quarta-feira, abril 08, 2026

CONFIDENCIAL ITAUNA (1)

CAPÍTULO 1

Folha do Oeste à Folha do Povo: jornalismo e vigilância política em Itaúna

O jornal Folha do Oeste em Itaúna/MG, fundado em fevereiro de 1944 por Sebastião Nogueira Gomide, conhecido como “Piu”, ocupa um lugar de destaque na trajetória, história e memória da imprensa local e regional.

 Surgido em pleno contexto de transformações sociais e políticas no Brasil, ainda sob o Estado Novo, o periódico representou desde cedo a tentativa de consolidar uma imprensa mais estruturada no interior de Minas Gerais, tendo o mérito de ser considerado um jornal de Itaúna com registro profissional e circulação regular.

Sua fundação não foi apenas um marco de comunicação, mas também um instrumento de afirmação da cidade como polo em expansão econômica e cultural, dando voz às demandas de uma população que buscava maior visibilidade frente aos acontecimentos do cenário estadual e nacional.

Nos primeiros anos de circulação, ainda sob o nome Folha do Oeste, o jornal manteve forte vínculo com seu fundador, Sebastião Nogueira Gomide, que foi seu proprietário e diretor até o falecimento em 26 de novembro de 1980. 

Gomide, figura reconhecida no meio jornalístico e cultural de Itaúna, imprimiu ao periódico um caráter combativo, comunitário e de valorização da vida local, transformando-o em referência da imprensa interiorana mineira durante décadas. Após o falecimento de seu fundador, o jornal passou por um processo de reorganização administrativa e editorial.

Apesar das pressões e transformações, o jornal manteve-se ativo, adaptando-se às novas conjunturas políticas e sociais. Entre os nomes que marcaram sua condução ao longo dos anos estão Célio Silva, José Waldemar Teixeira de Mello, Anis José Leão, Juarez Heleno Campos e Sérgio Cunha, que imprimiram diferentes estilos e enfoques, mas sempre preservaram o caráter local e participativo da publicação.

Entre os arquivos consultados sobre a trajetória da imprensa itaunense, emergem também documentos oficiais que evidenciam o ambiente de controle e vigilância política característico do final da década de 1970. Um exemplo é o ofício nº 1427-SA/79, datado de 25 de outubro de 1979, expedido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais e assinado por Anis José Leão, então diretor da Secretaria de Coordenação Eleitoral. Classificado como “confidencial”, o documento responde a uma solicitação do Departamento de Polícia Federal, remetendo dados cadastrais de um eleitor.

Embora de aparência meramente burocrática, a correspondência revela as conexões entre diferentes órgãos do Estado — Justiça Eleitoral e Polícia Federal — em uma rede de vigilância que ultrapassava o campo estritamente administrativo. Esse tipo de prática era frequente no período e tinha por finalidade monitorar cidadãos e servidores públicos, especialmente aqueles que, de alguma forma, exerciam atividades de influência social, jornalística ou política.

A presença de Anís José Leão nesses trâmites institucionais, o mesmo que mais tarde teria ligação com o contexto jornalístico da cidade, citado em registros associados à Folha do Oeste, sugere que seu trabalho também esteve sob o olhar atento das estruturas de controle da época. 

Esses ofícios, lacrados com o selo de confidencialidade e trocados entre repartições, são testemunhos eloquentes de um tempo em que até mesmo comunicações administrativas podiam adquirir um caráter político, refletindo o clima de desconfiança e vigilância generalizada que marcou o fim do regime autoritário no Brasil.

Em continuidade às práticas de controle e mapeamento da imprensa, um documento oficial do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 23 de julho de 1981 e classificado como “Confidencial”, confirma que o jornal Folha do Oeste, de Itaúna/MG, foi incluído em um levantamento nacional de dados sobre jornais do interior. 

O relatório, identificado como Informação nº C262/19/AC/81, integra uma série de anexos elaborados pela Agência Central do SNI, com o objetivo de compilar informações sobre veículos de comunicação em diversos estados, entre eles Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo.

Na listagem referente ao Estado de Minas Gerais (Anexo “C”), o nome Folha do Oeste – Itaúna/MG aparece ao lado de periódicos regionais como o Agora (Divinópolis), Paraminense (Pará de Minas), Diário da Tarde (Juiz de Fora), Folha de Itabira (Itabira), entre outros, demonstrando que o jornal itaunense figurava entre os veículos monitorados pelo sistema de inteligência federal. 

O objetivo desse levantamento, conforme indicado no próprio documento, era manter atualizados os cadastros sobre a estrutura, a circulação e o perfil editorial dos jornais do interior, compondo um panorama de vigilância sistemática da imprensa brasileira.

A inclusão da Folha do Oeste nesse relatório de 1981 confirma que a vigilância sobre o jornal não se limitou ao período de transição democrática dos anos 1980, mas se estendeu de forma articulada aos órgãos centrais do regime. Esse material reforça a percepção de que, mesmo em pequenas cidades, a imprensa local era considerada um espaço estratégico de formação de opinião, e portanto, alvo do olhar atento do Estado autoritário.

Em 1983, o jornalista José Waldemar Teixeira de Mello aparece documentado em relatórios da Agência Belo Horizonte do Serviço Nacional de Informações (SNI), atuando como 1º Tesoureiro da recém-criada Associação dos Jornais do Interior de Minas Gerais (ADJORI-MG). 

A participação de José Waldemar na fundação da associação demonstra sua relevância não apenas para a imprensa itaunense, mas também para o fortalecimento dos veículos regionais de comunicação em todo o estado. A ADJORI-MG nasceu como uma rede de cooperação entre jornais do interior, em um contexto de concentração midiática e dificuldades financeiras, buscando promover a troca de informações, recursos e estratégias de sobrevivência editorial.

O papel de José Waldemar foi essencial na estruturação financeira e institucional dessa entidade, garantindo sustentabilidade às pequenas redações e consolidando a voz do interior mineiro diante dos grandes centros. Seu envolvimento reflete um compromisso de longa data com a profissionalização do jornalismo e com a defesa da liberdade de imprensa, valores que também marcaram sua passagem pela direção da Folha do Oeste em Itaúna.

Em 1987, registros oficiais apontam uma nova direção, agora sob responsabilidade de Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares. À época, o jornal, ainda denominado Folha do Oeste, possuía sede em Itaúna, e mantinha uma tiragem de 4.500 exemplares, circulando também nos municípios de Mateus Leme e Itatiaiuçu. 

Seu quadro societário e equipe editorial incluíam jornalistas, colunistas, colaboradores e representantes regionais. Com declaração de utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, o jornal chegou a atuar como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna.

A relevância institucional e o alcance do jornal chamaram a atenção das autoridades da época. Documentos confidenciais da Agência de Belo Horizonte (ABH), datados de 1987–1988, provenientes do Arquivo Cronológico de Entrada (ACE) e do Serviço Nacional de Informações (SNI), revelam que o jornal Folha do Oeste foi monitorado pela polícia política, constando em um cadastro de veículos de comunicação que reunia informações detalhadas sobre sua estrutura, propriedade, circulação e equipe.

A ficha, classificada na categoria “Z7-A”, apresentava um retrato minucioso do jornal, incluindo nomes, números de identidade, dados financeiros e de tiragem, o que demonstra a preocupação estatal em manter vigilância sobre a imprensa regional.

Esse registro de monitoramento, feito em plena transição democrática brasileira, ilustra um momento de tensão entre a liberdade recém-reconquistada e os mecanismos de controle herdados do regime militar. Mesmo após a revogação formal dos Atos Institucionais e a promulgação da nova Constituição de 1988, diversos órgãos de segurança civil e militar continuavam a operar estruturas de observação e fichamento de entidades civis, entre elas, jornais, sindicatos, partidos, clubes e igrejas. 

O caso da Folha do Oeste insere-se nesse contexto de vigilância residual, em que o Estado, ainda temeroso do papel político da palavra impressa, mapeava e classificava periódicos locais para avaliar seu potencial de influência ou crítica.

O nível de detalhamento da ficha é revelador: ela registra, por exemplo, o endereço exato da redação, os nomes e cargos de todos os colaboradores, o número de páginas, a tiragem, a área de circulação e até a condição financeira do jornal. Isso indica que tais dados extrapolavam a função burocrática, configurando um mecanismo de vigilância política sistemática, num contexto em que o Estado brasileiro ainda preservava práticas de controle oriundas do regime autoritário.

 Embora o país já estivesse sob o governo civil e o processo de redemocratização avançasse, os órgãos de informação e segurança, entre eles o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e as agências estaduais de inteligência, continuavam a monitorar a atuação da imprensa, especialmente nos municípios do interior, onde a comunicação local exercia papel decisivo na formação da opinião pública.

Esse tipo de monitoramento se insere em uma estratégia mais ampla de controle da informação, muito comum nas décadas de 1970 e 1980. O Estado, temeroso da imprensa como espaço de crítica e resistência, buscava mapear os meios de comunicação, seus responsáveis e suas redes de influência. 

O objetivo era prevenir que jornais regionais, frequentemente mais livres e próximos da população, se tornassem veículos de oposição ou espaços de contestação política. Assim, o cadastro da Folha do Oeste não deve ser entendido apenas como um registro administrativo, mas como parte de uma estrutura de vigilância ideológica voltada para o controle do discurso público.

A existência de uma ficha tão completa indica também o reconhecimento, por parte das autoridades, da relevância e alcance do jornal. A Folha do Oeste era lida por milhares de pessoas, dialogava com comerciantes, trabalhadores, agentes políticos e religiosos, e registrava os acontecimentos que moldavam o cotidiano de Itaúna e região.

Nesse sentido, o monitoramento, paradoxalmente, reforça a importância histórica do jornal como instrumento de informação e poder simbólico no interior mineiro. Mesmo sob observação, o periódico manteve sua circulação e sua função comunitária, o que demonstra sua resiliência diante do controle estatal e o compromisso de seus dirigentes com a continuidade do projeto jornalístico iniciado por Sebastião Nogueira Gomide em 1944.

Na década de 1990, sob nova orientação editorial, o periódico consolidou o nome Folha do Povo, reafirmando sua identidade e proximidade com a comunidade itaunense. Desde 1996, a direção está sob a responsabilidade do jornalista e diretor Renilton Gonçalves Pacheco, que não apenas deu continuidade à tradição do jornal, mas também o transformou em um verdadeiro laboratório de memória e consciência cidadã.

Seu primeiro contato com a redação remonta a 1973, quando, ainda menino de 13 anos, adentrou a antiga sede da Folha do Oeste, no número 11 da Rua Antônio de Matos, esquina com a Praça da Matriz, em Itaúna. O ambiente efervescente, dominado por discussões políticas, notícias policiais e temas sociais, o marcou profundamente.

Renilton relembra que foi ali, entre o barulho das velhas impressoras e o cheiro de tinta, que conheceu o fundador Sebastião Nogueira Gomide (o “Piu”), “um senhor polêmico e inteligente, que cobrava e exigia dos governantes postura em relação às coisas do município”. 

Acompanhando de perto as críticas e os editoriais contundentes de Gomide, muitos ainda sobre temas que persistem até hoje, como a Casa de Caridade Manoel Gonçalves, o jovem aprendiz absorveu o sentido do jornalismo como instrumento de transformação. Outro nome marcante foi Célio Silva, o primeiro chefe de redação, que conduzia a oficina gráfica e introduziu Renilton à prática diária da produção jornalística.

Ao longo dos anos seguintes, Renilton formou-se na escola viva do jornalismo local, aprendendo com nomes como José Waldemar Teixeira de Mello, ex-redator do Estado de Minas, e Anis José Leão, professor de Ética na Faculdade de Jornalismo da UFMG. De ambos herdou a noção de rigor, ética e compromisso público — valores que norteariam a condução futura da Folha do Povo.

Hoje, com mais de 30 anos à frente do jornal, Renilton reafirma a crença de que o jornalismo é uma forma de agir sobre a realidade, e não apenas de noticiá-la. Em suas palavras, o papel do jornalista não se limita a “dar a notícia”, mas a construí-la com responsabilidade, checagem e clareza, combatendo a pressa e a superficialidade impostas pelas mídias digitais.

A Folha do Povo, sob sua direção, continua a exercer esse jornalismo atento à cidade e comprometido com a verdade, cobrando obras, fiscalizando o poder público e preservando a memória coletiva de Itaúna. A expansão para Itatiaiuçu, com edição semanal aos sábados, ampliou ainda mais sua influência regional.

Assim, a trajetória da Folha do Povo, desde sua origem como Folha do Oeste com Sebastião Nogueira Gomide, passando pela vigilância policial da década de 1980 e pela consolidação moderna sob Renilton Gonçalves Pacheco, espelha a própria história de Itaúna: um percurso de resistência, adaptação e continuidade. 

O jornal atravessou regimes políticos distintos, enfrentou períodos de censura e monitoramento, testemunhou crises e transformações urbanas, mantendo-se como símbolo de liberdade de expressão, memória e identidade local. Mais do que narrador, tornou-se protagonista da história itaunense.

Disponível em: JORNAL FOLHA DO POVO

REFERÊNCIAS:

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN)Fundo: Divisão de Inteligência do Departamento de Polícia Federal (BR DFANBSB ZD). Código de referência: BR DFANBSB ZD 0 0 0022C 0005 D0004. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_zd/br_dfanbsb_zd_0/br_dfanbsb_zd_0_0/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c_0005/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c_0005_d0004.pdf. Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/AAA. Dossiê: 81019370. Título: Levantamento de dados de jornaisCódigo de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.81019370. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/81019370/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_81019370_d0001de0002.pdf. Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 83008307. Título: Funcionamento do sistema de comunicação social do Poder Executivo. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.83008307. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/83008307/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_83008307_d0001de0001.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicaçãoCódigo de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 88013583. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

JORNAL FOLHA DO POVO. Folha do Povo (Itaúna/MG). Sobre nós. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/sobre-nos .Acesso em: 04 abr. 2026.  

sábado, abril 04, 2026

QUEIMA DO JUDAS

Em 2015, foi publicada uma postagem sobre a tradicional “Queima do Judas” em Itaúna — uma prática que marcou gerações e integrou o calendário cultural da cidade. 

Passados alguns anos, revisitar esse conteúdo é também revisitar a memória coletiva. A “Queima do Judas”, comum em diversas regiões do Brasil no contexto do Sábado de Aleluia, está ligada simbolicamente à figura de Judas Iscariotes, associada à tradição cristã.

No entanto, seu significado ultrapassa o campo religioso.

Mais do que um rito simbólico, essa prática se consolidou como uma manifestação da cultura popular, marcada pela participação coletiva, pelo humor e, em muitos casos, pela crítica social. Em diferentes épocas, a figura do “Judas” representava personagens públicos ou situações do cotidiano, funcionando como uma forma de expressão social e cultural das comunidades.

A imagem utilizada nesta publicação é inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local. A igreja ali existente, posteriormente demolida em 1934, remete a um contexto histórico no qual práticas como a “Queima do Judas” possivelmente ainda integravam o cotidiano da cidade, ao menos nas primeiras décadas do século XX.

Hoje, essa tradição já não aparece com a mesma força em muitas localidades, o que torna ainda mais importante preservar esses registros. Mais do que uma simples encenação, tratava-se de uma prática que revelava valores, tensões e formas de sociabilidade de seu tempo.

  Relembre a postagem original de 2015: 



A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por IA (Inteligência Artificial), sendo inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local.

Organização: Charles Aquino


terça-feira, março 31, 2026

DONA LADOMILA

Dona Ladomila: Fé, Caridade e Memória em Itaúna

Este texto apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em 22 de abril de 1956.

 Mais do que uma homenagem, o registro permite compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu tempo.

DONA LADOMILA

Corria o ano de 1872, quando nasceu em Santana de São João do Rio Acima, Ladomila  Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro.

Cresceu e desfrutou a vida de família rica e opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e Odilon, em 11 de agosto de 1900.

Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e, depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de cada dia para seus queridos filhos.

Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer. Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.

Era católica fervorosa, estava enterrado o Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi a representante da Terra Santa em Itaúna.

Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.

Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.

Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra. Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que sofria.

Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou, porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer aquilo que essa senhora fazia!”

Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida, alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: — Uma sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora. Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir à sua casa.

Terminada a novena, negou-se a entregar a santa. Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar, vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora, pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. Dias depois, briga ela na igreja, em frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem, a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe da hipoteca!...”

E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!

Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a saudade, que é a memória do coração.”

Fotografia original publicada no jornal, integrando a biografia.

 
Rua Dona Ladomila - Itaúna/MG CEP 35680-365

Referências:

Organização, pesquisa e arte: Charles Aquino

Texto biográfico: Stella Máximo

Imagem: Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e sua presença marcante na vida social de Itaúna.

Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião Nogueira Gomide.

Prefeitura e Câmara Municipal de Itaúna/MG.

Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP: 35680-365 (Lei 1343/76) 

Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.

Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho.  Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf


segunda-feira, março 30, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA

IMPRENSA SOB VIGILÂNCIA NOS ARQUIVOS DO ESTADO

A presente série de seis capítulos propõe uma análise da imprensa da cidade de Itaúna/MG a partir de um conjunto de documentos produzidos por órgãos de informação do Estado brasileiro nas décadas de 1970 e 1980

Mais do que reconstituir a trajetória de jornais locais, o estudo busca compreender como esses veículos foram registrados, classificados e acompanhados em um contexto marcado pela vigilância política e pela reorganização institucional do país no período de transição democrática.

O ponto de partida da investigação encontra-se na identificação de registros oficiais que inserem periódicos itaunenses em cadastros produzidos por estruturas como o Serviço Nacional de Informações (SNI) e outros órgãos vinculados ao sistema de segurança interna. A partir dessas fontes, o trabalho não se limita a descrever documentos, mas procura interpretá-los como parte de um mecanismo mais amplo de produção e controle da informação.

Nos primeiros capítulos, a análise evidencia que jornais como Folha do Oeste, Ita Vox, Tribuna Itaunense e Folha do Centro-Oeste aparecem em fichas cadastrais que reuniam dados detalhados sobre sua estrutura, circulação e equipe editorial. 

Esses registros, à primeira vista administrativos, revelam um esforço sistemático de mapeamento da imprensa regional, indicando que mesmo veículos do interior eram considerados relevantes no cenário informacional do período.

Na sequência, o estudo avança ao demonstrar que esse acompanhamento não se restringia a aspectos técnicos. No caso do Jornal Brexó, por exemplo, os documentos passam a incorporar interpretações sobre conteúdo editorial e posicionamento político, evidenciando um deslocamento do registro descritivo para uma lógica de classificação e enquadramento.

Esse movimento revela que os órgãos de informação não apenas catalogavam os meios de comunicação, mas também buscavam compreender sua atuação no campo público, identificando vínculos, posicionamentos e possíveis impactos na formação da opinião.

Ao longo dos capítulos, torna-se evidente que a imprensa itaunense não pode ser compreendida de forma isolada. Os documentos analisados indicam a existência de um sistema articulado de coleta e organização de dados, no qual informações produzidas localmente eram integradas a estruturas mais amplas de análise. Nesse contexto, jornais do interior passam a ser observados como parte de redes de circulação de ideias, e não apenas como veículos locais de informação.

O sexto capítulo representa o ponto de inflexão da análise. Nele, o foco deixa de estar nos jornais enquanto instrumentos de observação e se desloca para o próprio sistema que os monitorava. A investigação dos códigos, classificações e fluxos documentais revela que o acompanhamento da imprensa era sustentado por uma estrutura técnica sofisticada, baseada na padronização de registros e na circulação controlada da informação.

Mais do que isso, os documentos evidenciam que o monitoramento alcançava também os profissionais da comunicação, identificados por códigos individuais que permitiam acompanhar suas trajetórias em diferentes veículos e contextos. 

Encerrar a série com essa abordagem implica, portanto, inverter o olhar: não mais apenas observar, mas compreender o próprio olhar que os produziu enquanto objetos de interesse estatal.

Esse dado amplia significativamente o escopo da análise, indicando que o objetivo não era apenas observar instituições, mas mapear redes e relações no interior do campo jornalístico.

Dessa forma, ao longo dos seis capítulos, constrói-se uma interpretação segundo a qual a imprensa local de Itaúna esteve inserida em um sistema contínuo de observação, no qual veículos e indivíduos eram simultaneamente registrados, classificados e analisados.

Mais do que uma história da imprensa, trata-se, portanto, de uma investigação sobre as formas pelas quais o Estado produziu conhecimento sobre a circulação de informações e sobre os agentes responsáveis por sua difusão.

Ao reunir e analisar esses documentos, o estudo contribui para ampliar a compreensão sobre o papel da imprensa regional no Brasil e sobre os mecanismos de vigilância que incidiram sobre ela, evidenciando que, mesmo em contextos locais, a comunicação ocupava posição estratégica no interior das disputas políticas e simbólicas do período.

Considerações finais sobre as fontes e a pesquisa

O presente trabalho foi desenvolvido a partir da análise direta de documentos históricos produzidos no período estudado, especialmente aqueles oriundos dos órgãos de informação e segurança do Estado brasileiro.

Trata-se, portanto, de uma investigação fundamentada em fontes primárias, cuja leitura e interpretação permitiram reconstruir aspectos relevantes da relação entre imprensa e vigilância política no contexto analisado.

Grande parte dessa documentação encontra-se atualmente disponível para consulta pública por meio do SIAN – Sistema de Informações do Arquivo Nacional, plataforma digital que reúne acervos documentais de diferentes órgãos da administração pública brasileira. 

Esse sistema constitui uma ferramenta fundamental para pesquisadores, ao possibilitar o acesso a registros históricos que, durante décadas, permaneceram restritos.

O acesso ao SIAN é aberto a qualquer interessado. Por meio de sua base de dados, é possível localizar documentos a partir da inserção de termos de busca, como nomes de instituições, órgãos, veículos de comunicação ou indivíduos, permitindo o contato direto com fontes originais do período.

No entanto, é importante destacar que o acesso aos documentos, por si só, não esgota o trabalho historiográfico. A compreensão dessas fontes exige leitura crítica, contextualização e cruzamento de informações, uma vez que se tratam de registros produzidos dentro de estruturas institucionais específicas, marcadas por interesses, linguagens próprias e lógicas de classificação.

Nesse sentido, este estudo não se limita à localização dos documentos, mas se dedica à sua análise interpretativa, buscando compreender não apenas o conteúdo registrado, mas também os mecanismos de produção, organização e circulação dessas informações.

Assim, ao mesmo tempo em que evidencia a importância do acesso público aos acervos do Arquivo Nacional, este trabalho reforça a necessidade de um olhar analítico rigoroso sobre as fontes, condição essencial para a construção de interpretações históricas consistentes.

CAPÍTULO 1 (Disponível)

CAPÍTULO 2 (Em Breve)✔

CAPÍTULO 3 (Em breve)✔

CAPÍTULO 4 (Em breve)✔

CAPÍTULO 5 (Em Breve)✔

CAPÍTULO 6 (Em breve)✔

Referências

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Disponível em: https://sian.an.gov.br/sianex/consulta/login.asp. .

BRASIL. Câmara dos Deputados. Diário do Congresso Nacional. Brasília, 9 out. 1985. Disponível em: https://imagem.camara.leg.br/Imagem/d/pdf/DCD09OUT1985.pdf

JORNAL FOLHA DO POVO. Folha do Povo (Itaúna/MG). Apoio à pesquisa. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), p. 95-102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988

IMAGENS:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na análise documental sobre o monitoramento da imprensa em Itaúna/MG por órgãos de informação do Estado, especialmente no contexto das décadas de 1970 e 1980.

A composição apresenta elementos simbólicos como câmeras de vigilância, painéis com jornais locais — Folha do Oeste, Tribuna, Ita Vox, Folha do Centro-Oeste e Brexó — e conexões visuais que remetem à ideia de mapeamento e controle informacional.

A imagem não corresponde a um registro histórico documental, mas sim a uma interpretação artística que busca representar, de forma visual, o ambiente de vigilância, classificação e acompanhamento sistemático da imprensa local, conforme evidenciado nas fontes analisadas.

Seu objetivo é traduzir, em linguagem imagética, a lógica de funcionamento dos sistemas de informação da época, marcados pela coleta, organização e circulação controlada de dados sobre veículos de comunicação e seus profissionais.

sábado, março 28, 2026

CHICO MORAIS

Francisco Gomes de Morais: memória, reconhecimento público e sociabilidade em Santana do São João Acima.

AV. CHICO MORAIS

A história de Itaúna também se constrói a partir de trajetórias individuais que, pela força de sua presença comunitária, ultrapassam o âmbito privado e passam a integrar a memória coletiva da cidade.

Entre esses personagens, destaca-se Chico Morais, cuja vida, marcada pela religiosidade, pelo espírito comunitário e pela atuação social, foi posteriormente reconhecida pelo poder público municipal.

A memória de Francisco Gomes de Morais foi formalmente institucionalizada no início da década de 1990. Em 20 de março de 1991, por iniciativa do vereador João Viana da Fonseca, foi apresentado o Projeto de Lei nº 40/91, que propunha a denominação de um logradouro público em sua homenagem.

A proposta foi aprovada, dando origem à Lei nº 2506/91, que oficializou a denominação da via como Avenida Chico Morais, situada, à época, no trecho que se estendia do bairro Garcias até a praça do povoado de Campos, no município de Itaúna. Trata-se de um exemplo claro de como o espaço urbano se torna também um espaço de memória, incorporando nomes que expressam valores reconhecidos pela comunidade.

A seguir, apresenta-se a transcrição do documento que fundamentou essa homenagem, preservando sua redação original. Trata-se do texto apresentado pelo vereador João Viana da Fonseca no âmbito do Projeto de Lei nº 40/91 na Câmara |Municipal de Itaúna/MG.

 

CHICO MORAIS - (12/11/1886 / 27/10/1963)

Francisco Gomes de Morais nasceu em 12 de novembro de 1886, em Rio Manso, MG. Era filho de Antônio Justiniano de Morais e Macrina Gomes de Morais.

Ainda quando criança, morando em Rio Manso, já se dedicava aos cultos religiosos, onde praticava os atos de “Coroinha” do padre Cesário, com o qual morava.

Mudando a família para o povoado de “Campos”, o mesmo também aconteceu com o focalizado.

Conhecendo Maria Antônia de Jesus, do povoado dos “Lopes”, em 10/09/1908, com a mesma contraiu matrimônio, de cuja união nasceram treze (13) filhos.

Ele foi um homem que se dedicou muito às coisas boas da vida. Era bastante alegre, gostava de música, de um jogo de truco, de missas, etc.

Não deixava passar um ano sem que fossem celebradas duas missas em sua casa, uma para a preparação para a Quaresma e a outra, a missa de Páscoa. Era um grande gosto seu, pois nessas épocas havia confissões e comunhões para todos os moradores da região.

Quando da época das “Missões”, sua casa servia de hospedagem para os padres e ponto de reuniões para os cristãos.

Era bastante caridoso, socorrendo várias pessoas menos afortunadas, prestando-lhes inclusive apoio moral e religioso. Sua casa não fechava portas a pobres e desvalidos, dando-lhes abrigo, alimentação, etc.

Exercia a função de inspetor escolar na escola dos “Lopes”, onde prezava pela educação das crianças. Todos os seus familiares o consideravam como um amigo, onde buscavam apoio para os momentos difíceis da vida.

Quando da Segunda Guerra Mundial, viu um de seus filhos ser convocado para combater em campos italianos, tristeza que invadiu seu lar, mas que, com o passar do tempo, foi superada com a alegria de seu retorno.

Como não podia deixar de ser, tinha suas preferências por candidatos políticos, nos quais toda a sua família depositava seus votos. Sua casa era bastante frequentada por pessoas da sociedade da época.

O Padre José Ferreira Neto foi a pessoa que celebrou as “Bodas de Ouro” do casamento do focalizado, que, junto com toda a sua família, o comemorou.

Mas, já com 77 anos, bem vividos, em outubro de 1963 começou seus sofrimentos, vindo a falecer. Deixou um caminho de bondade, amizade e, principalmente, de exemplo para seus filhos e familiares, de quanto um homem, embora rude, de pouca instrução, pode semear em campos férteis.

 

A trajetória de Francisco Gomes de Morais permite compreender aspectos centrais da organização social do meio rural mineiro ao longo do século XX. Sua vida revela a articulação entre religiosidade, sociabilidade e autoridade local, elementos que estruturavam o cotidiano de comunidades afastadas dos grandes centros urbanos.

A forte presença da religião em sua vida não se restringia à devoção pessoal. Ao sediar celebrações religiosas em sua própria residência, Francisco transformava o espaço doméstico em extensão da vida comunitária, assumindo uma função que, em muitos contextos, supria a ausência de estruturas eclesiásticas permanentes. Sua casa, nesse sentido, operava como centro de encontro, devoção e organização social.

A menção ao Padre José Neto, responsável pela celebração das bodas de ouro do casal, reforça sua inserção em redes institucionais da Igreja e evidencia seu reconhecimento social. A celebração, acompanhada pela família e pela comunidade, indica não apenas longevidade conjugal, mas também prestígio simbólico acumulado ao longo da vida.

A prática da caridade, amplamente destacada no documento, também deve ser compreendida para além do gesto individual. Em sociedades rurais, ações como acolher necessitados e oferecer apoio material e moral contribuíam para a construção de prestígio e autoridade simbólica, reforçando laços de reciprocidade e reconhecimento coletivo.

Sua atuação como inspetor escolar indica ainda um papel relevante na mediação entre comunidade e educação formal, evidenciando a importância de lideranças locais na difusão de valores e no acompanhamento da formação das novas gerações.

Outro aspecto significativo é a presença de elementos de sociabilidade cotidiana — como a música, os jogos e as reuniões que revelam uma vida comunitária dinâmica, baseada na convivência e na interação constante entre os moradores.

A experiência da Segunda Guerra Mundial, ainda que vivida de forma indireta, demonstra como eventos globais impactavam o cotidiano de famílias no interior, conectando o local ao cenário internacional.

A denominação da Avenida Chico Morais em Itaúna/MG não apenas identifica um espaço urbano, mas materializa uma escolha: a de preservar, no cotidiano da cidade, a lembrança de uma trajetória que marcou sua comunidade.

Mais do que um ato administrativo, a nomeação de logradouros públicos constitui uma forma de inscrição da história no espaço urbano, na qual indivíduos e suas experiências passam a integrar a paisagem da cidade como referências simbólicas.

Nesse sentido, Francisco Gomes de Morais (Chico Morais) permanece não apenas como figura do passado, mas como presença contínua na memória itaunense, inscrita literalmente, nos caminhos percorridos por seus habitantes.

Por fim, a própria construção dessa biografia, posteriormente incorporada ao espaço urbano por meio da denominação de uma avenida, revela um processo de elaboração da memória. Não se trata apenas de registrar uma vida, mas de afirmar valores considerados exemplares,  religiosidade, solidariedade e liderança como dignos de permanência no imaginário coletivo.

 

Avenida Chico Morais - Garcias - Itaúna/MG - 35680-562


Referências:

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – Câmara Municipal de Itaúna - Projeto de Lei nº 40/91 – Lei nº 2506/91

Vereador João Viana da Fonseca -  Itaúna/MG

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Francisco Gomes de Morais, apresentada em 1991 pelo vereador João Viana da Fonseca durante a tramitação do Projeto de Lei nº 40/91, que deu origem à Lei nº 2506/91 para denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o contexto social do personagem, sua atuação comunitária, sua religiosidade, seu papel como referência local e sua ligação com a comunidade itaunense, elementos que fundamentaram a homenagem que nomeou a Avenida Chico Morais.