quinta-feira, junho 27, 2019

SILÊNCIOS

 Toni RAMOS GONÇALVES*


“Um café, por favor. ” “Sim, senhor. Algo para comer? ”
Ele indica um salgado do cardápio. A garçonete sorridente e bem vestida vira-se e sai em direção à cozinha, após anotar o pedido.

Com o olho na porta, ele vê a mulher que para na entrada. A claridade que vem de fora cega seus olhos por alguns instantes. Ela tira os óculos escuros e balança a cabeça, mostrando os cabelos compridos e esvoaçantes, o vestido branco, justo e decotado.
Conhecia aquele cabelo, conhecia aquele jeito de andar. Fazia tempos que não a via. Na última vez, era uma moça ainda, pouco mais de dezoito anos. Uma moça com cabelos negros e lábios carnudos.... Encantadora.

Ao reconhecê-lo, se dirige à mesa, sobre olhares atentos de alguns clientes. Ele a recebe de pé, estendendo-lhe a mão. “Quanto tempo, ” disse tocando levemente sua mão.

“Vinte anos, ” ela responde, desvia o olhar, senta-se de costas para a porta e faz um gesto para a garçonete. Pede um suco e dá um leve sorriso para a mesma garçonete que o atendeu. Era o mesmo sorriso que ele conhecia, os mesmos lábios grossos.

Frente a frente, aguardam os pedidos, respeitam seus silêncios. Ele cruza as mãos sobre o colo e, vez ou outra, observa o sol de maio invadindo o ambiente e o cheiro de mar que vem da praia de Copacabana. Furtivamente, olha para ela por trás das lentes, o decote em V provocativo, suas mãos brancas, seus cabelos, hoje na cor avermelhada, sua cintura que se insinua por sob o vestido.

Em pouco tempo, a garçonete entrega seu café, seu salgado e o suco pedido por ela.  “Algo mais, senhor? ” “Não, obrigado. ”
Ela não consegue olhar na direção dele, mas sabe que seus olhos esverdeados estão pousados sobre ela, aguardando alguma palavra. “Nunca pedi seu perdão”, diz o homem, provando o café, após misturar o adoçante. 

Ela, sem nada dizer, ainda evitando os olhares, observa os cabelos grisalhos penteado para trás, colados com gel. Era a mesma forma de penteado do passado; a barba grisalha aparada, talvez para aquele encontro, a camisa esticada a ferro, os braços peludos e a mão enorme. Ela sempre o achou elegante e ainda se lembra de alguns detalhes. Um carinho enorme a invade e ela tem vontade de chorar. O passado condenara suas vidas.

“Foi obra da fatalidade o que aconteceu. Hoje eu entendo. Perdoe-me, ” diz ele tentando tocar a mão dela sobre a mesa. Diante da recusa, desvia o olhar novamente para a janela em busca do mar.

Há cerca de um mês, ele recebeu, no meio da noite, por telefone, a notícia do falecimento do seu irmão, também marido da mulher. O fantasma do passado se fazia presente. Recusou-se a ir ao enterro. Dois dias atrás, esta mesma mulher enviou uma mensagem marcando o encontro na Confeitaria Colombo, no Forte Copacabana.

Aquela paixão secreta no passado arruinou suas vidas. Depois da tragédia, um inocente morto, nada voltou a ser como antes. Cada segundo longe dela alimentou ainda mais seu amor, adormecido pela dor e tristeza.

Buscou outras amantes sem sucesso. Seu maior relacionamento, em todo este tempo, durou apenas dois anos. Um dia, ao retornar para casa, encontrou um bilhete de despedida da mulher e nem se preocupou em ir atrás. Estava condenado a viver sozinho.

Nada preenchia o vazio que inundava sua alma. Desde então, não esperava nada do dia seguinte. Recentemente aposentado, vivia a perambular pelas praças da cidade durante o dia e a noite, dormia numa pensão barata. Nada precisava realmente ser modificado.

Ela repara em seu silêncio e compreende que ele está se lembrando de fatos antigos. Ceder ao pecado tirou-lhe um pedaço de suas vidas. Não conseguia perdoar a si mesma e nem a ele, pelo menos até aquele momento, ao revê-lo.

As únicas recordações felizes dela, a dor da perda, levavam ao passado e àquele homem. Todo aquele tempo vivido de forma monótona e vazia, sem sentido, absorvendo toda a culpa, em silêncio. Sentia-se muito só.

E por um momento, os dois se olham de frente. Ela ergue os olhos, e ele vê que seu olhar era o mesmo pelo qual se apaixonara anos atrás. Percebe nos cílios dela, um esboço de oceano ou uma gota despercebida. É um olhar terno, sofrido e esperançoso.

Um tipo de sentimento que os dois não conhecem mais, mas que ressurge de um passado muito distante. Uma pequena contração dos cantos da boca dá a impressão momentânea de que iam sorrir de seus próprios desesperos. Porém, logo a seguir, ambos deixam cair as pálpebras, alongando mais o silêncio.

E em silêncio ficariam, se a mulher, já sem forças para conter os olhos em lágrimas, não estendesse a sua mão. O mesmo amor que os uniu e os separou, ainda existia entre eles.

Então ele pega a sua mão e enfim sorri.



* Escritor itaunense

Organização: Charles Aquino


segunda-feira, junho 24, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (PARTE I)

A história da saúde pública do Arraial de Sant'Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, se dá em tempos bem remotos ao século XIX. Importantes prestadores de serviços à saúde do arraial, seriam também os farmacêuticos/boticários práticos ou formados — “peritos no desenvolvimento, produção, manipulação, seleção e dispensação de medicamentos”.

Em 1875, o farmacêutico Manoel Hilário Pires Ferrão proferiu uma conferência intitulada “Da farmácia no Brasil e de sua importância: meios de promover a seu adiantamento e progresso”. Nessa ocasião, chamou a atenção para a distinção que deveria ser feita entre boticário e farmacêutico.

 O boticário podia ser qualquer um que resolvesse abrir uma botica e comercializar a retalho vários remédios sem ter direito para isso. Sobre o farmacêutico, Manoel citou a França como exemplo a ser seguido, pois, desde finais do século XVIII adotara o nome farmacêutico para designar aqueles que eram formados em cursos regulares de farmácia.

A designação “boticário” continuou a ser usada pela população para se referir ao farmacêutico diplomado. Apesar da lei de 03 de outubro de 1832 estabelecer que ninguém poderia “curar, ter botica, ou patejar” sem título conferido ou aprovado pelas faculdades de medicina, muitos proprietários de boticas pagavam farmacêuticos diplomados para dar nome a seus estabelecimentos, prática que se estendeu até o século XX.

As boticas ou farmácias, mesmo nos centros urbanos da época, como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Ouro Preto e Recife, acabavam funcionando como locais de assistência médica e farmacêutica, incluindo a prescrição e manipulação dos medicamentos e, provavelmente, a aplicação de procedimentos terapêuticos usuais na época, tais como sangrias, com o emprego de ventosas, lancetas ou sanguessugas, instrumentos que se encontravam à venda nas próprias farmácias (Texto 1).

Aureliano Nogueira Machado

O primeiro farmacêutico formado que se tem notícia no arraial de Sant'Ana, seria Aureliano Nogueira Machado. O historiador Dr. Guaracy de Castro Nogueira nos diz:

Trata-se de ilustre personalidade de tradicional família de Itaúna. Ele era filho de Justino José Machado e de dona Purcina Nogueira Duarte. Esta descendente dos fundadores de Itaúna, bisneta de Tomas Teixeira e sobrinha bisneta de Gabriel da Silva Pereira, os portugueses que aqui se estabeleceram nas primeiras décadas do século XVIII.

Aureliano Nogueira Machado foi o primeiro farmacêutico filho de Itaúna formado na antiga Escola de Ouro Preto, fundada pelo Imperador Dom Pedro II. Estabeleceu com sua farmácia alopática no alto da antiga rua direita, perto do Mirante, no sobrado de sua mãe Purcina, passando-se depois para um sobradinho, na mesma rua Direita, que existiu junto ao antigo local da Fundição Corradi (hoje Av. Getúlio Vargas). Por último, funcionou na antiga Rua do Rosário, em casa que depois foi residência do dentista Gustavo de Matos e estabelecimento do senhor José Rosa dos Santos.

Exerceu com sucesso sua profissão, não só por causa de sua competência, como também pelos conhecimentos que tinha de farmacologia e das disciplinas básicas comuns dos formados em medicina. Receitava e manipulava medicamentos o que despertou ciúme de quantos viam nele um concorrente.

 Foi acusado de não ser formado. Indo a Ouro Preto buscar o seu diploma, hospedou-se no Hotel Tófolo, e lá foi envenenado quando tomava sua refeição. Não compareceu à formatura, porque era republicano.

Não se fez a apuração para se punir o culpado pelo crime e tudo caiu no esquecimento, sob a hipótese de que o mandante era pessoa de muito prestígio em Santana do São João Acima. Analisando sua curta e proveitosa vida, conclui-se que viveu sob ameaças por causa da forma como exercia sua profissão. 

Daí, cauteloso, sentindo-se perseguido, fez seu testamento em 12 de julho de 1887. Seu pai já era falecido. Deixou seus bens para sua mãe Purcina, salvo um legado no valor de um terço dos bens para sua filha única Carolina, filha de Carolina Fernandes de Sousa, sua companheira e que o ajudou ao longo de sua vida. Seu testamento foi aberto após sua morte em 16 de agosto de 1891.

Zacarias Ribeiro de Camargos, seu tio, tornou-se tutor da menor Carolina. Os três testamenteiros indicados por ele para procederem ao cumprimento do testamento, Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, doutor José Gonçalves de Sousa Moreira e doutor Augusto Gonçalves de Sousa Moreira, pela ordem, recusaram a tarefa, desistindo da incumbência quando citados pelo meirinho.

Em 15 de dezembro de 1891, seu irmão Josias Nogueira Machado aceitou ser seu testamenteiro dativo. O inventário só foi requerido em 5 de setembro de 1899, 8 anos depois de seu falecimento. Sua mãe herdou bens no valor de 2 contos, 738 mil, 826 réis e sua filha Carolina a importância de um conto, 369 mil e 413 réis, sendo que o total de sua herança era de 4 contos, 108 mil, 239 réis.

 Carolina nasceu aos 30 de março de 1885 e foi batizada, em Carmo do Cajuru, pelo vigário Guilherme Nunes de Oliveira em 12 de janeiro de 1886. Mais tarde casou-se com o ilustre técnico têxtil Augusto Alves de Sousa, um dos primeiros operários da Santanense e da Itaunense, dando origem a numerosa família itaunense, que tanto tem contribuído para o desenvolvimento de nossa terra.

A homenagem que hoje o  prestamos a tão importante personalidade, tem duplo objetivo: fazer justiça, ainda que tardia, ao primeiro farmacêutico formado de Itaúna e resgatar sua memória, colocando-a em evidencia para o aplauso e o reconhecimento dos itaunenses, que mais uma vez se colocam ao lado dos injustiçados. Esta é uma homenagem muito justa (Texto 2).


No decreto de número 9.554 do dia 3 de fevereiro do ano de 1886 reorganizava os serviços Sanitários do Império para conceder licenças aos farmacêuticos formados ou práticos, conforme os artigos 65 a 68:

 Art. 65 - Nas localidades em que não houver pharmacia dirigida por profissional habilitado, a Inspectoria Geral de hygiene poderá conceder licença a praticos para abrirem pharmacia, dadas as seguintes condições: 1ª Ser a abertura da pharmacia julgada necessaria pela Camara Municipal do termo; 2ª Apresentar o pratico documentos que certifiquem as suas habilitações e probidade.

Art. 66 - Requerida a licença de que trata o artigo precedente, a Inspectoria Geral fará publicar, á custa do requerente, por oito dias successivos, no Diario Official e no jornal official da Provincia onde o pratico pretender estabelecer-se, o teor do requerimento; declarando que, si nesse prazo nenhum pharmaceutico formado communicar á mesma Inspectoria ou ao Inspector de hygiene provincial a resolução de estabelecer pharmacia na localidade, será concedida ao pratico a licença requerida.

Si algum pharmaceutico communicar que pretende estabelecer-se na referida localidade, o Inspector Geral de hygiene ou o Inspector provincial o intimará a comparecer na Repartição e assignar um termo, no qual se comprometta a abrir a sua pharmacia dentro do prazo que fôr marcado.

Art. 67. Realizado o estabelecimento do pharmaceutico, nos termos do artigo antecedente, o Inspector Geral o fará declarar pelo Diario Official; no caso contrario, será concedida licença ao pratico que a tiver requerido em primeiro logar.

Art. 68. Concedida a um pratico licença para abrir pharmacia, subsistirá ella por todo o tempo, ainda mesmo que na localidade venham a estabelecerse pharmaceuticos formados; mas só terá effeito na mesma localidade ou em outra que se achar nas condições mencionadas no art. 65 e para onde poderá ser transferida a pharmacia, com autorização da Inspectoria Geral. (Texto 3)





REFERÊNCIAS: 

Pesquisa e Organização: Charles Aquino


Texto 2: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam)  

Texto 3: Coleção de Leis do Império do Brasil - 1886, Página 57 Vol. 1 (Publicação Original). Disponível em< http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-9554-3-fevereiro-1886-543197-publicacaooriginal-53270-pe.html  Acesso em< 15/06/2019.


Acervo 2: ICMC - Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira. 



NOSSA SENHORA DE ITAÚNA – UMA SÍNTESE

Prof. Luiz MASCARENHAS*
        
ITAÚNA sempre foi uma comunidade que cultivou, com muita devoção, a sua Fé. A cidade nasceu às margens do rio São João, à sombra de um velho cruzeiro plantado pelos pioneiros de nossa povoação, lá no longínquo séc. XVIII, no alto de um monte, hoje denominado Morro do Rosário.

O povoamento se deu, principalmente, devido ao fluxo entre dois grandes centros mercantis daquele tempo: Bonfim e Pitangui. E uma de nossas denominações mais antigas, remete-nos a esta Fé: “Sant’Anna do São João Acima de Pitanguy”.  O arraial desenvolveu-se até ser elevado à paróquia. Em meados do séc. XIX (1841) era criada a Paróquia de Sant’Ana – genitora da própria cidade de Itaúna e hoje desdobrada em outras cinco paróquias (Fátima, Coração de Jesus, Piedade, Nossa Senhora Aparecida e São José).

 Esta Fé, viva e muito presente no seio da sociedade itaunense foi produzindo seus frutos de esperança e de amor e transformando as realidades. Haja visto o significativo número de itaunenses que ao longo dos tempos tomou sacerdócio católico para suas vidas – em torno de trinta padres! 

Entretanto, um fato assinala de maneira indelével, as páginas de nossa História.  Uma história de Fé, de conversões e de filial amor à Nossa Senhora.  O ocorrido deu-se no ano de 1955; 27 de julho de 1955, para ser mais preciso- um dia após a cidade comemorar sua excelsa padroeira, a Senhora Sant'Ana.  Naquele dia, a bucólica Itaúna, abalou-se com a notícia de uma possível aparição de Nossa Senhora a três garotos, em uma mata fechada próxima da antiga Vila Mozart, hoje Bairro de Lourdes.

Filhos das primeiras famílias a habitarem o local, Eduardo Vasconcelos, Antônio Nunes e José Rita eram amigos e gostavam de brincar na mata perto de suas casas. Tarzan era um dos personagens preferidos dos meninos, e a mata fechada era o cenário ideal para suas brincadeiras e estripulias. Em uma manhã, ao sair para procurar o cavalo do pai de Eduardinho, os três garotos se assustaram com um “macaco” de aspecto tenebroso. Ao clamarem desesperados pela Mãe Santíssima, logo perceberam uma luz forte descendo do céu.

Na época com 8 anos, o bombeiro hidráulico aposentado Eduardo Vasconcelos lembra-se bem daquele dia. “Vimos descendo do céu uma nuvem branca brilhante, que foi parar sobre um cupinzeiro na mata. Apareceu Nossa Senhora, toda bonita, como se fosse um raio de luz. Ficamos assustados e fomos procurar o padre José Netto”, conta.

A notícia se espalhou rapidamente pela cidade e a Vila Mozart passou a ter um intenso movimento de curiosos e fiéis em busca das bênçãos da Virgem Maria. As pessoas foram abrindo caminho na mata para facilitar o acesso ao cupinzeiro e o local da aparição foi se transformando. Eduardinho, Totõe e José Rita continuaram a visitar o local por vários meses, e as aparições continuaram. Outros videntes surgiram, e a história foi ganhando força.

De boca em boca, o fato extraordinário ganhou até mesmo as páginas de jornais da capital mineira, o que fez atrair fiéis e curiosos para o local durante muito tempo.

         Sempre mantendo muita discrição sobre o acontecido, Eduardo Vasconcelos descreve com clareza a figura de Nossa Senhora: “Ela tinha a pele morena clara, cabelos pretos compridos caídos sobre os ombros, mãos e dedos compridos. Seu vestido era branco e brilhante e, sobre ele, havia um manto azul. Ela não usava véu. Na mão direita, sobre o peito, carregava um terço com contas que pareciam diamantes. Na mão esquerda, tinha uma flâmula branca em formato de triângulo”. Sua última visão da santa foi aos 18 anos.

 Naquele tempo, sem acreditar muito no burburinho que acontecia na cidade, um farmacêutico de nome Ovídio Alves de Souza começou a fazer visitas ao local da aparição por curiosidade. No dia 2 de agosto de 1955, durante uma de suas visitas à gruta, surgiu em seu pensamento as palavras: “ó Virgem Maria Santíssima, em honra e glória ao Divino Espírito Santo, concedei-me uma graça. Fazei com que eu note a vossa presença, não só para aumentar a minha fé, mas também para a conversão dos que não creem”.

Poucos segundos depois de repetir algumas vezes a prece, para memorizá-la, ele vê a Virgem Maria ao lado do cupinzeiro. Achando que poderia ser uma ilusão de ótica, o farmacêutico mudou de posição diversas vezes, contudo continuou a ver-  estupefato- aquela figura feminina radiante como o sol.

 Ele, que chegou a considerar exagerada a reação das pessoas, acabou se tornando um dos mais importantes videntes das aparições em Itaúna. Portou-se como os outros; com delicada discrição – fato que marca muito toda essa história- e em contato constante com o padre José Ferreira Netto, então o pároco da Paróquia de Sant'Ana. Nos meses seguintes Ovídio seguiu visitando o local e tendo diversas visões. A última visão de Nossa Senhora que teve foi em 15 de agosto de 1961.

 Ovídio Alves de Souza – o farmacêutico - registrou toda a experiência em um diário. Em 27 de novembro de 1955, ele descreveu mais uma aparição, detalhando pela primeira vez a mensagem escrita na flâmula que Nossa Senhora trazia: “JESUS CHRISTO, ETERNO DEUS. O PAGANISMO AMEAÇA O MUNDO. ERGUEI O ALTAR, ORAI COM FÉ E VÓS VEREIS O MILAGRE DA CONVERSÃO”.

A atuação do farmacêutico nessa história não ficou restrita apenas a ter as visões, registrá-las e manter-se, até o fim da vida, frequentador assíduo do local. Ele ajudou a população e a Igreja a levantar o dinheiro para a aquisição do lote e construção e preservação da gruta.

As obras da Gruta de Nossa Senhora de Itaúna começaram em 1956, sendo concluídas no ano seguinte. Em 1958, foi entronizada no altar construído no mesmo local do cupinzeiro a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, e missas começaram a ser celebradas.

 “Quando das aparições, nosso padre era muito pragmático. Ele seguiu tudo de perto, mas pediu cautela e que não se explorasse comercialmente o acontecido”, recorda a Escritora Maria Lúcia Mendes, que publicou recentemente uma obra sobre o assunto. Todos os párocos que sucederam o venerando Cônego José Ferreira Netto, seguiram o seu exemplo pastoral. Um deles, hoje bispo auxiliar de Curitiba, Dom Francisco Cota, explicou o seu raciocínio: “Ainda é uma aclamação popular e respeitamos a fé do povo. ”

Já no ano de 2001, Dom José Belvino do Nascimento – de feliz e saudosa memória- então bispo de Divinópolis, deu autorização para a reprodução da imagem de Nossa Senhora de Itaúna – conforme descrita pelos videntes- mas a aparição e a imagem ainda não foram reconhecidas pela Santa Sé, mesmo preenchendo os requisitos necessários e se desenvolvendo de maneira muito espontânea”, explicou nosso então bispo diocesano.

Nossa Senhora pediu em sua mensagem:  ‘erguei o altar’; e construíram a gruta. Recomendou: ‘orai com fé’ e anos depois de tanta devoção, surgiu o grupo “Filhos de Maria”. E concluiu Maria Santíssima: “e vós vereis o milagre da conversão’. Penso que o terço dos homens é o cumprimento dessa profecia. Toda quarta-feira, às 20h, a Gruta de Nossa Senhora de Itaúna recebe o primeiro e um dos maiores grupos do terço dos homens do país.

A Gruta de Nossa Senhora de Itaúna – um oásis de Fé e de Esperança- no coração da cidade, continua aberta, a atrair as pessoas para o aconchego do colo da Mãe, entre o frescor das árvores, como um novo Éden, aonde Deus passeia no meio dos homens.

SALVE MARIA!








*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA/ Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e “O que a vida quer da gente é coragem”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria” Cidadão Honorário de Itaúna.

Acervo: Prof. Luiz Mascarenhas
Organização: Charles Aquino

O SER ESCRITOR

Prof. Luiz MASCARENHAS*

Definições são obras da engenharia dos vocábulos. Definir alguma coisa – de forma correta, clara e precisa - sempre é tarefa extremamente árdua e difícil; hercúlea diria. Porque trata-se de reduzir a termo a essência de algo. Portanto, não é empresa aonde qualquer um obtenha êxito. 

Aventurar-se no uso do verbo ser no presente do indicativo para o que quer que seja, é mister para os grandes luminares da Ciência. “O Escritor é...”. Como este escrevedor de coisas não é luminar de nada; na verdade, chafurda-se nas trevas de sua obtusidade, não irei atrever-me definir “escritor”.

Escritor é aquele que escreve. Que banalidade, que boçalidade seria conceituar assim o escritor. Escritor não apenas escreve. Escritor utiliza-se da língua para traduzir emoções, sentimentos, histórias...por vezes, sua alma, sua essência ali, denuda para o leitor. Assim me sinto. Assim me percebo.

Primeiramente escrevo para minha própria necessidade. É preciso. É necessário escrever. Caso contrário, entupo-me de ideias, coisas, vultos e gentes no meio da cabeça. Escrever é uma forma de aliviar-se. Pronto. Pus para fora o que queria sair... (desse jeito; tanto que de vez em quando a escrita precisa ser imediatamente descartada porque o seu odor é fétido...). 

De outas vezes, as linhas mal traçadas são jogadas na Imprensa e atiradas ao léu... Alguém lerá! E pronto.  Irão gostar? Essa não é uma indagação que me faço. Apenas escrevo. Ganhando forma na Imprensa, já não cabe a mim interpretar, gostar ou desgostar. 

Longe de mim uma escrita perfeitinha, certinha, comportadinha e que sirva ao sistema. Escrevo para mexer com cérebros e corações. O ato de escrever precisa ser rebelde, revolucionário. Ou se enquadra então no meu outro ofício, o de Historiador. Aonde não me cabe escrever a História e sim, narrar. Historiador não é o  “autor” da História e sim, seu “buscador”.

Escritores -em uma boa parcela -são seres notívagos, boêmios, incertos e desajustados. Não se escreve para ser “elegante”.  Não se escreve para ser admirado. A admiração vem da reciprocidade. Da comunhão de ideias. Da troca de experiências. Poeta que não se embebeda, que não se apaixona, que não sofre ou não chora...é um escrevente de cafonices e tralhas gramaticas adocicadas e ridículas

         E nenhum escritor escreve um best-seller do nada. São obras muito trabalhadas que envolvem sentimentos, paixões e muito conhecimento também. Há os que se aventuram em publicar qualquer coisa...Eu escrevo por necessidade e escrevo primeiramente para mim mesmo.  Além do que, publicar é tarefa muito dispendiosa.

         Escrevo. Escrevo crônicas, contos, poesias...Dependendo da inspiração ou da quantidade de vinho ingerido.  E ainda fundei uma Academia. É...sim senhor. Eu fundei a Academia Itaunense de Letras. Eu fundei. Eu. Eu e mais oito escritores. Sim. Nós a fundamos. Ela aí está. E porquê? Porque era um sonho antigo de Itaúna ter sua Academia de Letras. Fundamos porque nos achávamos os melhores? Não. A fundamos pensando na nossa Itaúna.

Ela tem como finalidade congregar intelectuais que tenham atividade literárias, em prosa e verso - romancistas, poetas, cronistas, trovadores, humanistas, biógrafos, ensaístas, professores estudiosos da língua portuguesa - bem como promover os seus trabalhos literários através de revistas, jornais, rádio, televisão, e edições de obras afins, bem como promover eventos culturais e artísticos de qualquer natureza.

         A AILE não buscará colunas sócias ou os salões da High Society barranqueira. A AILE estará nas praças, nos botecos, no alto Rosário a saudar o congado, nas escolas públicas e no meio do povo, a incentivar a nossa Cultura. Cultura não academicismo. 

Cultura não erudição. Cultura não estrelismos ou auto divulgação. A AILE apoiará os diversos Coletivos de Arte espalhados pela nossa urbe. Eis a nossa missão, enquanto Acadêmicos. 

Saúdo meus confrades e confreiras, em particular, nossa Dama das Letras, nossa Madrinha.... Escritora Maria Lúcia Mendes!

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”








*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA/ Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e “O que a vida quer da gente é coragem”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria” Cidadão Honorário de Itaúna

Organização: Charles Aquino



QUEM SOMOS NÓS ?!

Ramon MARRA*


Ao longo da nossa infância fomos moldados a imagem e semelhança do meio em que vivemos e dos nossos progenitores.

Assim, uma carga forte de tudo que veio dos nossos ancestrais, daquilo que permitimos receber ou desenvolvemos a partir dos estímulos do meio, são fortíssimos em cada um de nós.

Uma grande luta se travou ao longo da nossa formação até que moldados pela incapacidade de resistir nos tornamos personas deste comportamento.
Acontece que cada ser precisa se confortar com a interlocução interior para que haja um equilíbrio existencial.

E é nesse ponto que o embate, o sofrimento, a dor, a agonia, a indiferença, o medo, o rancor, o ódio, a timidez, a fraqueza, entre outros, tem levado o ser humano cada vez mais a acreditar na sua incapacidade de seguir adiante, lutando e vencendo os obstáculos.

Claro, há aqueles que superam tudo isso e desenvolvem resistências incríveis para suportar estas adversidades. Mas a que preço?

Hoje a psicologia tem sido um porto seguro para trabalhar o sujeito onde ele não consegue sozinho entender a si próprio e mais ainda, o que fazer para construir novas portas e janelas para o mundo.

Diante disso, podemos compreender o quanto muitos podem estar sofrendo por falta de recursos, ou até mesmo de informação. Vejo isso em minha caminhada existencial.
Percebo que há muitas demandas escondidas em nosso inconsciente e que são exploradas indiscriminadamente pelos contextos sociais. Muitas vezes até para se ter vantagens escusas.

Dizem que a humanidade caminha a passos largos.
Para onde?

Com que autoridade?

Com que objetivo?

Quem faz parte desta caminhada?

Qual o critério desta seleção?

Enquanto não somos capazes de responder quem somos nós dentro deste contexto, a tal humanidade, a passos largos vai manipulando de forma irreversível o que podemos ter de melhor: a vida que damos aos nossos anos.





*Pós-Graduação em Psicopedagogia
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shopry

GRANDE DESPERTAR...

Ramon MARRA*

Então soprou sobre a terra a sabedoria. Não houve sequer um lugar em que ela não tenha chegado. Sua beleza, sua desenvoltura, seus discernimentos encantavam a todos que dela saboreavam o que havia de melhor.

Cresciam e se desenvolviam todos uns com os outros. Quanto mais transmitíamos, mais aprendíamos com ela. Houve um tempo, houve um momento, houve uma luz.

Então, sorrateiramente o homem percebeu que poderia dominar tudo ao seu redor se aprisionasse a majestade das majestades. E assim a sabedoria foi trancafiada nos porões do orgulho, da inveja, da maledicência, do poder, do status e, do ódio.

Presa, sem sua liberdade e limitada aquele pequeno espaço ela adormeceu.
Então, os homens foram dominados pelo retrocesso do livre saber.
Em lugar do aprender absorveram as ideologias, em lugar das verdadeiras histórias tiveram que engolir as manipulações.

Em lugar do belo, cristalizou-se nas mentes a ideia da pseudo-liberdade de expressão de consciência do todo, de responsabilidade com o aqui e o agora e, da esperança de um futuro. A grande mentira dominava a todos.

Destruiu-se o amor próprio, o amor pela vida, o conceito de belo e, nos tornamos bois de piranha, numa investida jamais vista em nosso meio.

Mas, houve um dia e houve uma noite e como o universo foi criado para a beleza,
para a retidão e, para todos, ele se rebelou.....

A história continua, e por mais que o paraíso ainda esteja longe de se alcançar uma nova luz brilhou para que as forças novamente se equilibrassem para uma grande batalha, cuja consciência de cada um e de todos nós, será no final, o grande despertar de um novo tempo.




*Pós-Graduação em Psicopedagogia
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shopry

O AMOR ESTÁ NO AR ...

Ramon MARRA*

Então nos enamoramos e, apaixonados nos tornamos.
Dentro desta fogueira de desejos, nos descobrimos, nos conhecemos, nos tornamos cúmplices do corpo e do prazer.
Assim, passamos a não ser mais dois, senão um indivisível casal apaixonado entre juras de sonhos e fantasias que nos consumiam em chamas como sarças ardentes.
Sem nos dar conta descobrimos que a paixão deu lugar ao compromisso com os nossos corações.
Já não havia ingenuidade em nossos olhares. Não existia mais a frágil ansiedade de tocar, sentir e contemplar os corpos somente pela força do prazer.
Era algo mais....
Havia sim tudo isso, mas fortalecido por uma energia maior, mais madura, mais visionária, mais complementar. Havia sim a paixão se despedindo para que o amor se tornasse bem-vindo.
O olhar não era o mesmo.
O tocar já se comprometia com o sentir.
 Os detalhes já se envolviam em grandes valores.
O amor tomou conta, tomou os corações, sequestrou a vida, as vidas. Assim não éramos um, mais um que geravam dois.
Eis então, que entrou em nossas vidas a matemática do existir. Minhas virtudes transbordaram minha amada.
As delas, semeavam meu coração.
Percebemos que ao nos permitir vivenciar está história, nos transformamos em personagens do amor.
Fundo, insistente, explícito e livre ele transformou nossas vidas.
Agora juntos, nossa existência mostra que a vida pode oferecer tudo aqueles quem se permitem dividir, mas acima de tudo complementar e crescer.
Não se compreende o amor de um casal enquanto esta energia não se transforma em realização de sonhos, conquistas, vitórias, lutas e desejos a dois.
Amar é caminhar crescendo juntos....
Amar é caminhar crescendo...
Amar é caminhar...
Amar é....





*Pós-Graduação em Psicopedagogia
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy