

Ao examinar a “Capa de ACE”, é possível notar a presença de várias siglas, números e letras que, à primeira vista, parecem difíceis de entender. No entanto, esses códigos faziam parte de um sistema organizado de controle de informações utilizado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI). Esse sistema não era aleatório. Pelo contrário: ele foi criado justamente para organizar e, ao mesmo tempo, esconder informações sensíveis.

Segundo a pesquisadora Laís Nóbrega Gabetto de Sá, que estudou a atuação do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o processo constituinte (1985–1988), havia uma padronização rigorosa no registro dessas informações. A “Capa de ACE”, por exemplo, integrava um sistema de arquivamento conhecido como Acesso Cronológico de Entrada, utilizado para controlar a circulação interna dos documentos.

Mas o ponto mais importante é que esses códigos não eram feitos para serem facilmente compreendidos. De acordo com a própria documentação analisada pela autora, havia uma orientação clara: “descaracterizar os documentos de informações […] a fim de que não sejam identificados ou comprovada a sua origem”.

Ou seja, os códigos serviam também para esconder a origem das informações. Na prática, isso funcionava por meio de uma espécie de “tabela de códigos”. Como explica a dissertação, no final dos documentos existia uma lista que traduzia essas siglas “codificadas”.

Ao olhar para a ficha, vemos exatamente isso acontecendo. No campo de sigilo, aparece a letra “W”, indicando que o conteúdo era confidencial. Já no campo “Agência”, aparece “B6H”, que identifica a unidade onde o documento foi produzido. E, no campo “Acesso Inicial”, surge também o código “B1C”, mostrando que esse material também era enviado à Agência Central, ou seja, ao núcleo principal do sistema. No que se refere à tipologia documental, o código “RR1” indicava que se tratava de um informe.

Isso revela algo importante: o documento não ficava apenas na origem. Ele circulava dentro de uma rede organizada, com controle sobre quem podia acessar a informação. Como destaca a autora, o sistema de informações era amplo e integrado, funcionando como uma rede de órgãos conectados, mas com centralização no SNI.

Em resumo, essa ficha mostra que: havia um controle rigoroso sobre a informação, os documentos circulavam entre diferentes setores e os códigos serviam tanto para organizar quanto para esconder dados.  Mais do que simples siglas, esses registros revelam um sistema pensado para controlar informações e proteger seus próprios agentes.

A análise desses documentos ganha ainda mais relevância quando se observa que esse mesmo tipo de registro com “Capa de ACE” foi utilizado para acompanhar veículos de comunicação de Itaúna (MG).

Foram identificados vários documentos relacionados a imprensa itaunense. Todos esses meios aparecem vinculados a registros que utilizavam esse modelo de classificação e controle. Isso indica que a produção jornalística local e a comunicação na cidade estavam inseridas em um sistema mais amplo de monitoramento, no qual informações eram coletadas, registradas e analisadas dentro de uma estrutura nacional de inteligência.

Esses códigos ganham sentido mais amplo no contexto da redemocratização do Brasil. Nesse período, como aponta a pesquisadora Laís Nóbrega, os próprios agentes do SNI demonstravam preocupação com a possibilidade de que esses documentos viessem a público, o que levou à adoção de estratégias para ocultar sua origem e controlar a circulação das informações.

Nesse sentido, a “Capa de ACE” não deve ser vista apenas como uma ficha técnica, mas como parte de um sistema que, ao mesmo tempo em que organizava os dados, também buscava se proteger, dificultando a identificação de quem produziu aquelas informações.

O documento que acompanha a “Capa de ACE” aprofunda ainda mais a compreensão do funcionamento desse sistema. Classificado também como “Confidencial”, ele traz o título “Cadastros de Veículos de Comunicação”, indicando que o foco era justamente o acompanhamento da imprensa e dos meios de comunicação.

O ponto mais importante do documento aparece na explicação dos códigos utilizados, especialmente o código Z7. Segundo o próprio texto, havia duas classificações principais: Z7 “A”: fichas cadastrais acompanhadas de exemplares de jornais; Z7 “B”: apenas fichas cadastrais, sem os jornais. Essa distinção é fundamental. Ela mostra que, no caso do código Z7 “A”, não apenas se registrava o veículo de comunicação, mas também se enviava material concreto, ou seja, os próprios jornais para análise em instâncias superiores do sistema.

O documento ainda reforça que esses exemplares eram destinados à Agência Central (B1C), o que confirma que o conteúdo produzido localmente era encaminhado diretamente para o núcleo central do sistema de informações. Isso evidencia um fluxo estruturado: a informação era coletada na base, organizada em fichas e, quando considerada relevante, acompanhada de material para análise mais aprofundada.

O mais relevante é perceber que o código Z7 “A”, encontrado em várias fichas de jornais da imprensa itaunense, não era apenas um detalhe técnico. Ele indica que esses veículos estavam sendo monitorados de forma ativa, com envio de seus conteúdos para análise dentro do sistema de inteligência. Ou seja, não se tratava apenas de registros burocráticos, mas de acompanhar e analisar aquilo que era publicado.

Isso reforça a interpretação de que jornais como Tribuna Itaunense, Folha do Centro-Oeste, Folha do Oeste, Ita Vox e Brexó, além da Rádio Clube de Itaúna, não estavam apenas catalogados, mas inseridos em um processo de observação sistemática, no qual suas produções podiam ser selecionadas, enviadas e analisadas em nível central.

Além do acompanhamento dos veículos e do envio de exemplares para análise, como indica o código Z7 “A”, os documentos revelam um nível ainda mais profundo de controle: o registro individualizado dos profissionais da imprensa, todos identificados por códigos numéricos únicos. Esses códigos permitem observar, com precisão, como o sistema acompanhava as pessoas ao longo do tempo e em diferentes veículos.

No Jornal Brexó, o proprietário Célio Silva (B0783936) aparece nas fichas de 1987 e 1988 com o mesmo código, sugerindo acompanhamento contínuo por parte do SNI. Na ficha de 1988, o próprio Jornal Brexó passa a ser identificado por um código interno (B2566126), evidenciando um nível mais estruturado de catalogação e controle das informações. Em contraste, o redator Huascar Soares Gomide (B0886312) foi localizado apenas em registro anterior, de 1984, classificado no assunto “Publicações de Órgãos da Imprensa”.

Esse conjunto de registros revela não apenas a manutenção de vínculos individuais ao longo do tempo, mas também uma ampliação do monitoramento, que passa a abranger o próprio veículo de comunicação como objeto de vigilância sistemática. O mesmo ocorre com o colaborador Márcio José Bernardes (B1403059), também presente nas duas versões. Já em 1988, surge um novo nome: Hely de Souza Maia (B2271801), que passa a integrar o quadro de colaboradores.

Esse mesmo colaborador não aparece apenas no Brexó: ele também está registrado no Jornal Tribuna Itaunense (1987) e como colunista/colaborador no Jornal Folha do Oeste (1988). Trata-se, portanto, do mesmo indivíduo, identificado pelo mesmo código, atuando em diferentes jornais da cidade — o que sugere a circulação de colaboradores entre veículos e o acompanhamento sistemático dessas trajetórias pelo SNI.

Outro exemplo importante é o de Alberto Libânio Rodrigues (B1426783). Em 1987, ele aparece como editor do Jornal Folha do Centro-Oeste e, em 1988, passa a atuar como repórter no Jornal Folha do Oeste, mantendo o mesmo código.  No Jornal Folha do Oeste, observa-se também a permanência de Sérgio Fernandes da Cunha (B2058170), que figura como diretor responsável em 1987 e continua vinculado ao jornal em 1988.

Por fim, nos registros de 1987 e 1988, o Jornal Ita Vox (B2725654) passa a ser codificado apenas no último ano. Entre seus articulistas, destaca-se José Elias Murad (B0555356), igualmente registrado no sistema.

Se, até aqui, os documentos permitem compreender a estrutura técnica do sistema e seus mecanismos de funcionamento, eles também indicam que o monitoramento da imprensa ultrapassava o registro administrativo, alcançando dimensões mais amplas de interpretação e análise.

O SNI não apenas registrava — ele interpretava e classificava a realidade.

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 6) P1 by Itaúna Décadas

 

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.84009714. Título: Publicações de órgãos da imprensa. Descrição: Dossiê. p. 1–4. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/84009714/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_84009714_d0001de0001.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Título: Cadastros de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 19–20v. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 29–30. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Rádio Clube de Itaúna (MG). Descrição: Dossiê. p. 45–65. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0002de0007.pdf. Acesso em: 13 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.86012625. Título: Congressos de jornais do interior. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/86012625/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_86012625_d0001de0001.pdf. Acesso em: 2 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.89072766. Título: Jornalistas credenciados no Congresso Nacional. Descrição: Dossiê. p. 1–3, 23. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/89072766/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_89072766_d0001de0001.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastros de veículos de comunicação – Rádio Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 127–128. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0003de0007.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Jornal A Semana, Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 5–6. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0001de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê (continuação). Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0002de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por inteligência artificial com finalidade ilustrativa. Trata-se de uma representação simbólica do contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense analisados no texto, não correspondendo a registros fotográficos ou documentos históricos específicos. 

Sua função é sugerir, em termos visuais, a dinâmica dos sistemas de informação do período, caracterizados pela coleta, organização e controle da circulação de dados sobre veículos de comunicação e seus profissionais.

 

quarta-feira, abril 15, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (5)

CAPÍTULO 5

O Capítulo 5 aprofunda a análise ao revelar, com base em documentação confidencial, como a vigilância estatal sobre a imprensa persistiu mesmo em pleno processo de redemocratização brasileira.

 Ao examinar o caso do Jornal Brexó, em Itaúna/MG, o texto demonstra que o monitoramento não era episódico, mas estruturado, sistemático e tecnicamente organizado pelo Serviço Nacional de Informações.

 A partir de informes e fichas cadastrais produzidos entre 1984 e 1988, evidencia-se um processo contínuo que vai da análise de conteúdos jornalísticos à classificação política do veículo e de seus colaboradores, revelando como o dissenso era enquadrado como objeto de suspeita dentro da lógica do regime.

Mais do que um estudo local, o capítulo propõe uma reflexão mais ampla sobre os mecanismos de produção, organização e circulação de informações no interior do aparato estatal. 

Ao detalhar a evolução do acompanhamento do Jornal Brexó, desde a observação de matérias específicas até sua inserção em sistemas de indexação com códigos próprios, o texto expõe a sofisticação de uma engrenagem que articulava vigilância, classificação e interpretação política da imprensa.

Com isso, o leitor é convidado a compreender não apenas a trajetória de um periódico regional, mas também a lógica de funcionamento de um sistema que buscava controlar e mapear a circulação de ideias na sociedade brasileira.

 

VIGILÂNCIA, CLASSIFICAÇÃO E ENQUADRAMENTO: O JORNAL BREXÓ NOS REGISTROS DO SNI (1984–1988)

Em meio ao processo de redemocratização brasileira, marcado por mobilizações populares como a campanha das Diretas Já, amplamente difundida em 1984, e pela progressiva reconfiguração que culminaria na promulgação da Constituição de 1988, documentos classificados como confidenciais revelam que a vigilância sobre a imprensa não apenas persistia, como operava de forma estruturada, sistemática e tecnicamente organizada, alcançando inclusive a imprensa local de cidades do interior.

O caso do Jornal Brexó, sediado em Itaúna, Minas Gerais, evidencia com precisão esse mecanismo, demonstrando que a produção jornalística regional era monitorada, classificada e interpretada pelo aparato de informações do Estado.

A análise conjunta de três conjuntos documentais, um informe do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 1984, e duas fichas cadastrais de 1987 e 1988, permite reconstruir, com alto grau de consistência, a evolução desse acompanhamento. 

Longe de constituírem registros isolados, os documentos revelam etapas sucessivas de observação, inicialmente centradas na análise de conteúdo, posteriormente ampliadas para o mapeamento institucional e, por fim, consolidadas em uma classificação política mais abrangente do veículo e de seus integrantes.

O documento de 1984, produzido pela Agência Belo Horizonte do SNI, já indica que o Jornal Brexó era objeto de atenção direta do sistema de informações. Inserido em um informe que analisava diversos órgãos da imprensa mineira considerados críticos às autoridades, o periódico itaunense aparece explicitamente identificado, tendo como diretor responsável Célio Silva e como redator Huascar Soares Gomide (B0886312).

Nesse trecho, chama atenção o fato de a observação estar registrada integralmente em letras maiúsculas no documento original, o que lhe confere destaque gráfico em relação aos demais registros.

Além disso, o informe também registra e interpreta uma matéria publicada no próprio Jornal Brexó, em 10 de março de 1984, intitulada “SOBRE A LEI DE SEGURANÇA NACIONAL OU EVITAREMOS AO MÁXIMO SERMOS ENQUADRADOS NELA OU O MINISTRO ENTROU NUMA FRIA”, de autoria do Dr. Peri (ou Pery) Tupinambás, identificado como militante do Partido dos Trabalhadores (PT).

Segundo o informe, o texto tecia “críticas contrárias às autoridades militares federais” e discutia a aplicação da legislação de segurança nacional, evidenciando uma postura editorial politicamente posicionada. Nesse momento, observa-se um monitoramento direto do conteúdo jornalístico, com identificação de autores e classificação de suas posições.

A escolha do tema é reveladora: a LSN (Lei de Segurança Nacional) era um dos principais instrumentos jurídicos da repressão política, e discutir seus limites ou implicações significava, em certa medida, tensionar o próprio aparato autoritário. O fato de tal debate ocorrer em um jornal local indica que Itaúna não se limitava a reproduzir discursos hegemônicos, mas participava ativamente de um circuito crítico mais amplo.

Outro aspecto fundamental reside na própria linguagem do documento. Termos recorrentes como “desacreditar” e “linha desfavorável” não são apenas descrições, mas construções discursivas que enquadram a realidade segundo a lógica do poder. Ao classificar “críticas às autoridades” como ameaça, o SNI opera uma redefinição dos limites do aceitável, na qual o dissenso passa a ser tratado como objeto de suspeita.

No documento, consta ainda uma ressalva explícita quanto ao sigilo: “TODA PESSOA QUE TOME CONHECIMENTO DESTE DOCUMENTO FICA RESPONSÁVEL PELA MANUTENÇÃO DO SEU SIGILO.”

Por fim, o caráter confidencial do informe reforça seu valor histórico. Não se trata de um discurso público, elaborado para legitimar o regime perante a sociedade, mas de um documento interno, destinado à circulação restrita dentro do aparato estatal. Isso o torna particularmente revelador: nele se expressa, com menos filtros, a mentalidade de um sistema que, mesmo em processo de abertura, ainda operava sob a lógica da vigilância, do controle e da contenção.

A análise desse documento permite situar essa dinâmica em uma escala mais ampla. Em 1984, cidades como Itaúna integravam circuitos de produção e circulação de críticas, configurando-se como espaços de disputa simbólica e política. Nesse contexto, os registros do SNI evidenciam como manifestações locais eram incorporadas a um sistema de acompanhamento que buscava identificar, classificar e compreender essas expressões.

Nos documentos posteriores, datados de 1987 e 1988, esse acompanhamento assume um caráter mais sistemático e estruturado. As chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, vinculadas a processos identificados como “CAPA DE ACE”, revelam um padrão técnico rigoroso de registro e circulação interna de informações no âmbito do Serviço Nacional de Informações (SNI), por meio da Agência de Belo Horizonte, sendo classificadas como CONFIDENCIAL.

O Jornal Brexó passa a ser descrito minuciosamente: razão social Sociedade Jornalística Brexó Ltda, sede na Rua Dorinato Lima, nº 230, bairro de Lourdes, em Itaúna/MG, fundado em novembro de 1978, com periodicidade semanal, tiragem média entre 1.600 e 1.700 exemplares e circulação regional abrangendo Itaúna, Itatiaiuçu e Mateus Leme. 

Sua estrutura é classificada como reduzida, com apenas dois funcionários e situação financeira considerada “regular”. Também são registrados aspectos técnicos como número de páginas (entre 6 e 8), formato em caderno único, ausência de encartes e inexistência de sucursais.

Esse nível de detalhamento não é meramente descritivo. Ele indica uma tentativa de mensurar o alcance e a capacidade de influência do jornal, inserindo-o em uma lógica de avaliação estratégica. 

Paralelamente, as fichas revelam um mapeamento completo de seus integrantes e colaboradores, identificados nominalmente: Célio Silva (B0783936), diretor responsável; Sílvio Márcio Bernardes, repórter; Wagner Belarmino da Silva, colunista; Maria José Saldanha, colaboradora; Pery Tupinambás, colaborador; Márcio José Bernardes (B1403059), colaborador; Benfica Alves de Oliveira Júnior, colaborador; e Hely de Souza Maia (B2271801), colaborador.

A presença de códigos alfanuméricos associados a alguns desses nomes indica que determinados indivíduos estavam previamente cadastrados em sistemas mais amplos de informação, sugerindo a existência de fichas individuais e a possibilidade de cruzamento de dados.

Na ficha de 1988, o próprio periódico também passa a ser identificado por um código interno, aparecendo como Jornal Brexó (B2566126), o que reforça a hipótese de um sistema estruturado de indexação tanto de pessoas quanto de instituições. Esse dado é particularmente relevante, pois demonstra que o jornal já não era apenas observado, mas integrado a um banco de dados organizado, com capacidade de rastreamento e acompanhamento contínuo.

O elemento mais expressivo, contudo, encontra-se no campo denominado “Linha Editorial”, presente na ficha de 1988, no qual a linguagem assume caráter interpretativo. Nele, afirma-se que: “OS INTEGRANTES DO JORNAL “BREXO” SÃO ELEMENTOS LIGADOS AO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT). SUA LINHA EDITORIAL VISA, PRINCIPALMENTE, CENSURAR AS ATUAÇÕES DAS LIDERANÇAS POLÍTICAS LOCAIS, NÃO DEIXANDO, ENTRETANTO, COMO OPOSIÇÃO, DE CRITICAR OS GOVERNOS ESTADUAL E FEDERAL”.

Esse registro sintetiza, dentro da própria documentação, uma forma de caracterização do veículo e de seus integrantes, incorporando ao cadastro uma leitura sobre sua atuação no campo político.

A articulação desses três momentos — 1984, 1987 e 1988 — permite identificar um padrão contínuo de acompanhamento. Inicialmente, o Jornal Brexó é observado a partir de conteúdos específicos, com destaque para matérias e autores. 

Em seguida, passa a ser objeto de registro institucional detalhado, com levantamento de sua estrutura, circulação e equipe. Por fim, é inserido em uma caracterização mais ampla, que inclui referências à sua orientação editorial e às vinculações de seus integrantes.

Esse conjunto evidencia que o acompanhamento estatal não se limitava à existência formal dos veículos de comunicação, mas abrangia diferentes dimensões de sua atuação, conteúdos publicados, organização interna, circulação e composição de pessoal. 

No caso de Itaúna, o Jornal Brexó aparece, assim, como um veículo regularmente registrado e acompanhado ao longo do tempo, integrando um sistema de informações que organizava dados de forma contínua e padronizada.

Dessa forma, o caso do Jornal Brexó ultrapassa a dimensão local e se insere em um quadro mais amplo de organização e funcionamento dos sistemas de informação do Estado. Ele evidencia como a imprensa regional, mesmo com estrutura modesta, era incluída em procedimentos sistemáticos de registro, reunindo dados sobre sua atuação, composição e alcance.

Ao reunir essas informações, os documentos permitem observar não apenas a trajetória de um periódico, mas também as formas pelas quais o Estado produzia, organizava e classificava informações sobre a circulação de discursos na sociedade brasileira.

Diante do percurso desenvolvido ao longo de cinco capítulos, nos quais se evidenciou, de forma progressiva, a vigilância, o registro e o enquadramento da imprensa local em Itaúna, torna-se necessário avançar para uma dimensão ainda mais profunda dessa análise: a investigação do próprio sistema de informações que produziu tais registros. 

Se até aqui foi possível compreender como jornais como Ita Vox, Tribuna Itaunense, Folha do Centro-Oeste, Folha do Oeste e Brexó foram observados, classificados e acompanhados, o capítulo seguinte deslocará o foco do objeto vigiado para o mecanismo de vigilância.

Para isso, será realizada uma análise minuciosa dos sistemas de codificação presentes nas fichas, incluindo siglas, numerações, classificações documentais e operacionais, bem como dos códigos alfanuméricos atribuídos a indivíduos e instituições, buscando compreender seus significados, funções e implicações dentro da estrutura do Serviço Nacional de Informações.

Nesse movimento, será também incorporada a análise da Rádio Clube de Itaúna, ampliando o escopo dos meios de comunicação investigados. Ao examinar essa engrenagem interna, pretende-se revelar não apenas o conteúdo das informações produzidas, mas a lógica técnica e política que orientava sua organização, classificação e circulação, evidenciando que a vigilância não era episódica, mas sustentada por um sistema estruturado e contínuo de controle e interpretação da realidade social.


REFERÊNCIAS:

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações.
Referência: BR DFANBSB V8.MIC, GNC.OOO.84009714. Título: Publicações de órgãos da imprensa, p. 1-4. Descrição: Dossiê. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/84009714/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_84009714_d0001de0001.pdf.
Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações. Referência: BR DFANBSB V8.MIC, GNC.OOO.88013583. Título: Cadastros de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê, p. 1-2, 19-20v. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf.
Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações. Referência: BR DFANBSB V8.MIC, GNC.OOO.89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê, p.1-2, 29-30. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf.
Acesso em: 16 abr. 2026.

Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos. 


CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 5) by Itaúna Décadas

terça-feira, abril 14, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (4)

CAPÍTULO 4

A história que se revela neste capítulo 4 não é apenas a trajetória de um jornal, mas o retrato de uma época em que informação, vigilância e poder se entrelaçavam de maneira silenciosa e estratégica. 

Ao percorrer estes documentos, o leitor é convidado a ultrapassar a superfície dos registros e mergulhar em uma investigação que revela não apenas dados administrativos, mas indícios de um sistema mais amplo de observação e controle.

Conhecer essa narrativa é compreender como a imprensa local, muitas vezes vista como periférica, ocupava um papel central na circulação de ideias e na formação da opinião pública. Mais do que um resgate histórico, trata-se de uma oportunidade de enxergar, com olhar crítico, as engrenagens que operavam nos bastidores da informação em um período decisivo da história brasileira.

Folha do Oeste nos arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações):  o que ainda revelam os documentos sobre o jornal nos anos 1980?

 Como já apresentado no Capítulo 1 desta série, documentos produzidos pelos órgãos de informação do Estado registraram a presença do jornal Folha do Oeste em levantamentos nacionais sobre a imprensa do interior brasileiro. 

A análise de novos registros permite agora avançar nessa investigação, revelando não apenas a estrutura do periódico, mas também elementos que evidenciam sua organização administrativa ao longo da década de 1980.

Essa ampliação temporal é fundamental. Isso porque os documentos consultados indicam que o jornal não pode ser compreendido apenas a partir de uma única gestão, mas deve ser analisado como parte de uma trajetória institucional mais longa, marcada por diferentes direções e reorganizações empresariais desde sua fundação em 1944.

Mais do que registrar a existência do jornal Folha do Oeste, essas fontes revelam, com um nível incomum de detalhamento, como o periódico foi descrito, acompanhado e inserido nos levantamentos oficiais da época. 

Os dados analisados abrangem diferentes momentos da década de 1980 e permitem identificar mudanças significativas na estrutura do jornal, evidenciando uma transição entre o período em que esteve sob a direção de José Waldemar Teixeira de Melo, no início da década, e a gestão de Sérgio Fernandes da Cunha, já em sua fase final.

Diante disso, a pergunta que orienta este capítulo deixa de ser apenas descritiva e passa a ser interpretativa. O que exatamente esses documentos revelam? Estariam eles (SNI) registrando apenas um jornal ou revelando uma estrutura em transformação, acompanhada de perto por órgãos de informação do Estado?

Um documento particularmente revelador, datado de 1981 e classificado como confidencial pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), apresenta um levantamento minucioso sobre o periódico, oferecendo um retrato detalhado de sua estrutura naquele momento.

O documento produzido revela que o acompanhamento da imprensa do interior brasileiro não se dava de forma superficial ou ocasional, mas por meio de instrumentos sistemáticos e detalhados de coleta de dados.

No caso do jornal Folha do Oeste, esse acompanhamento materializou-se na aplicação de um Questionário composto por 24 itens, elaborado com o objetivo de levantar informações precisas sobre a estrutura, funcionamento, alcance e características editoriais do periódico.

Esse dado, por si só, já altera a forma como o documento deve ser interpretado, pois demonstra que não se tratava apenas de registrar a existência de jornais, mas de compreendê-los em profundidade, quase como se fossem objetos de mapeamento estratégico.

O questionário abrange uma ampla gama de aspectos que, analisados em conjunto, revelam o interesse do Estado em construir um perfil completo do veículo de comunicação. As perguntas contemplam desde dados básicos, como nome do jornal, razão social, data de fundação e endereço, até informações mais sensíveis relacionadas à estrutura de propriedade, composição administrativa e funcionamento interno.

No caso da Folha do Oeste, destaca-se a identificação clara de seus proprietários, com a concentração quase total das cotas nas mãos de José Waldemar Teixeira de Melo, o que indica um modelo de controle centralizado e reforça a figura do proprietário como elemento-chave na definição dos rumos do jornal.

Além disso, o questionário avança sobre aspectos operacionais, como periodicidade, dias de circulação, número médio de páginas, tiragem e maquinário utilizado na impressão, revelando não apenas a capacidade produtiva do jornal, mas também seu nível técnico e organizacional.

A tiragem de 2.000 (dois mil) exemplares, associada a uma circulação que ultrapassava os limites de Itaúna e alcançava cidades vizinhas e até centros urbanos maiores, indica que o periódico possuía uma inserção regional relevante, funcionando como elo de comunicação entre diferentes localidades.

Outro conjunto de informações presentes no questionário diz respeito à distribuição e às fontes de receita, incluindo assinaturas, venda em banca e publicidade. Esses dados permitem compreender o modelo econômico do jornal e sua forma de sustentação financeira, ao mesmo tempo em que indicam sua dependência de redes locais de consumo e financiamento. 

A inclusão de perguntas sobre concorrentes diretos, tanto em Itaúna quanto em cidades próximas, revela que o levantamento não ignorava o contexto de disputa no campo da comunicação, sugerindo que o interesse não estava apenas no jornal isoladamente, mas também na posição que ele ocupava dentro de um sistema regional de imprensa.

O questionário também investiga a existência de interrupções na circulação do periódico, o número de funcionários assalariados e até possíveis projetos de expansão, como a viabilidade de uma emissora de rádio. 

Esses elementos indicam que o Estado buscava avaliar não apenas a situação atual do jornal, mas também suas perspectivas futuras e sua capacidade de crescimento, o que reforça a ideia de um monitoramento voltado para o potencial de influência do veículo.

Particularmente relevante é o item que trata dos assuntos predominantes publicados pelo jornal, no qual se registra que a Folha do Oeste se apresentava como um veículo aberto a todas as correntes de opinião e sem vinculação político-partidária. 

Mas o contexto em que essa declaração aparece levanta uma questão inevitável: até que ponto essa neutralidade era uma posição editorial ou uma forma de se situar diante de um ambiente de vigilância?

 Essa autodefinição, no entanto, deve ser analisada com cautela, pois, inserida em um contexto de vigilância institucional, pode refletir não apenas uma postura editorial, mas também uma forma de posicionamento diante de um ambiente político sensível, no qual a neutralidade declarada funcionava como estratégia de legitimidade e proteção.

Ao reunir esses 24 itens em um único instrumento de coleta, o SNI produziu mais do que um simples cadastro. O que se observa é a construção de um retrato detalhado do jornal enquanto organização, empresa e agente social. 

Cada informação, isoladamente, pode parecer apenas técnica, mas, em conjunto, elas permitem mapear relações de poder, redes de circulação, capacidade de alcance e potencial de influência sobre a opinião pública.

Assim, a existência de um questionário estruturado em 24 itens não apenas confirma o interesse institucional pela imprensa local, mas também indica a presença de uma lógica de vigilância que operava de maneira organizada e sistemática, transformando jornais do interior em objetos de conhecimento e acompanhamento dentro de um contexto político mais amplo.

Avançando para o final da década, os registros não apenas aumentam em volume, mas também mudam de natureza. As fichas produzidas pelo SNI entre 1987 e 1988 revelam uma Folha do Oeste em nova configuração, marcada pela ampliação de sua rede de colaboradores. Nomes ligados à produção jornalística, à vida cultural e até à atuação política local passam a aparecer associados ao periódico, indicando um jornal mais inserido e atuante no espaço público.

Entre eles, destacam-se os jornalistas Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares, vinculados à condução administrativa, além de uma extensa rede de colaboradores que evidencia um veículo já profundamente integrado à dinâmica social da cidade.

Também são mencionados colaboradores ligados à produção jornalística e editorial do periódico, como Maria Helena Moraes, José Raimundo Rodrigues, Vicente Parreiras, Eblaid Silva, Janaina Moraes, Beatriz Chaueb Corrêa, Danilo de Oliveira Lopes, Raimundo Araújo, Geovane Vinícius (ou Giovanni Vinícius), Geovane Vilela e Silva, Alberto Libânio Rodrigues, Fábio Souza Gonçalves, Paulo Bonfim, Heli de Souza Maia e Aleino de Souza, entre outros nomes registrados na documentação.

A presença de uma relação extensa de colaboradores indica que o jornal operava por meio de uma rede diversificada de jornalistas, colunistas e articulistas, refletindo a dinâmica característica da imprensa regional, frequentemente sustentada por profissionais ligados à vida cultural, social e política da própria comunidade.

Essa reorganização interna se reflete também em seus indicadores operacionais: o jornal passa a operar com tiragem aproximada de 4.500 exemplares e periodicidade bissemanal, consolidando sua ampliação no cenário regional.

A importância do periódico no cenário regional também pode ser observada em registros públicos da época. Em pronunciamento realizado na Câmara dos Deputados e publicado no Diário do Congresso Nacional, em 9 de outubro de 1985, o deputado Dimas Perrim (PMDB–MG) mencionou a imprensa local ao afirmar que o município de Itaúna contava com “cinco importantes órgãos” de comunicação, destacando entre eles o jornal Folha do Oeste.

No mesmo discurso, o parlamentar citou a direção do periódico, então associada a Sérgio Fernandes da Cunha, Renato Geraldo Soares, Marlênio Raimundo de Souza e Alberto Libânio Rodrigues, observando que o jornal possuía “grande penetração local”, marcada pela seriedade de suas matérias e pelo interesse em defender as causas de Itaúna e dos municípios vizinhos.

Esse registro demonstra que, naquele período, o jornal era reconhecido publicamente como um dos veículos relevantes de comunicação, sendo reconhecido tanto no debate público quanto em registros administrativos do próprio município e na região.

As próprias fichas consultadas registram ainda uma observação adicional sobre o periódico. Na seção destinada às observações, consta que o jornal Folha do Oeste foi declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, sendo também reconhecido como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna/MG. Embora o documento não apresente a data exata dessa lei, a informação aparece registrada na “Ficha Cadastral de Veículo de Comunicação Social” elaborada pelas autoridades em 27 de maio de 1987.

Ao mesmo tempo, os documentos administrativos produzidos por órgãos de informação do Estado mostram que o periódico também figurava em sistemas de cadastro e acompanhamento institucional. As fichas analisadas registram dados detalhados sobre o funcionamento do jornal, incluindo endereço da redação, estrutura da empresa editora, composição da equipe editorial, tiragem e área de circulação.

O nível de detalhamento presente nesses registros indica que os órgãos responsáveis pelo levantamento buscavam manter atualizados cadastros completos sobre veículos de comunicação em atividade no país. Esse tipo de documentação não se limitava a grandes jornais de circulação nacional, incluindo também periódicos regionais do interior.

Outro documento consultado no mesmo conjunto de arquivos acrescenta um elemento adicional a esse panorama. Trata-se de um relatório administrativo que registra a organização do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Minas Gerais no ano de 1988, no qual aparecem listados nomes associados à constituição de comissões diretoras municipais provisórias em diversas cidades do estado.

Na relação referente ao município de Itaúna, o documento menciona os nomes de Sérgio Fernandes da Cunha, Geovane Vilela e Silva e Valdecir Alves da Silva como integrantes da estrutura inicial de organização partidária local.

A presença desses registros sugere que alguns nomes ligados à imprensa local também participavam da vida política e institucional do município, fenômeno relativamente comum em cidades de porte médio, onde diferentes esferas da vida pública frequentemente se entrelaçam.

Nesse contexto, surge uma questão interpretativa relevante. Se, por um lado, registros públicos indicam que o jornal Folha do Oeste possuía grande presença na comunicação regional e era reconhecido como um dos principais veículos da cidade, por outro lado documentos administrativos produzidos por órgãos de informação registravam de forma detalhada sua estrutura e seus responsáveis.

Diante desse cenário, cabe perguntar: seria justamente a relevância do jornal na formação da opinião pública local um dos fatores que teria motivado a elaboração desses registros institucionais sobre o periódico e sua equipe editorial?

Embora os documentos não ofereçam resposta direta a essa questão, eles evidenciam que a imprensa regional também esteve presente nos arquivos produzidos por estruturas de informação do Estado durante o período de transição política brasileira.

Mais do que “registros administrativos”, esses documentos constituem hoje fontes importantes para compreender a história da imprensa regional e o papel desempenhado por jornais locais na circulação de ideias, debates públicos e construção da memória das cidades do interior.

A análise desses materiais contribui para ampliar o entendimento sobre a trajetória da Folha do Oeste e sobre a atuação de seus dirigentes e colaboradores na vida pública de Itaúna durante as transformações políticas e institucionais da década de 1980.

Dessa forma, o documento revela que a Folha do Oeste, embora inserida em um contexto local, era percebida como um agente relevante no circuito comunicacional regional. Ao mesmo tempo, evidencia que a imprensa do interior também estava integrada aos mecanismos de observação do Estado, sendo analisada não apenas pelo conteúdo que publicava, mas sobretudo pelo papel que desempenhava na articulação social e na circulação de ideias.

Quando observados em conjunto, os registros do início e do final da década de 1980 permitem ainda identificar uma transformação significativa na estrutura do jornal. Sob a direção de José Waldemar Teixeira de Melo, no início da década, a Folha do Oeste apresentava uma organização mais concentrada e operacionalmente enxuta. 

Já nos anos finais, durante a gestão de Sérgio Fernandes da Cunha, o periódico surge com uma configuração ampliada, marcada pelo aumento da tiragem, pela diversificação de colaboradores e por maior inserção no espaço público local.

Mais do que uma simples mudança administrativa, essa transição evidencia um jornal em movimento e, ao mesmo tempo, acompanhado de perto pelos órgãos de informação. Nesse sentido, a Folha do Oeste não aparece nos documentos apenas como veículo de comunicação, mas como parte de uma estrutura dinâmica cuja evolução também foi objeto de registro e observação ao longo da década.

Importante ressaltar que o Serviço Nacional de Informações (SNI) foi o órgão federal de inteligência criado em 1964 para coordenar em todo o país as atividades de informação do regime militar. Já o DOPS de Minas Gerais (Departamento de Ordem Política e Social) era a polícia política estadual, encarregada de investigar opositores do regime em Minas.

Embora um fosse federal e o outro estadual, ambos integravam o mesmo sistema de segurança interno (SISNI), que reunia polícias civis, militares e federais com o objetivo comum de monitorar. Na prática, SNI e DOPS-MG trabalhavam lado a lado. 

No próximo capítulo desta série, novos documentos e registros históricos serão apresentados, ampliando a investigação sobre a presença da imprensa itaunense nos arquivos produzidos por órgãos de informação e sobre o papel desempenhado pelos jornais locais na história da comunicação regional. 

Entre os periódicos desse período destaca-se o jornal Brexó, cuja atuação nos debates públicos da cidade será examinada a partir de documentos produzidos pela polícia política e das próprias edições do periódico preservadas da época. 

 
Disponível: Folha do Povo

REFERÊNCIAS:

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

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 BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).

Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC, GNC.OOO.88013642. Título: Organização dos partidos politicos em minas gerais,psb., p. 1-7. – Dossiê. Código de referência: BR DFANBSB V8 MIC GNC OOO 88013642. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013642/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013642_d0001de0001.pdf . Acesso em: 04.abr. 2026.

BRASIL. Congresso Nacional. Diário do Congresso Nacional. Seção 1, ano XL, n. 126, Capital Federal, 9 out. 1985, p. 39.

Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos. 

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