Itaunense, barranqueiro do São João, orgulho-me e muito de ter nascido nesta terra, sob a proteção da Senhora Sant´Ana.
Orgulho-me, mais, dos conterrâneos que tenho e de quantos adotaram Itaúna como berço de nascimento, e brilham em vários setores de atividade. Itaúna é rica de valores humanos.
Ultimamente eu os tenho biografado e vejo que
são muitos os que merecem estar no “pódium” dos vitoriosos.
Um deles, sem dúvida, é AHMÉS DE PAULA MACHADO, filho de Ovídio Nogueira Machado e de Zélia de Paula Machado, que se casaram em Joeba, no Espírito Santo, em 20 de setembro de 1920.
Bisneto, pelo lado paterno, de Justino José Machado e de Purcina Nogueira Duarte, de antigas e tradicionais famílias que enobrecem nosso rico passado histórico. Como tal, pentaneto de Tomás Teixeira, um dos fundadores de Itaúna e hexaneto de João Lopes de Camargo, um dos fundadores de Ouro Preto.
Pelo lado materno, descende de Manoel José de Souza Moreira e de Anna Joaquina de Jesus, bonfinenses e pitanguienses que aqui chegaram nos meados do século XVIII, para lançar, posteriormente, a semente da industrialização de mossa cidade.
Neto pelo lado paterno de Josias Nogueira Machado, um dos responsáveis pela emancipação do Município, e de Teresa Gonçalves Nogueira, heróica mulher que miscigenou o sangue dos Gonçalves com o dos Nogueira Machado.
Neto pelo lado materno de Celso Nazário de Paula e Amélia
Gaigher de Paula, uma injeção de sangue austríaco e italo-capichaba, que deu certo,
na geração de gente de rara inteligência, amante da cultura e das artes, com
grande vocação também para as ciências exatas e para o magistério.
Ahmés, grande e genial pintor, artista consagrado nacional e internacionalmente, nasceu em Itaúna aos 16 de julho de 1922. Sem dúvida, o maior artista plástico de nossa cidade. Além de pintor era também escultor. Adorava música clássica. Apreciava e convivia com todas as artes.
Profundamente culto, não se
envaidecia, cultivava a simplicidade, lia e falava corretamente quatro idiomas
estrangeiros: francês, inglês, italiano e alemão. Navegava com brilho e rigor
no português e, claro, não tinha dificuldades, na língua irmã, o espanhol.
Poliglota completo e invejável!
No primário
em Itaúna, foi aluno da professora Arthumira de Oliveira Gonçalves, quando já
manifestava sua vocação artística para o desenho e a pintura. Secundário, em
Belo Horizonte. Ali, na famosa “Casa de Itália”, centro cultural
ítalo-brasileiro, fez estudos aprimorados de desenho com o renomado arquiteto italiano
Rafaello Berti, autor do projeto de nossa Igreja Matriz.
Em 1935, com apenas 13 anos de
idade, ganhou o primeiro prêmio em desenho com o quadro “Moisés”, exposto, hoje
em Iconha, na terra natal de sua mãe, no Espírito Santo. Com 14 anos, outro
prêmio, com o quadro “Tiradentes”.
Aos 17 anos
de idade, muito jovem, mas com muita garra, foi para o Rio de Janeiro a fim de
realizar e concretizar seu sonho de estudos na Escola de Belas Artes da
Universidade do Brasil, onde foi aluno de Cândido Portinari.
Yedda, sua
irmã, escrevendo com brilho sobre ele, reproduz palavras de Marques Rabelo
vaticinando seu futuro: “Dentro de mais
alguns anos Minas Gerais há de se orgulhar do pequeno garoto de Itaúna”. Ahmés estava com 19 anos de idade.
Fez
pós-graduação em pintura na mesma Universidade. Nela obteve três significativas
medalhas de premiação: Medalha de Prata, Pequena Medalha de Ouro e Grande
Medalha de Ouro!
Seus
quadros “Dois Nus”, “O Circo” e “Auto-retraro” foram premiados com Medalha de
Ouro. O “Auto-retrato”, exposto nos EUA,
foi adquirido e permanece exposto em museu.
Em 1952,
recebeu o prêmio “O Globo” pelo melhor desenho do Salão Nacional de Arte
Moderna e, no ano seguinte, graças a seu prestigio adquirido nos meios
artísticos, participou como jurado nesse mesmo “Salão Nacional de Arte Moderna”
e em dois outros: “Salão do Clube Militar” e “I Festival de Cinema do Rio de
Janeiro”.
Três anos depois, em decorrência do aprimoramento de seus trabalhos, projeção de seu nome na Escola de Belas Artes e no cenário artístico principalmente do Rio de Janeiro, em 1955, recebeu o maior prêmio que se concedeu a um artista no Brasil.
Viagem de estudos a Europa, com duração de três anos: 6 meses em cada um dos centros de maior expressão na Itália: Nápoles, Roma e Florença; mais três meses em Londres, três meses em Madrid, e, como coroamento, um ano na França, em Paris.
Foram três anos de grande atividade artística que marcaram profundamente sua vida, sua obra e sua maneira de ser. Um verdadeiro “banho com as melhores essências” da cultura artística, ampliado nos melhores e mais importantes centros da Europa.
Cito apenas alguns: no Museu do Vaticano – um conjunto de galerias, monumentos e museus pontifícios, sem dúvida um dos mais importantes do mundo, pela grandeza das obras e pelos cenários nos quais estão preservados o que foi criado para eles: a Capela Sistina, onde pontifica Dante Alighieri, as “Stange” de Rafael e os Aposentos dos Borgias, etc. são monumentos de transcendental importância histórica e artística.
Em Florença, no Museu Uffizi, com seu acervo de excepcional qualidade; na Vila Borghese onde está o museu consagrado à escultura (obras primas de Bernini), a Galeria Borghese com sua coleção de pinturas de Caravaggio e Ticiano. Tudo isto na Itália.
Na França, só o Louvre em Paris é um espetáculo completo, imenso palácio cujos braços cercam as verdes Tulherias, alcançando até a Praça da Concórdia, com o Jeu de Paume, dedicado aos impressionistas – um museu que guarda os tesouros de séculos e de inúmeras nações. Na França, Ahmés foi aprovado para o Curso de Gravura da L´Ecole des Beaux Arts”.
Na Espanha, no Museu do Prado em Madrid encontrou reunido o acervo fascinante de obras dos mestres, entre os séculos XV e XVIII. Na Holanda, Amsterdam, entrando no Rijksmuseum, riquíssimo museu, passou pelas duas portas principais: numa estão as estatuas de lindas mulheres- a Arquitetura e a Escultura; noutra, outras duas fascinantes mulheres: a Pintura e a Gravura.
Na Inglaterra, no Museu Britânico de Londres, considerado o
primeiro museu “público” – distinto de “privado “, fundado há 250 anos,
encontrou ao lado do tradicional e rico museu geral sua grande biblioteca
especializada em artes; na Galeria Nacional está uma das maiores pinacotecas da
Europa, exibindo pinturas de Rembrant, Rubens, van Dick e – sobretudo – o
magnífico grupo de telas de Claude Lorrain.
Imaginem, queridos conterrâneos, o
que o inteligente, culto e poliglota Ahmés viu, estudou e aprendeu neste
“oceano” de beleza e riqueza artística, durante três longos anos!
Voltou a Brasil, tornou-se
professor, dedicou-se ao magistério e ao seu trabalho intenso como pintor,
gravador (especialmente a Litografia), criando e ensinando com toda sua grande
capacidade e interesse. Escreveu “Um Manual de Litografia”, completo e perfeito,
único no Brasil.
E, com sua enorme bagagem, foi
presença constante nas mais famosas e disputadas exposições no Brasil e nos
EUA. O pintor possui obras nos principais acervos de museus deste país e sua
pinacoteca pertence hoje a sua família e à Escola de Belas Artes da
Universidade do Brasil, onde seus quadros estão permanentemente expostos em uma
sala juntamente com uma homenagem de honra que, meritoriamente recebeu.
Em 1947, casou-se com sua colega de escola, Maria Beatriz Oswald Machado, também pintora, (Bete) com vários trabalhos em Itaúna, grande retratista, é autora de um magnifico trabalho que enriquece meu lar, o retrato de minha mãe.
Deste feliz casamento ficaram duas
filhas, Maria e Maria Cândida, residentes em Petrópolis, onde Ahmés instalou
seu domicílio em caráter definitivo.
Ahmés de Paula Machado deu sua vida
para a arte. Ficava horas em seu atelier trabalhando com litografia nos últimos
tempos.
Três amores marcaram profundamente
a vida deste grande e ilustre conterrâneo: a família, a arte e Itaúna. Em
férias, só pensava em Itaúna. Só amava, só gostava de Itaúna. Seu sonho era
comprar um sítio em Itaúna para quando se aposentasse, viesse morar no meio de
sua gente, que tanta amava.
Não conseguiu realizar seu sonho,
mas quis o destino, e Deus o presenteou, dentro de seus inexplicáveis
desígnios, que falecesse em Itaúna, quando aqui passava férias, a 24 de
fevereiro de 1985, com 63 anos de idade, incompletos.
Só Ele tem o poder de ressuscitar
os mortos, mas nossa admiração, nosso respeito e nosso carinho pelo grande
Ahnés, estão contribuindo para ressuscitar sua memória, neste espaço cultural,
para as homenagens e o reconhecimento dos itaunenses!
Guaracy de Castro Nogueira
Discurso proferido, a convite do Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Município de Itaúna, Professor Elimar Alves Pereira, às 20 horas, do dia 21 de novembro de 2003, na homenagem que se prestou ao artista plástico itaunense, na “Galeria de Artes Ahmés de Paula Machado”, em nosso Espaço Cultural.
Imagem gerada por inteligência artificial para fins ilustrativos.
Organização: Charles Aquino
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407





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