sábado, março 28, 2026

CHICO MORAIS

Francisco Gomes de Morais: memória, reconhecimento público e sociabilidade em Santana do São João Acima.

AV. CHICO MORAIS

A história de Itaúna também se constrói a partir de trajetórias individuais que, pela força de sua presença comunitária, ultrapassam o âmbito privado e passam a integrar a memória coletiva da cidade.

Entre esses personagens, destaca-se Chico Morais, cuja vida, marcada pela religiosidade, pelo espírito comunitário e pela atuação social, foi posteriormente reconhecida pelo poder público municipal.

A memória de Francisco Gomes de Morais foi formalmente institucionalizada no início da década de 1990. Em 20 de março de 1991, por iniciativa do vereador João Viana da Fonseca, foi apresentado o Projeto de Lei nº 40/91, que propunha a denominação de um logradouro público em sua homenagem.

A proposta foi aprovada, dando origem à Lei nº 2506/91, que oficializou a denominação da via como Avenida Chico Morais, situada, à época, no trecho que se estendia do bairro Garcias até a praça do povoado de Campos, no município de Itaúna. Trata-se de um exemplo claro de como o espaço urbano se torna também um espaço de memória, incorporando nomes que expressam valores reconhecidos pela comunidade.

A seguir, apresenta-se a transcrição do documento que fundamentou essa homenagem, preservando sua redação original. Trata-se do texto apresentado pelo vereador João Viana da Fonseca no âmbito do Projeto de Lei nº 40/91 na Câmara |Municipal de Itaúna/MG.

 

CHICO MORAIS - (12/11/1886 / 27/10/1963)

Francisco Gomes de Morais nasceu em 12 de novembro de 1886, em Rio Manso, MG. Era filho de Antônio Justiniano de Morais e Macrina Gomes de Morais.

Ainda quando criança, morando em Rio Manso, já se dedicava aos cultos religiosos, onde praticava os atos de “Coroinha” do padre Cesário, com o qual morava.

Mudando a família para o povoado de “Campos”, o mesmo também aconteceu com o focalizado.

Conhecendo Maria Antônia de Jesus, do povoado dos “Lopes”, em 10/09/1908, com a mesma contraiu matrimônio, de cuja união nasceram treze (13) filhos.

Ele foi um homem que se dedicou muito às coisas boas da vida. Era bastante alegre, gostava de música, de um jogo de truco, de missas, etc.

Não deixava passar um ano sem que fossem celebradas duas missas em sua casa, uma para a preparação para a Quaresma e a outra, a missa de Páscoa. Era um grande gosto seu, pois nessas épocas havia confissões e comunhões para todos os moradores da região.

Quando da época das “Missões”, sua casa servia de hospedagem para os padres e ponto de reuniões para os cristãos.

Era bastante caridoso, socorrendo várias pessoas menos afortunadas, prestando-lhes inclusive apoio moral e religioso. Sua casa não fechava portas a pobres e desvalidos, dando-lhes abrigo, alimentação, etc.

Exercia a função de inspetor escolar na escola dos “Lopes”, onde prezava pela educação das crianças. Todos os seus familiares o consideravam como um amigo, onde buscavam apoio para os momentos difíceis da vida.

Quando da Segunda Guerra Mundial, viu um de seus filhos ser convocado para combater em campos italianos, tristeza que invadiu seu lar, mas que, com o passar do tempo, foi superada com a alegria de seu retorno.

Como não podia deixar de ser, tinha suas preferências por candidatos políticos, nos quais toda a sua família depositava seus votos. Sua casa era bastante frequentada por pessoas da sociedade da época.

O Padre José Ferreira Neto foi a pessoa que celebrou as “Bodas de Ouro” do casamento do focalizado, que, junto com toda a sua família, o comemorou.

Mas, já com 77 anos, bem vividos, em outubro de 1963 começou seus sofrimentos, vindo a falecer. Deixou um caminho de bondade, amizade e, principalmente, de exemplo para seus filhos e familiares, de quanto um homem, embora rude, de pouca instrução, pode semear em campos férteis.

 

A trajetória de Francisco Gomes de Morais permite compreender aspectos centrais da organização social do meio rural mineiro ao longo do século XX. Sua vida revela a articulação entre religiosidade, sociabilidade e autoridade local, elementos que estruturavam o cotidiano de comunidades afastadas dos grandes centros urbanos.

A forte presença da religião em sua vida não se restringia à devoção pessoal. Ao sediar celebrações religiosas em sua própria residência, Francisco transformava o espaço doméstico em extensão da vida comunitária, assumindo uma função que, em muitos contextos, supria a ausência de estruturas eclesiásticas permanentes. Sua casa, nesse sentido, operava como centro de encontro, devoção e organização social.

A menção ao Padre José Neto, responsável pela celebração das bodas de ouro do casal, reforça sua inserção em redes institucionais da Igreja e evidencia seu reconhecimento social. A celebração, acompanhada pela família e pela comunidade, indica não apenas longevidade conjugal, mas também prestígio simbólico acumulado ao longo da vida.

A prática da caridade, amplamente destacada no documento, também deve ser compreendida para além do gesto individual. Em sociedades rurais, ações como acolher necessitados e oferecer apoio material e moral contribuíam para a construção de prestígio e autoridade simbólica, reforçando laços de reciprocidade e reconhecimento coletivo.

Sua atuação como inspetor escolar indica ainda um papel relevante na mediação entre comunidade e educação formal, evidenciando a importância de lideranças locais na difusão de valores e no acompanhamento da formação das novas gerações.

Outro aspecto significativo é a presença de elementos de sociabilidade cotidiana — como a música, os jogos e as reuniões que revelam uma vida comunitária dinâmica, baseada na convivência e na interação constante entre os moradores.

A experiência da Segunda Guerra Mundial, ainda que vivida de forma indireta, demonstra como eventos globais impactavam o cotidiano de famílias no interior, conectando o local ao cenário internacional.

A denominação da Avenida Chico Morais em Itaúna/MG não apenas identifica um espaço urbano, mas materializa uma escolha: a de preservar, no cotidiano da cidade, a lembrança de uma trajetória que marcou sua comunidade.

Mais do que um ato administrativo, a nomeação de logradouros públicos constitui uma forma de inscrição da história no espaço urbano, na qual indivíduos e suas experiências passam a integrar a paisagem da cidade como referências simbólicas.

Nesse sentido, Francisco Gomes de Morais (Chico Morais) permanece não apenas como figura do passado, mas como presença contínua na memória itaunense, inscrita literalmente, nos caminhos percorridos por seus habitantes.

Por fim, a própria construção dessa biografia, posteriormente incorporada ao espaço urbano por meio da denominação de uma avenida, revela um processo de elaboração da memória. Não se trata apenas de registrar uma vida, mas de afirmar valores considerados exemplares,  religiosidade, solidariedade e liderança como dignos de permanência no imaginário coletivo.

 

Avenida Chico Morais - Garcias - Itaúna/MG - 35680-562


Referências:

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – Câmara Municipal de Itaúna - Projeto de Lei nº 40/91 – Lei nº 2506/91

Vereador João Viana da Fonseca -  Itaúna/MG

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Francisco Gomes de Morais, apresentada em 1991 pelo vereador João Viana da Fonseca durante a tramitação do Projeto de Lei nº 40/91, que deu origem à Lei nº 2506/91 para denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o contexto social do personagem, sua atuação comunitária, sua religiosidade, seu papel como referência local e sua ligação com a comunidade itaunense, elementos que fundamentaram a homenagem que nomeou a Avenida Chico Morais. 

sábado, março 21, 2026

GALERIA AHMÉS

Galeria voltou, mas a memória?

Entre o esquecimento e a retomada, Itaúna é chamada a decidir o que fará com a sua própria história. A reabertura da Galeria Ahmés de Paula Machado, no dia 19 de março de 2026, não representa apenas a reativação de um espaço físico. Ela recoloca uma questão essencial: o que a cidade faz com a sua memória cultural?

Antes de qualquer celebração, é necessário perguntar: quantos itaunenses, de fato, sabem quem foi Ahmés de Paula Machado?

Parte dessa resposta foi registrada pelo pesquisador e professor Guaracy de Castro Nogueira, cuja biografia constitui uma das principais referências sobre o artista. Nela, Ahmés aparece como um nome que ultrapassa os limites locais: formado pela Escola Nacional de Belas Artes, premiado em salões oficiais e com formação complementar em importantes centros europeus como Paris, Roma e Florença.

Sua trajetória o insere no circuito mais amplo da arte brasileira, o que constitui um dado fundamental, pois reduzi-lo a um “orgulho local” implica limitar sua dimensão histórica. Mais do que um artista itaunense, barranqueiro do antigo arraial de Sant'Ana do Rio São João Acima, Ahmés integra uma geração que dialogou com a consolidação da arte moderna no Brasil. Ainda assim, essa relevância não se converteu plenamente em memória pública.

Em outubro de 2023, na coluna “Na ponta da caneta”, o jornalista Renilton Pacheco denunciou o enfraquecimento das estruturas culturais da cidade, apontando, entre outros aspectos, a descaracterização da própria galeria que leva o nome do artista.

Sua crítica registrou uma percepção concreta: a perda de continuidade na preservação e no fomento das expressões culturais locais. Quando uma cidade perde seus espaços de arte, ela não perde apenas equipamentos ela compromete sua capacidade de transmitir história.

A própria Prefeitura de Itaúna, em comunicação oficial recente (2026), reconhece que a galeria permaneceu “afastada de sua função original” por um longo período, sendo utilizada para outras finalidades antes de seu atual processo de readequação.  Ao mesmo tempo, apresenta a reinauguração como parte de um movimento de revitalização e retorno ao circuito artístico da cidade.

Esse reconhecimento é relevante. Ele confirma que houve ruptura. É importante situar que esse processo de afastamento da função original da galeria não se vincula exclusivamente ao momento administrativo atual, mas resulta de uma trajetória anterior de descontinuidade no uso e na gestão do espaço. Nesse sentido, a reabertura promovida no presente indica não apenas uma ação administrativa pontual, mas o reconhecimento de uma lacuna que se acumulou ao longo do tempo.

Esse enquadramento permite compreender a iniciativa atual não como origem do problema, mas como parte de uma tentativa de reposicionamento do espaço dentro do cenário cultural da cidade.

A realização da exposição coletiva “Entre Gestos e Silêncios”, reunindo artistas locais no espaço agora reaberto, representa mais do que uma agenda cultural pontual. Indica uma tentativa de reconectar a galeria à sua finalidade original: ser um lugar de difusão das artes visuais e de encontro entre artistas e público.

Nesse sentido, a presença de artistas locais assume um papel central. Mais do que ocupar o espaço, ela contribui diretamente para a continuidade e a difusão da produção artística em Itaúna. É a partir dessa participação que se torna possível construir um vínculo real entre o legado de Ahmés de Paula Machado e a criação contemporânea, estabelecendo não apenas uma homenagem ao passado, mas uma dinâmica viva de produção cultural.

Sem a inserção contínua de artistas da própria cidade, a galeria corre o risco de se tornar apenas um espaço expositivo eventual. Com eles, ao contrário, abre-se a possibilidade de consolidar um processo permanente, no qual memória e criação caminham juntas.

É justo reconhecer que a atual administração pública promove, neste momento, aquilo que pode ser entendido como um “resgate do espaço”. Mas é justamente aqui que a análise precisa avançar. Resgatar um espaço não é, por si só, reconstruir uma política cultural.

Para que esse movimento se consolide, será necessário mais do que eventos: será preciso continuidade, formação de público, incentivo à produção artística e compromisso com a preservação da memória cultural.

Caso contrário, corre-se o risco de transformar o resgate em episódio e não em processo. E é nesse ponto que a figura de Ahmés retorna como questão central. Como transformar um nome em referência viva? Como fazer com que sua obra seja conhecida, estudada e integrada ao presente da cidade?

A reabertura da Galeria Ahmés de Paula Machado é, sem dúvida, uma boa notícia. Ainda assim, a questão permanece: Itaúna está apenas reabrindo um espaço, ou está disposta a reconstruir, de forma contínua, sua memória cultural?

 

Referencias:

Elaboração e arte: Charles Aquino.

Imagem gerada por inteligência artificial para fins ilustrativos.

Fontes:
NOGUEIRA, Guaracy de Castro. Biografia de Ahmés de Paula Machado.
PACHECO, Renilton. Na ponta da caneta. Jornal Folha do Povo, 21 out. 2023.

Prefeitura Municipal de Itaúna - Galeria de Arte Ahmés de Paula Machado: exposição coletiva “Entre Gestos e Silêncios”


quinta-feira, março 19, 2026

AHMÉS DE PAULA MACHADO

Itaunense, barranqueiro do São João, orgulho-me e muito de ter nascido nesta terra, sob a proteção da Senhora Sant´Ana.

 Orgulho-me, mais, dos conterrâneos que tenho e de quantos adotaram Itaúna como berço de nascimento, e brilham em vários setores de atividade. Itaúna é rica de valores humanos.

 Ultimamente eu os tenho biografado e vejo que são muitos os que merecem estar no “pódium” dos vitoriosos.

Um deles, sem dúvida, é AHMÉS DE PAULA MACHADO, filho de Ovídio Nogueira Machado e de Zélia de Paula Machado, que se casaram em Joeba, no Espírito Santo, em 20 de setembro de 1920.

 Bisneto, pelo lado paterno, de Justino José Machado e de Purcina Nogueira Duarte, de antigas e tradicionais famílias que enobrecem nosso rico passado histórico. Como tal, pentaneto de Tomás Teixeira, um dos fundadores de Itaúna e hexaneto de João Lopes de Camargo, um dos fundadores de Ouro Preto. 

Pelo lado materno, descende de Manoel José de Souza Moreira e de Anna Joaquina de Jesus, bonfinenses e pitanguienses que aqui chegaram nos meados do século XVIII, para lançar, posteriormente, a semente da industrialização de mossa cidade. 

Neto pelo lado paterno de Josias Nogueira Machado, um dos responsáveis pela emancipação do Município, e de Teresa Gonçalves Nogueira, heróica mulher que miscigenou o sangue dos Gonçalves com o dos Nogueira Machado. 

Neto pelo lado materno de Celso Nazário de Paula e Amélia Gaigher de Paula, uma injeção de sangue austríaco e italo-capichaba, que deu certo, na geração de gente de rara inteligência, amante da cultura e das artes, com grande vocação também para as ciências exatas e para o magistério.

Ahmés, grande e genial pintor, artista consagrado nacional e internacionalmente, nasceu em Itaúna aos 16 de julho de 1922. Sem dúvida, o maior artista plástico de nossa cidade. Além de pintor era também escultor. Adorava música clássica. Apreciava e convivia com todas as artes. 

Profundamente culto, não se envaidecia, cultivava a simplicidade, lia e falava corretamente quatro idiomas estrangeiros: francês, inglês, italiano e alemão. Navegava com brilho e rigor no português e, claro, não tinha dificuldades, na língua irmã, o espanhol. Poliglota completo e invejável!

No primário em Itaúna, foi aluno da professora Arthumira de Oliveira Gonçalves, quando já manifestava sua vocação artística para o desenho e a pintura. Secundário, em Belo Horizonte. Ali, na famosa “Casa de Itália”, centro cultural ítalo-brasileiro, fez estudos aprimorados de desenho com o renomado arquiteto italiano Rafaello Berti, autor do projeto de nossa Igreja Matriz.

     Em 1935, com apenas 13 anos de idade, ganhou o primeiro prêmio em desenho com o quadro “Moisés”, exposto, hoje em Iconha, na terra natal de sua mãe, no Espírito Santo. Com 14 anos, outro prêmio, com o quadro “Tiradentes”.

Aos 17 anos de idade, muito jovem, mas com muita garra, foi para o Rio de Janeiro a fim de realizar e concretizar seu sonho de estudos na Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil, onde foi aluno de Cândido Portinari.

Yedda, sua irmã, escrevendo com brilho sobre ele, reproduz palavras de Marques Rabelo vaticinando seu futuro: “Dentro de mais alguns anos Minas Gerais há de se orgulhar do pequeno garoto de Itaúna”. Ahmés estava com 19 anos de idade.

Fez pós-graduação em pintura na mesma Universidade. Nela obteve três significativas medalhas de premiação: Medalha de Prata, Pequena Medalha de Ouro e Grande Medalha de Ouro!

Seus quadros “Dois Nus”, “O Circo” e “Auto-retraro” foram premiados com Medalha de Ouro.  O “Auto-retrato”, exposto nos EUA, foi adquirido e permanece exposto em museu.

Em 1952, recebeu o prêmio “O Globo” pelo melhor desenho do Salão Nacional de Arte Moderna e, no ano seguinte, graças a seu prestigio adquirido nos meios artísticos, participou como jurado nesse mesmo “Salão Nacional de Arte Moderna” e em dois outros: “Salão do Clube Militar” e “I Festival de Cinema do Rio de Janeiro”.

     Três anos depois, em decorrência do aprimoramento de seus trabalhos, projeção de seu nome na Escola de Belas Artes e no cenário artístico principalmente do Rio de Janeiro, em 1955, recebeu o maior prêmio que se concedeu a um artista no Brasil. 

     Viagem de estudos a Europa, com duração de três anos: 6 meses em cada um dos centros de maior expressão na Itália: Nápoles, Roma e Florença; mais três meses em Londres, três meses em Madrid, e, como coroamento, um ano na França, em Paris. 

     Foram três anos de grande atividade artística que marcaram profundamente sua vida, sua obra e sua maneira de ser. Um verdadeiro “banho com as melhores essências” da cultura artística, ampliado nos melhores e mais importantes centros da Europa. 

     Cito apenas alguns: no Museu do Vaticano – um conjunto de galerias, monumentos e museus pontifícios, sem dúvida um dos mais importantes do mundo, pela grandeza das obras e pelos cenários nos quais estão preservados o que foi criado para eles: a Capela Sistina, onde pontifica Dante Alighieri, as “Stange” de Rafael e os Aposentos dos Borgias, etc. são monumentos de transcendental importância histórica e artística. 

     Em Florença, no Museu Uffizi, com seu acervo de excepcional qualidade; na Vila Borghese onde está o museu consagrado à escultura (obras primas de Bernini), a Galeria Borghese com sua coleção de pinturas de Caravaggio e Ticiano. Tudo isto na Itália. 

     Na França, só o Louvre em Paris é um espetáculo completo, imenso palácio cujos braços cercam as verdes Tulherias, alcançando até a Praça da Concórdia, com o Jeu de Paume, dedicado aos impressionistas – um museu que guarda os tesouros de séculos e de inúmeras nações. Na França, Ahmés foi aprovado para o Curso de Gravura da L´Ecole des Beaux Arts”. 

     Na Espanha, no Museu do Prado em Madrid encontrou reunido o acervo fascinante de obras dos mestres, entre os séculos XV e XVIII. Na Holanda, Amsterdam, entrando no Rijksmuseum, riquíssimo museu, passou pelas duas portas principais: numa estão as estatuas de lindas mulheres- a Arquitetura e a Escultura; noutra, outras duas fascinantes mulheres: a Pintura e a Gravura. 

     Na Inglaterra, no Museu Britânico de Londres, considerado o primeiro museu “público” – distinto de “privado “, fundado há 250 anos, encontrou ao lado do tradicional e rico museu geral sua grande biblioteca especializada em artes; na Galeria Nacional está uma das maiores pinacotecas da Europa, exibindo pinturas de Rembrant, Rubens, van Dick e – sobretudo – o magnífico grupo de telas de Claude Lorrain.

     Imaginem, queridos conterrâneos, o que o inteligente, culto e poliglota Ahmés viu, estudou e aprendeu neste “oceano” de beleza e riqueza artística, durante três longos anos!

     Voltou a Brasil, tornou-se professor, dedicou-se ao magistério e ao seu trabalho intenso como pintor, gravador (especialmente a Litografia), criando e ensinando com toda sua grande capacidade e interesse. Escreveu “Um Manual de Litografia”, completo e perfeito, único no Brasil.

     E, com sua enorme bagagem, foi presença constante nas mais famosas e disputadas exposições no Brasil e nos EUA. O pintor possui obras nos principais acervos de museus deste país e sua pinacoteca pertence hoje a sua família e à Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil, onde seus quadros estão permanentemente expostos em uma sala juntamente com uma homenagem de honra que, meritoriamente recebeu.

     Em 1947, casou-se com sua colega de escola, Maria Beatriz Oswald Machado, também pintora, (Bete) com vários trabalhos em Itaúna, grande retratista, é autora de um magnifico trabalho que enriquece meu lar, o retrato de minha mãe. 

     Deste feliz casamento ficaram duas filhas, Maria e Maria Cândida, residentes em Petrópolis, onde Ahmés instalou seu domicílio em caráter definitivo.

Ahmés de Paula Machado deu sua vida para a arte. Ficava horas em seu atelier trabalhando com litografia nos últimos tempos.

     Três amores marcaram profundamente a vida deste grande e ilustre conterrâneo: a família, a arte e Itaúna.  Em férias, só pensava em Itaúna. Só amava, só gostava de Itaúna. Seu sonho era comprar um sítio em Itaúna para quando se aposentasse, viesse morar no meio de sua gente, que tanta amava.

     Não conseguiu realizar seu sonho, mas quis o destino, e Deus o presenteou, dentro de seus inexplicáveis desígnios, que falecesse em Itaúna, quando aqui passava férias, a 24 de fevereiro de 1985, com 63 anos de idade, incompletos.

     Só Ele tem o poder de ressuscitar os mortos, mas nossa admiração, nosso respeito e nosso carinho pelo grande Ahnés, estão contribuindo para ressuscitar sua memória, neste espaço cultural, para as homenagens e o reconhecimento dos itaunenses!

                   

 Guaracy de Castro Nogueira

Discurso proferido, a convite do Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Município de Itaúna, Professor Elimar Alves Pereira, às 20 horas, do dia 21 de novembro de 2003, na homenagem que se prestou ao artista plástico itaunense, na “Galeria de Artes Ahmés de Paula Machado”, em nosso Espaço Cultural.

 Imagem gerada por inteligência artificial para fins ilustrativos.

Organização: Charles Aquino

segunda-feira, março 16, 2026

COZINHO SANTANENSE

Jacob Marra da Silva (“Cozinho”): vida, trabalho e devoção em Santanense

 

Jacob Marra da Silva, popularmente conhecido como “Cozinho”, nasceu em 3 de outubro de 1905 e faleceu em 30 de agosto de 1984. Sua trajetória esteve profundamente ligada à vida comunitária, religiosa e social da cidade de Itaúna, Minas Gerais, especialmente no bairro Santanense.

Casado com Josina Marra, Jacob constituiu uma família numerosa. O casal teve quatorze filhos, embora apenas três tenham sobrevivido, além de um filho adotivo criado pelo casal. 

Entre os filhos mencionados nos registros estão Maria Helena Marra, Maria Aparecida Marra Ribeiro, Geraldo Marra e João Pinto, este último adotivo. A vida familiar de Jacob foi marcada por perdas significativas, mas também por forte espírito de fé e perseverança.

Jacob Marra trabalhou na Companhia de Tecidos Santanense, importante indústria têxtil que marcou o desenvolvimento econômico e urbano de Itaúna ao longo do século XX. Iniciou sua trajetória como empregado da fábrica e, ao longo do tempo, alcançou a função de encarregado de seção, posição que demonstra reconhecimento e confiança em seu trabalho.

A presença da Companhia de Tecidos Santanense foi fundamental para a formação social do bairro Santanense, reunindo trabalhadores, famílias e redes de sociabilidade que moldaram a vida cotidiana da comunidade.

Além de sua atividade profissional, Jacob Marra destacou-se pela intensa participação na vida religiosa local. Durante muitos anos atuou como sacristão da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Santanense.

Também foi confrade vicentino por cerca de cinquenta anos, participando da Sociedade de São Vicente de Paulo, organização católica dedicada à assistência aos necessitados e à prática da caridade.

Segundo os documentos, Jacob Marra era figura conhecida nas manifestações religiosas da comunidade. Nas procissões, frequentemente conduzia a cruz à frente do cortejo, demonstrando sua dedicação à fé. Também participava da organização dos cortejos fúnebres, ajudando a conduzir orações e acompanhar a comunidade até o cemitério.

As informações aqui apresentadas baseiam-se na biografia redigida por Antônio Augusto Fonseca, então Presidente da Câmara Municipal de Itaúna, no contexto da tramitação do Projeto de Lei nº 95/87, apresentado em 14 de outubro de 1987. A proposta tinha como objetivo denominar um logradouro público em homenagem a Jacob Marra.

O projeto foi aprovado pelo Legislativo municipal e sancionado por meio da Lei nº 2076/87, que oficializou a denominação da Praça Jacob Marra, localizada na confluência das ruas das Camélias e das Rosas com a Avenida Manoel da Custódia, no bairro São Geraldo, em Itaúna/MG.

Na justificativa do projeto, destacou-se que Jacob Marra era lembrado pela comunidade como um homem simples, humilde e dedicado ao próximo, cuja vida foi marcada pelo trabalho, pela fé e pela participação ativa na vida comunitária.

A trajetória de Jacob Marra da Silva representa um exemplo significativo da vida social em cidades mineiras no século XX, especialmente em contextos marcados pela presença da indústria têxtil e pela forte influência da religiosidade católica na organização da vida cotidiana.

Trabalhador industrial, agente ativo da vida religiosa e participante das redes de solidariedade comunitária, Jacob Marra tornou-se uma figura respeitada em sua comunidade. A denominação de uma praça em sua homenagem constitui, portanto, uma forma de preservar sua memória e reconhecer sua contribuição para a vida social e religiosa de Itaúna. 

|Praça Jacob Marra -  Bairro São Geraldo 

Referências:

Pesquisa, elaboração e arte:

Charles Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – Câmara Municipal de Itaúna - Projeto de Lei nº 95/87 – Lei nº 2076/87

Biografia apresentada pelo Presidente da Câmara Municipal de Itaúna, Antônio Augusto Fonseca, em 14 de outubro de 1987, por ocasião da proposta de denominação da Praça Jacob Marra, localizada no bairro São Geraldo, em Itaúna/MG.

Texto biográfico elaborado a partir da documentação legislativa preservada no arquivo da Câmara Municipal de Itaúna.

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Jacob Marra da Silva (“Cozinho”), apresentada em 1987 por Antônio Augusto Fonseca durante a tramitação do Projeto de Lei nº 95/87 para denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o contexto social do personagem, sua atuação como trabalhador da Companhia de Tecidos Santanense, sua religiosidade e sua ligação com a comunidade itaunense. 

quarta-feira, março 04, 2026

ZÉ DO ZAQUEU

Personagens que dão nome às ruas de Itaúna

José Francisco da Silva – “Zé do Zaqueu” (1921–1986)

Entre os diversos personagens lembrados na toponímia urbana de Itaúna está José Francisco da Silva, conhecido popularmente como “Zé do Zaqueu”, cuja memória foi preservada na denominação de um logradouro público da cidade.

A biografia que fundamentou a homenagem foi apresentada em 1990 pelo vereador João Viana da Fonseca, durante a tramitação do projeto que propôs a denominação da via.

José Francisco da Silva nasceu em 10 de outubro de 1921, filho de Zaqueu Francisco da Silva e Maria Cândida da Silva.

Exerceu a profissão de alfaiate, atividade bastante comum nas cidades brasileiras ao longo do século XX, quando o ofício estava diretamente ligado à vida cotidiana das comunidades e ao atendimento personalizado dos moradores.

Além do trabalho, Zé do Zaqueu era conhecido por seu espírito sociável e pela facilidade de fazer amizades. Participava com frequência de encontros entre amigos, especialmente em rodas de música, onde gostava de cantar sambas e participar de serestas, uma tradição musical muito presente na cultura urbana mineira.

Outro aspecto lembrado na biografia apresentada à Câmara Municipal foi sua habilidade no futebol, esporte bastante presente no cotidiano.

Zé do Zaqueu destacou-se como jogador do Esporte Clube de Itaúna, tradicional equipe da cidade, popularmente conhecida pelos torcedores como “Esportão”. O clube teve papel importante na vida esportiva local e reuniu, ao longo de décadas, diversos atletas que marcaram o futebol amador itaunense.

Segundo registros da memória local, o talento demonstrado por Zé do Zaqueu no futebol chegou a levá-lo a atuar também fora da cidade, tendo passagem pelo Clube Atlético Mineiro, um dos principais clubes do futebol brasileiro.

A prática esportiva, somada à sua participação na vida social da cidade, contribuiu para que se tornasse uma figura bastante conhecida entre os moradores.

As recordações registradas na biografia destacam Zé do Zaqueu como uma pessoa muito querida em Itaúna, lembrado principalmente por sua convivência amistosa e pela participação em atividades culturais e esportivas da cidade.

Ele faleceu em 10 de outubro de 1986, no dia em que completava 65 anos de idade.

Quatro anos após seu falecimento, sua memória foi homenageada pelo poder público municipal com a denominação de um logradouro em Itaúna, iniciativa apresentada pelo vereador João Viana da Fonseca.

Esse tipo de homenagem faz parte de uma prática comum nas cidades brasileiras: a toponímia urbana, ou seja, a escolha de nomes de ruas e espaços públicos como forma de preservar a memória de pessoas que tiveram presença marcante na comunidade.

O estudo desses nomes permite compreender como as cidades constroem e preservam suas referências de identidade e pertencimento.

Projeto de Lei nº 140/90 - Lei 2472/91 - CEP: 35680-227

Denomina logradouro público.

O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes decreta, e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:

Art. 1º Denominar-se-á RUA ZÉ DO ZAQUEU, o logradouro público que tem seu início na Av. Dorinato Lima, passando pela quadra 11 e terrenos de propriedade do senhor João de Cerqueira Lima e terminando na rua Vasco Mendes, localizado no Conjunto Residencial Morro do Engenho, zona 03.

Art. 2º A Prefeitura Municipal de Itaúna providenciará a colocação de placas indicativas, bem como a comunicação à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e à Companhia de Minas Gerais - CEMIG.

Art. 3º Revogadas as disposições em contrário, esta lei entrará em vigor na data de sua publicação

Sala das Sessões, em 12 de dezembro de 1990.

<João Viana da Fonseca> - Vereador

Aprovado em 1ª discussão em 13/02/1991


Referências:

Pesquisa, elaboração e arte: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA  

Projeto de Lei nº 140/90 - Lei 2472/91 - CEP: 35680-227

Biografia apresentada pelo vereador João Viana da Fonseca à Câmara Municipal de Itaúna em 1990, por ocasião da proposta de denominação de logradouro público.

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de José Francisco da Silva (“Zé do Zaqueu”), apresentada em 1990 pelo vereador João Viana da Fonseca durante a proposta de denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o universo social do personagem, sua profissão de alfaiate e sua ligação com o futebol itaunense, incluindo referência ao Clube Atlético Mineiro.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

CRUZ ROJA ESPAÑOLA

Entre protocolos e pessoas: aprender a cuidar no cotidiano da Cruz Roja na Espanha

Atuar como voluntário na Cruz Roja Española, na cidade de Elda, tem sido uma experiência que ultrapassa em muito a ideia inicial de “ajuda humanitária”. 

O que se revela no cotidiano não é apenas a urgência social, mas um modo específico e profundamente histórico de organizar o cuidado, a responsabilidade e a dignidade humana.

Elda está localizada na província de Alicante, na Comunidade Valenciana, e é amplamente conhecida por sua tradição industrial ligada ao calçado. 

No entanto, há um aspecto menos visível e igualmente constitutivo de sua identidade que ajuda a compreender o ambiente em que essa experiência de voluntariado se desenvolve: Elda carrega, historicamente, a memória de uma  "Ciudad de acogida" (Cidade de acolhida).

Durante a Guerra Civil Espanhola, a cidade recebeu crianças deslocadas, feridos e pessoas em situação extrema de vulnerabilidade, desempenhando um papel ativo na proteção de vidas em meio ao conflito. 

Esse episódio é hoje reconhecido como parte do patrimônio histórico local e ajuda a explicar por que, ainda no presente, Elda se apresenta como um espaço socialmente acessível, com forte presença de redes comunitárias e instituições voltadas à inclusão. É nesse ambiente  simultaneamente histórico e atual que se insere a atuação da Cruz Roja.

Para quem vem do Brasil, especialmente de cidades médias do interior como Itaúna, o primeiro impacto não está apenas na existência da pobreza ou da vulnerabilidade, mas na forma como essas realidades são tratadas institucionalmente. Nada é improvisado. Nada é decidido de maneira individual. Tudo passa por protocolos claros, responsabilidades definidas e formação contínua. 

Essa estrutura não esfria a ação solidária; ao contrário, ela a torna sustentável, ética e previsível valores raramente associados à assistência social no imaginário latino-americano.

No Centro de Servicios (CES), onde atuo regularmente, a rotina é marcada por tarefas aparentemente simples: organização de alimentos, montagem de kits, registro de entregas, controle de turnos. No entanto, é justamente nesse nível do detalhe que se percebe uma concepção madura de ação social. 

Cada entrega é documentada. Cada pessoa usuária é reconhecida pelo nome, pelo código, pela data. Não se trata de desconfiança, mas de garantia de direitos tanto para quem recebe quanto para quem atua como voluntário.

Historicamente, sabemos que a assistência aos pobres, tanto no Brasil quanto na Europa, esteve ligada à caridade religiosa, ao favor pessoal e, muitas vezes, ao controle moral. 

O que se observa aqui é um deslocamento significativo: a ajuda deixa de ser um gesto individual e passa a ser uma política humanitária organizada, ancorada em princípios universais e em normas claras de atuação. Isso não elimina a desigualdade social, mas redefine a forma de enfrentá-la.

Essa lógica se torna ainda mais evidente nas chamadas saídas noturnas, ações voltadas ao atendimento de pessoas em situação de rua. Ao contrário do que se poderia imaginar, não se trata de ações espontâneas. Há calendário, planejamento, logística e definição de funções. 

Cada voluntário sabe exatamente o seu papel. Existe sempre uma pessoa de referência, responsável pela coordenação do grupo, e há articulação prévia com outros serviços.

Essas saídas revelam algo fundamental: o cuidado também envolve responsabilidade coletiva, e reconhecer limites é parte do compromisso ético. Em termos históricos, isso marca uma ruptura com a imagem romantizada do voluntariado heroico e solitário. 

Aqui, o voluntário não é um salvador, mas parte de uma engrenagem coletiva, onde a ação individual só faz sentido quando integrada a um projeto maior.

Um ponto que aprofunda ainda mais essa reflexão foi a entrevista concedida por Alejandro Pascual, trabalhador social da Cruz Roja em Elda. Ele chama atenção para uma distinção frequentemente apagada no discurso público: imigrante não é sinônimo de refugiado

Segundo Pascual, as pessoas refugiadas não chegam buscando simplesmente “um mundo melhor”, mas buscando viver, muitas vezes fugindo de guerras, perseguições políticas, religiosas ou étnicas e contextos que tornam a permanência em seus países de origem impossível.

A partir dessa distinção, Pascual destaca um elemento decisivo para compreender a prática da Cruz Roja: a língua como serviço transversal. O domínio do idioma local não é tratado como um complemento opcional, mas como uma condição estrutural de inclusão. A língua atravessa todos os serviços: o atendimento inicial, a orientação jurídica, o acesso a políticas públicas, a formação profissional e a construção de vínculos comunitários. 

Sem ela, o direito permanece abstrato; com ela, a autonomia se torna possível. Nesse sentido, o trabalho linguístico não apenas facilita a comunicação, mas organiza o próprio processo de integração social, funcionando como elo entre acolhida, dignidade e cidadania.

Outro aspecto central dessa experiência é a formação. Não se atua sem estudar. Direitos humanos, diplomacia humanitária, proteção da infância, perspectiva de gênero, ética institucional, meio ambiente, combate à desinformação e todos esses temas compõem um corpo formativo obrigatório. 

Isso indica que a Cruz Roja não forma apenas executores de tarefas, mas sujeitos conscientes do impacto político, social e simbólico de suas ações.

Para alguém que se dedica à pesquisa histórica e à memória social, essa vivência provoca inevitáveis comparações. No Brasil, muitas iniciativas de assistência ainda dependem excessivamente da boa vontade individual e sofrem com a descontinuidade. 

Falta estrutura, formação e, sobretudo, reconhecimento institucional do voluntariado como prática social qualificada. Aqui, o voluntário não “ajuda quando pode”; ele assume responsabilidade.

Essa experiência também desloca o olhar sobre o próprio conceito de solidariedade. Solidariedade não é apenas empatia ou compaixão. É organização, método, limite e permanência. É compreender que o cuidado, para ser justo, precisa ser regulado. Essa talvez seja uma das lições mais importantes deste percurso.

Ao registrar essas reflexões no Itaúna Décadas, não pretendo narrar uma trajetória pessoal de mérito, mas oferecer um testemunho comparativo. A história se constrói justamente nesses encontros entre realidades distintas, onde aprendemos que outras formas de agir são possíveis e que muitas delas podem, e devem, ser pensadas criticamente a partir de nossa própria experiência brasileira.

Entre protocolos e pessoas, o que se aprende é simples e profundo: cuidar também é uma forma de pensar o mundo.


Referencias

Organização e elaboração: Charles Aquino

Cruz Roja Española.

Sitio oficial de la Cruz Roja en España. Información institucional, principios fundamentales, programas de acción social y voluntariado. Disponible en: https://www.cruzroja.es

Elda (Alicante), España. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3u_mWK4cWpY

Ayuntamiento de Elda. Elda, ciudad de acogida.
Página institucional que recoge el papel histórico de la ciudad de Elda como espacio de acogida durante la Guerra Civil Española, integrando este episodio en su patrimonio histórico y memoria colectiva.
Disponible en:
https://www.elda.es/patrimonio-historico/elda-ciudad-de-acogida/

Cadena SER – Radio Elda. Alejandro Pascual.

Las personas refugiadas no vienen buscando un mundo mejor, vienen buscando vivir.
Entrevista que aborda la diferencia entre inmigrante y persona refugiada, así como el papel de la lengua como servicio transversal en los procesos de acogida e integración social desarrollados por la Cruz Roja.
Disponible en:

https://cadenaser.com/comunitat-valenciana/2025/10/21/alejandro-pascual-trabajador-social-cruz-roja-las-personas-refugiadas-no-vienen-buscando-un-mundo-mejor-vienen-buscando-vivir-radio-elda/

Comité Internacional de la Cruz Roja (CICR).
Principios del Derecho Internacional Humanitario y acción humanitaria en contextos de conflicto y desplazamiento forzado.

Disponible en: https://www.icrc.org