Este texto convida o leitor
a ir além de uma leitura superficial dos dados apresentados e a observar, com
atenção crítica, os vestígios documentais que revelam muito mais do que simples
registros administrativos.
Ao percorrer as informações sobre os jornais da
imprensa itaunense no final da década de 1980, torna-se possível identificar
indícios de organização, alcance e até possíveis formas de monitoramento da
imprensa local em um período marcado por forte presença estatal sobre os meios
de comunicação.
A proposta aqui não é apenas
informar, mas provocar: que tipo de controle se exercia sobre esses veículos? O
que esses cadastros silenciam? E, sobretudo, o que eles deixam escapar? A
leitura do capítulo permite acessar essas camadas e compreender como a história
da imprensa também se constrói a partir de arquivos produzidos pelo próprio
aparato que buscava observá-la
Os Jornais da Tribuna Itaunense e
Folha do Centro-Oeste nos registros das autoridades: o que revelam as Fichas
dos Cadastros de veículos de Comunicação?
Esta série
analisa documentos históricos produzidos por órgãos de informação que
registraram dados sobre jornais da cidade de Itaúna nas décadas de 1970 e 1980,
revelando aspectos da estrutura e da circulação da imprensa local naquele
período.
A análise de
documentos produzidos por órgãos responsáveis pelo levantamento de veículos de
comunicação social revela que outros periódicos de Itaúna também aparecem
registrados nos arquivos administrativos do período. Além dos jornais já
mencionados nos capítulos anteriores desta série, as fichas consultadas indicam
a presença de informações detalhadas sobre publicações como o Jornal Tribuna
Itaunense e o Jornal Folha do Centro-Oeste.
Esses registros
fazem parte de fichas de cadastro elaboradas em 1987 por órgãos responsáveis
pelo levantamento de veículos de comunicação social em diferentes cidades. Os
formulários reuniam informações sobre denominação do jornal, data de fundação,
razão social da empresa editora, endereço da redação, tiragem, periodicidade,
área de circulação e nomes de integrantes das equipes editoriais. Esse modelo
padronizado de registro indica que o levantamento buscava reunir dados
sistemáticos sobre os veículos de comunicação em funcionamento naquele momento.
Entre os
periódicos documentados encontra-se o Jornal Tribuna Itaunense, fundado em 16
de junho de 1975 e vinculado à empresa Editora Gazeta de Minas Ltda.. O
endereço da redação aparece registrado na Rua Santana, nº 436, bairro Graças,
no município de Itaúna.
Segundo a ficha
consultada, o periódico tinha como diretor responsável Antônio de Freitas. A
equipe editorial incluía colaboradores ligados à produção jornalística, entre
eles Adolfo Osório Mendes Penido e José Raimundo Rodrigues, identificados como
colunistas, além de José Maria de Aquino, Hely de Souza Maia e José dos Santos
Pereira, mencionados como colaboradores.
Os dados
administrativos indicam que o jornal possuía periodicidade semanal, com oito
páginas por edição e tiragem aproximada de 1.500 exemplares. A área de
circulação registrada inclui os municípios de Itaúna, Itatiaiuçu e Mateus Leme,
indicando que o periódico possuía presença informativa concentrada na própria
cidade e em localidades vizinhas.
A documentação
registra ainda que a empresa editora contava com dois empregados e apresentava
situação financeira classificada como “boa” no momento da atualização do
cadastro.
Outro periódico
registrado nas fichas é o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado em 28 de junho
de 1986 e vinculado à empresa SICOM – Sistemas de Comunicação do Oeste de Minas
Ltda.
O jornal estava
sediado na Rua Silva Jardim, nº 367, no centro de Itaúna, e apresentava uma
estrutura editorial composta por diversos profissionais. O quadro societário
registra Alberto Libânio Rodrigues, Geovane Vilela e Silva e Lindair Vicente de
Rezende, que também desempenhavam funções na organização do periódico: o
primeiro como editor, o segundo como diretor comercial e repórter, e o terceiro
como diretor financeiro.
A ficha menciona
ainda outros integrantes da equipe editorial, entre eles Paulo Roberto Alves
Nogueira, identificado como jornalista responsável; Luciene Luzia da Silva
Ferreira, redatora; José Raimundo de Miranda Alves, responsável pela
diagramação; além de Maria Eugênia Teixeira Vargas, colunista social, e Adilson
Rodrigues, colunista de música.
Os dados
administrativos indicam que o periódico possuía periodicidade quinzenal, com
doze páginas distribuídas em dois cadernos e tiragem aproximada de 5.000
exemplares.
A área de
circulação registrada para o jornal é significativamente mais ampla que a de
outros periódicos locais, incluindo cidades como Divinópolis, Belo Horizonte,
Formiga, Pará de Minas, Mateus Leme e Itatiaiuçu, além do próprio município de
Itaúna.
Os documentos
registram ainda a existência de representantes regionais em diferentes cidades,
indicando a formação de uma rede de distribuição e representação comercial em
localidades como Belo Horizonte, Divinópolis, Formiga e Pará de Minas, além de
um representante responsável pela divulgação do jornal em âmbito nacional. A
documentação indica também que a impressão do periódico era realizada pela
gráfica do Diário do Comércio, em Belo Horizonte.
Fundados em
momentos distintos, os dois periódicos refletem fases diferentes da imprensa
local. O Jornal Tribuna Itaunense, criado em 1975, aparece com tiragem
aproximada de 1.500 exemplares e circulação concentrada em Itaúna e municípios
próximos. Já o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado mais de uma década depois,
em 1986, apresenta tiragem registrada de 5.000 exemplares e circulação mais
ampla, alcançando cidades importantes da região centro-oeste mineira.
A comparação
entre os dados registrados nas fichas sugere que, ao longo desse período,
alguns veículos da imprensa local passaram a buscar maior alcance regional e
estruturas de circulação mais amplas.
Observados em
conjunto, os registros documentais revelam diferentes momentos da imprensa
itaunense. Enquanto a Folha do Oeste, fundada em 1944, representa uma fase mais
antiga da comunicação local, periódicos surgidos nas décadas seguintes, como
Tribuna, Itaunense e Ita Vox, ambos fundados em 1975, e a Folha do Centro-Oeste,
criada em 1986 indicam a formação de um ambiente jornalístico diversificado,
com veículos que buscavam ampliar sua circulação e atuação na região.
Ao reunir
informações sobre esses jornais, incluindo endereço das redações, tiragem,
periodicidade e nomes de integrantes das equipes editoriais, os documentos
analisados acabam revelando não apenas dados administrativos, mas também
fragmentos importantes da história da comunicação em Itaúna.
Entre esses
periódicos, um dos que aparece com maior destaque nos registros consultados é o
jornal Folha do Oeste. Como já mencionado no primeiro capítulo desta série, o
periódico também figura em levantamentos realizados por órgãos de informação do
Estado. No próximo capítulo, novos documentos serão apresentados, permitindo
examinar com maior detalhe a trajetória e a atuação editorial do jornal naquele
período.
REFERÊNCIAS:
AQUINO, Charles
Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.
A imagem
utilizada nesta publicação foi gerada por inteligência artificial, com
finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação simbólica
do contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística
discutidos no texto, não correspondendo a registros fotográficos ou documentos
históricos autênticos.
Esta pesquisa convida
você a conhecer documentos confidenciais produzidos pelos órgãos de informação
no final da ditadura, que mostram como a imprensa itaunense também foi
monitorada.
Ao analisar essas
fontes, o leitor encontrará não apenas dados técnicos sobre jornais, mas
registros que revelam interpretações sobre posicionamentos editoriais e
vínculos políticos.
O caso do jornal Ita Vox chama atenção tanto por sua
circulação expressiva quanto por suas conexões, incluindo a presença de Austregésilo
de Athayde entre os articulistas.
Mais do que
relatar fatos, o texto propõe uma reflexão sobre o papel da imprensa itaunense,
os limites entre informação e vigilância e a forma como esses registros ajudam
a compreender o período.
Se você busca
entender como a história também se constrói a partir da imprensa regional, esta leitura
oferece um ponto de partida consistente e provocador.
Arquivos
da polícia política (1987/1988): documentos revelam registros sobre jornal de
Itaúna que contou com o intelectual Austregésilo de Athayde entre seus
articulistas
Documentos
classificados como confidenciais, preservados nos arquivos produzidos pelos
órgãos de informação do período, revelam que jornais do interior de Minas
Gerais foram incluídos em registros detalhados mantidos pelo Estado. Esses
documentos integram o chamado Cadastro de Veículos de Comunicação Social, no
qual eram reunidas informações sobre direção, circulação, estrutura editorial e
colaboradores de diversos periódicos.
A
reportagem publicada na última edição deste jornal iniciou uma série dedicada à
análise desse material histórico, mostrando que veículos ligados à cidade de
Itaúna/MG também aparecem nesses registros oficiais. A continuidade da
investigação revela que entre os periódicos registrados nesses arquivos está o
jornal Ita Vox, publicação fundada em 11 de maio de 1975 e dirigida pelo
jornalista Juarez Heleno Campos.
As
fichas consultadas indicam que o periódico possuía circulação semanal, com
cerca de oito páginas por edição e tiragem aproximada de 7.500 exemplares,
número expressivo para um veículo do interior naquele período. A distribuição
alcançava não apenas Itaúna, mas também cidades da região como Divinópolis,
Pará de Minas, Itaguara, Itatiaiuçu e Mateus Leme, além de Belo Horizonte.
Esses dados aparecem registrados nas fichas elaboradas pelos órgãos
responsáveis pelo levantamento dos veículos de comunicação que circulavam em
Minas Gerais.
Outro
aspecto presente no documento é a relação de integrantes e colaboradores
vinculados ao jornal. Entre os nomes registrados aparece o do jornalista
Austregésilo de Athayde, intelectual de projeção nacional e uma das figuras
mais influentes da imprensa brasileira no século XX.
Athayde
teve longa trajetória no jornalismo nacional, esteve ligado aos Diários
Associados e presidiu a Academia Brasileira de Letras por mais de três décadas,
consolidando-se como uma das referências da vida intelectual brasileira. A
presença de um nome desse porte entre os articulistas do periódico revela que o
Ita Vox mantinha conexões que ultrapassavam o âmbito estritamente local da
imprensa regional.
Além
dessas informações, a ficha elaborada pelos órgãos responsáveis pelo
levantamento dos veículos de comunicação apresenta um nível de detalhamento
bastante amplo sobre o funcionamento do periódico. O documento registra
minuciosamente dados administrativos e editoriais do jornal, incluindo o quadro
societário, a composição da equipe editorial, a relação de colaboradores, além
do número de telefone e do endereço da redação.
Entre
os nomes já mencionados, além do diretor responsável Juarez Heleno Campos e do
jornalista Austregésilo de Athayde, a ficha também registra Jacqueline Almeida
Simões Campos, integrante do quadro societário. Como membros do conselho
editorial aparecem o jornalista José Leandro Junqueira Meireles e o colunista
social Cosme Caetano Silva. O documento menciona ainda articulistas como Jarbas
Passarinho, Rangel Coelho e Luiz Gonzaga da Fonseca.
A
ficha também registra informações adicionais sobre a estrutura de representação
do periódico, indicando a existência de representantes ou sucursais em
importantes centros urbanos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo
Horizonte e Brasília.
Nas
observações do documento aparece ainda o registro de que o jornal Ita Vox foi
declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 1.951, de 1º de setembro
de 1986. Esses elementos indicam que o levantamento buscava reunir um panorama
bastante completo sobre a organização, a equipe editorial e a rede de atuação
do periódico.
Dentre
os trechos mais reveladores do documento está uma observação registrada na
ficha referente ao diretor responsável pelo jornal. No registro produzido pelos
órgãos responsáveis pelo acompanhamento de informações e atividades
consideradas relevantes no período consta a seguinte anotação:
“Em
seu editorial sempre se posiciona contrário à conjuntura atual do país, tecendo
críticas às atuações dos atuais governantes, tanto no âmbito federal quanto no
estadual. É ligado a políticos do Partido Democrático Social (PDS).”
Esse
trecho é particularmente significativo porque revela aspectos que vão além de
um simples registro administrativo sobre o veículo de comunicação.
Primeiro,
o documento não registra apenas dados técnicos do jornal, como tiragem,
endereço ou periodicidade. Ele também apresenta observações sobre o conteúdo
editorial publicado no periódico.
Segundo,
o registro identifica o posicionamento político do responsável pelo jornal, ao
destacar que seus editoriais expressavam críticas à atuação de governantes.
Terceiro,
a presença desse tipo de observação indica que as fichas não se limitavam a um
cadastro burocrático dos veículos de comunicação. Em determinados casos, os
registros incluíam também anotações interpretativas sobre a atuação pública e
editorial dos jornais.
A
presença de observações sobre o posicionamento editorial de jornais vinculados
a Itaúna mostra que os registros produzidos pelos órgãos de informação iam além
de um simples cadastro administrativo. Esses documentos hoje ajudam a
compreender como veículos da imprensa regional eram descritos e analisados nos
arquivos oficiais do período.
A série de reportagens prossegue nas próximas edições
com a análise de outros jornais e personagens da imprensa de Itaúna que também
aparecem nesses registros históricos, ampliando o entendimento sobre a presença
da comunicação regional nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação
daquela época.
AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e
pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.
Nota sobre a imagem:
A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio
de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se
de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de
vigilância, produção documental e atividade jornalística abordados no texto.
Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos
específicos.
Folha do Oeste à Folha do Povo:
jornalismo e vigilância política em Itaúna
O
jornal Folha do Oeste em Itaúna/MG, fundado em fevereiro de 1944 por Sebastião
Nogueira Gomide, conhecido como “Piu”, ocupa um lugar de destaque na trajetória,
história e memória da imprensa local e regional.
Surgido em pleno contexto de
transformações sociais e políticas no Brasil, ainda sob o Estado Novo, o
periódico representou desde cedo a tentativa de consolidar uma imprensa mais
estruturada no interior de Minas Gerais, tendo o mérito de ser considerado um jornal
de Itaúna com registro profissional e circulação regular.
Sua
fundação não foi apenas um marco de comunicação, mas também um instrumento de
afirmação da cidade como polo em expansão econômica e cultural, dando voz às
demandas de uma população que buscava maior visibilidade frente aos
acontecimentos do cenário estadual e nacional.
Nos
primeiros anos de circulação, ainda sob o nome Folha do Oeste, o jornal manteve
forte vínculo com seu fundador, Sebastião Nogueira Gomide, que foi seu
proprietário e diretor até o falecimento em 26 de novembro de 1980.
Gomide,
figura reconhecida no meio jornalístico e cultural de Itaúna, imprimiu ao
periódico um caráter combativo, comunitário e de valorização da vida local,
transformando-o em referência da imprensa interiorana mineira durante décadas. Após
o falecimento de seu fundador, o jornal passou por um processo de reorganização
administrativa e editorial.
Apesar
das pressões e transformações, o jornal manteve-se ativo, adaptando-se às novas
conjunturas políticas e sociais. Entre os nomes que marcaram sua condução ao
longo dos anos estão Célio Silva, José Waldemar Teixeira de Mello, Anis José
Leão, Juarez Heleno Campos e Sérgio Cunha, que imprimiram diferentes estilos e
enfoques, mas sempre preservaram o caráter local e participativo da publicação.
Entre
os arquivos consultados sobre a trajetória da imprensa itaunense, emergem
também documentos oficiais que evidenciam o ambiente de controle e vigilância
política característico do final da década de 1970. Um exemplo é o ofício nº
1427-SA/79, datado de 25 de outubro de 1979, expedido pelo Tribunal Regional
Eleitoral de Minas Gerais e assinado por Anis José Leão, então diretor da
Secretaria de Coordenação Eleitoral. Classificado como “confidencial”, o
documento responde a uma solicitação do Departamento de Polícia Federal,
remetendo dados cadastrais de um eleitor.
Embora
de aparência meramente burocrática, a correspondência revela as conexões entre
diferentes órgãos do Estado, Justiça Eleitoral e Polícia Federal, em uma rede
de vigilância que ultrapassava o campo estritamente administrativo. Esse tipo
de prática era frequente no período e tinha por finalidade monitorar cidadãos e
servidores públicos, especialmente aqueles que, de alguma forma, exerciam
atividades de influência social, jornalística ou política.
A
presença de Anís José Leão nesses trâmites institucionais, o mesmo que mais
tarde teria ligação com o contexto jornalístico da cidade, citado em registros
associados à Folha do Oeste, sugere que seu trabalho também esteve sob o olhar
atento das estruturas de controle da época.
Esses ofícios, lacrados com o selo
de confidencialidade e trocados entre repartições, são testemunhos eloquentes
de um tempo em que até mesmo comunicações administrativas podiam adquirir um
caráter político, refletindo o clima de desconfiança e vigilância generalizada
que marcou o fim do regime autoritário no Brasil.
Em
continuidade às práticas de controle e mapeamento da imprensa, um documento
oficial do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 23 de julho de 1981
e classificado como “Confidencial”, confirma que o jornal Folha do Oeste,
de Itaúna/MG, foi incluído em um levantamento nacional de dados sobre jornais
do interior.
O relatório, identificado como Informação nº C262/19/AC/81,
integra uma série de anexos elaborados pela Agência Central do SNI, com o
objetivo de compilar informações sobre veículos de comunicação em diversos
estados, entre eles Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí,
Rio Grande do Norte e São Paulo.
Na
listagem referente ao Estado de Minas Gerais (Anexo “C”), o nome Folha do
Oeste – Itaúna/MG aparece ao lado de periódicos regionais como o Agora (Divinópolis),
Paraminense (Pará de Minas), Diário da Tarde (Juiz de Fora), Folha
de Itabira (Itabira), entre outros, demonstrando que o jornal itaunense
figurava entre os veículos monitorados pelo sistema de inteligência federal.
O
objetivo desse levantamento, conforme indicado no próprio documento, era manter
atualizados os cadastros sobre a estrutura, a circulação e o perfil editorial
dos jornais do interior, compondo um panorama de vigilância sistemática da
imprensa brasileira.
A
inclusão da Folha do Oeste nesse relatório de 1981 confirma que a
vigilância sobre o jornal não se limitou ao período de transição democrática
dos anos 1980, mas se estendeu de forma articulada aos órgãos centrais do
regime. Esse material reforça a percepção de que, mesmo em pequenas cidades, a
imprensa local era considerada um espaço estratégico de formação de opinião, e
portanto, alvo do olhar atento do Estado autoritário.
Em
1983, o jornalista José Waldemar Teixeira de Mello aparece documentado em
relatórios da Agência Belo Horizonte do Serviço Nacional de Informações (SNI),
atuando como 1º Tesoureiro da recém-criada Associação dos Jornais do Interior
de Minas Gerais (ADJORI-MG).
A participação de José Waldemar na fundação da
associação demonstra sua relevância não apenas para a imprensa itaunense, mas
também para o fortalecimento dos veículos regionais de comunicação em todo o
estado. A ADJORI-MG nasceu como uma rede de cooperação entre jornais do
interior, em um contexto de concentração midiática e dificuldades financeiras,
buscando promover a troca de informações, recursos e estratégias de
sobrevivência editorial.
O
papel de José Waldemar foi essencial na estruturação financeira e institucional
dessa entidade, garantindo sustentabilidade às pequenas redações e consolidando
a voz do interior mineiro diante dos grandes centros. Seu envolvimento reflete
um compromisso de longa data com a profissionalização do jornalismo e com a
defesa da liberdade de imprensa, valores que também marcaram sua passagem pela
direção da Folha do Oeste em Itaúna.
Em
1987, registros oficiais apontam uma nova direção, agora sob responsabilidade
de Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares. À época, o jornal, ainda
denominado Folha do Oeste, possuía sede em Itaúna, e mantinha uma
tiragem de 4.500 exemplares, circulando também nos municípios de Mateus Leme e
Itatiaiuçu.
Seu quadro societário e equipe editorial incluíam jornalistas,
colunistas, colaboradores e representantes regionais. Com declaração de
utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, o jornal chegou a atuar como órgão
de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna.
A
relevância institucional e o alcance do jornal chamaram a atenção das
autoridades da época. Documentos confidenciais da Agência de Belo Horizonte
(ABH), datados de 1987–1988, provenientes do Arquivo Cronológico de Entrada
(ACE) e do Serviço Nacional de Informações (SNI), revelam que o jornal Folha do
Oeste foi monitorado pela polícia política, constando em um cadastro de
veículos de comunicação que reunia informações detalhadas sobre sua estrutura,
propriedade, circulação e equipe.
A
ficha, classificada na categoria “Z7-A”, apresentava um retrato minucioso do
jornal, incluindo nomes, números de identidade, dados financeiros e de tiragem, o que demonstra a preocupação estatal em manter vigilância sobre a imprensa
regional.
Esse
registro de monitoramento, feito em plena transição democrática brasileira,
ilustra um momento de tensão entre a liberdade recém-reconquistada e os
mecanismos de controle herdados do regime militar. Mesmo após a revogação
formal dos Atos Institucionais e a promulgação da nova Constituição de 1988,
diversos órgãos de segurança civil e militar continuavam a operar estruturas de
observação e fichamento de entidades civis, entre elas, jornais, sindicatos,
partidos, clubes e igrejas.
O caso da Folha do Oeste insere-se nesse
contexto de vigilância residual, em que o Estado, ainda temeroso do papel
político da palavra impressa, mapeava e classificava periódicos locais para
avaliar seu potencial de influência ou crítica.
O
nível de detalhamento da ficha é revelador: ela registra, por exemplo, o
endereço exato da redação, os nomes e cargos de todos os colaboradores, o
número de páginas, a tiragem, a área de circulação e até a condição financeira
do jornal. Isso indica que tais dados extrapolavam a função burocrática,
configurando um mecanismo de vigilância política sistemática, num contexto em
que o Estado brasileiro ainda preservava práticas de controle oriundas do
regime autoritário.
Embora o país já estivesse sob o governo civil
e o processo de redemocratização avançasse, os órgãos de informação e segurança, entre eles o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e as agências
estaduais de inteligência, continuavam a monitorar a atuação da imprensa,
especialmente nos municípios do interior, onde a comunicação local exercia
papel decisivo na formação da opinião pública.
Esse
tipo de monitoramento se insere em uma estratégia mais ampla de controle da
informação, muito comum nas décadas de 1970 e 1980. O Estado, temeroso da
imprensa como espaço de crítica e resistência, buscava mapear os meios de
comunicação, seus responsáveis e suas redes de influência.
O objetivo era
prevenir que jornais regionais, frequentemente mais livres e próximos da
população, se tornassem veículos de oposição ou espaços de contestação
política. Assim, o cadastro da Folha do Oeste não deve ser entendido
apenas como um registro administrativo, mas como parte de uma estrutura de
vigilância ideológica voltada para o controle do discurso público.
A
existência de uma ficha tão completa indica também o reconhecimento, por parte
das autoridades, da relevância e alcance do jornal. A Folha do Oeste era
lida por milhares de pessoas, dialogava com comerciantes, trabalhadores,
agentes políticos e religiosos, e registrava os acontecimentos que moldavam o
cotidiano de Itaúna e região.
Nesse
sentido, o monitoramento, paradoxalmente, reforça a importância histórica do
jornal como instrumento de informação e poder simbólico no interior mineiro.
Mesmo sob observação, o periódico manteve sua circulação e sua função
comunitária, o que demonstra sua resiliência diante do controle estatal e o
compromisso de seus dirigentes com a continuidade do projeto jornalístico
iniciado por Sebastião Nogueira Gomide em 1944.
Na
década de 1990, sob nova orientação editorial, o periódico consolidou o nome
Folha do Povo, reafirmando sua identidade e proximidade com a comunidade
itaunense. Desde 1996, a direção está sob a responsabilidade do jornalista e
diretor Renilton Gonçalves Pacheco, que não apenas deu continuidade à tradição
do jornal, mas também o transformou em um verdadeiro laboratório de memória e
consciência cidadã.
Seu
primeiro contato com a redação remonta a 1973, quando, ainda menino de 13 anos,
adentrou a antiga sede da Folha do Oeste, no número 11 da Rua Antônio de
Matos, esquina com a Praça da Matriz, em Itaúna. O ambiente efervescente,
dominado por discussões políticas, notícias policiais e temas sociais, o marcou
profundamente.
Renilton
relembra que foi ali, entre o barulho das velhas impressoras e o cheiro de
tinta, que conheceu o fundador Sebastião Nogueira Gomide (o “Piu”), “um senhor
polêmico e inteligente, que cobrava e exigia dos governantes postura em relação
às coisas do município”.
Acompanhando de perto as críticas e os editoriais
contundentes de Gomide, muitos ainda sobre temas que persistem até hoje, como
a Casa de Caridade Manoel Gonçalves, o jovem aprendiz absorveu o sentido do
jornalismo como instrumento de transformação. Outro nome marcante foi Célio
Silva, o primeiro chefe de redação, que conduzia a oficina gráfica e introduziu
Renilton à prática diária da produção jornalística.
Ao
longo dos anos seguintes, Renilton formou-se na escola viva do jornalismo
local, aprendendo com nomes como José Waldemar Teixeira de Mello, ex-redator do
Estado de Minas, e Anis José Leão, professor de Ética na Faculdade de
Jornalismo da UFMG. De ambos herdou a noção de rigor, ética e compromisso
público, valores que norteariam a condução futura da Folha do Povo.
Hoje,
com mais de 30 anos à frente do jornal, Renilton reafirma a crença de que o
jornalismo é uma forma de agir sobre a realidade, e não apenas de noticiá-la.
Em suas palavras, o papel do jornalista não se limita a “dar a notícia”, mas a
construí-la com responsabilidade, checagem e clareza, combatendo a pressa e a
superficialidade impostas pelas mídias digitais.
A
Folha do Povo, sob sua direção, continua a exercer esse jornalismo
atento à cidade e comprometido com a verdade, cobrando obras, fiscalizando o
poder público e preservando a memória coletiva de Itaúna. A expansão para
Itatiaiuçu, com edição semanal aos sábados, ampliou ainda mais sua influência
regional.
Assim,
a trajetória da Folha do Povo, desde sua origem como Folha do Oeste
com Sebastião Nogueira Gomide, passando pela vigilância policial da década de
1980 e pela consolidação moderna sob Renilton Gonçalves Pacheco, espelha a
própria história de Itaúna: um percurso de resistência, adaptação e
continuidade.
O jornal atravessou regimes políticos distintos, enfrentou
períodos de censura e monitoramento, testemunhou crises e transformações
urbanas, mantendo-se como símbolo de liberdade de expressão, memória e
identidade local. Mais do que narrador, tornou-se protagonista da história
itaunense.
AQUINO,
Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº
343/MG.
Nota sobre a imagem:
A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.
Passados alguns
anos, revisitar esse conteúdo é também revisitar a memória coletiva. A “Queima
do Judas”, comum em diversas regiões do Brasil no contexto do Sábado de
Aleluia, está ligada simbolicamente à figura de Judas Iscariotes, associada à
tradição cristã.
No entanto, seu significado ultrapassa o campo religioso.
Mais do que um
rito simbólico, essa prática se consolidou como uma manifestação da cultura
popular, marcada pela participação coletiva, pelo humor e, em muitos casos,
pela crítica social. Em diferentes épocas, a figura do “Judas” representava
personagens públicos ou situações do cotidiano, funcionando como uma forma de
expressão social e cultural das comunidades.
Hoje, essa
tradição já não aparece com a mesma força em muitas localidades, o que torna
ainda mais importante preservar esses registros. Mais do que uma simples
encenação, tratava-se de uma prática que revelava valores, tensões e formas de
sociabilidade de seu tempo.
Este texto
apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social
e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em
22 de abril de 1956.
Mais do que uma homenagem, o registro permite
compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se
articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o
papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu
tempo.
Cresceu e desfrutou a vida de família rica e
opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e
Odilon, em 11 de agosto de 1900.
Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o
esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e,
depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu
todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas
amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de
cada dia para seus queridos filhos.
Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres
de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se
pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer.
Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal
sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.
Era católica fervorosa, estava enterrado o
Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais
conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da
igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi
a representante da Terra Santa em Itaúna.
Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia
lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.
Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a
construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das
Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação
foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do
governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.
Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade
foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava
modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas
para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra.
Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que
sofria.
Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por
mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou,
porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana
como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu
desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer
aquilo que essa senhora fazia!”
Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida,
alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e
sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: — Uma
sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora.
Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir
à sua casa.
Terminada a novena, negou-se a entregar a santa.
Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar,
vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora,
pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. Dias depois, briga ela na igreja, em
frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem,
a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus
Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe
da hipoteca!...”
E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus
deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente
nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que
lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!
Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é
um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é
como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito
impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a
saudade, que é a memória do coração.”
Fotografia original publicada no jornal, integrando a biografia.
Imagem:Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial,
inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro
histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços
de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e
sua presença marcante na vida social de Itaúna.
Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião
Nogueira Gomide.
Prefeitura e Câmara Municipal de Itaúna/MG.
Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP:
35680-365 (Lei 1343/76)
Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.
Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho. Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf
A presente série de seis capítulos
propõe uma análise da imprensa da cidade de Itaúna/MG a partir de um conjunto
de documentos produzidos por órgãos de informação do Estado brasileiro nas
décadas de 1970 e 1980.
Mais do que reconstituir a trajetória de jornais
locais, o estudo busca compreender como esses veículos foram registrados,
classificados e acompanhados em um contexto marcado pela vigilância política e
pela reorganização institucional do país no período de transição democrática.
O ponto
de partida da investigação encontra-se na identificação de registros oficiais
que inserem periódicos itaunenses em cadastros produzidos por estruturas como o
Serviço Nacional de Informações (SNI) e outros órgãos vinculados ao sistema de
segurança interna. A partir dessas fontes, o trabalho não se limita a descrever
documentos, mas procura interpretá-los como parte de um mecanismo mais amplo de
produção e controle da informação.
Nos
primeiros capítulos, a análise evidencia que jornais como Folha do Oeste, Ita Vox,
Tribuna Itaunense e Folha do Centro-Oeste aparecem em fichas cadastrais que
reuniam dados detalhados sobre sua estrutura, circulação e equipe editorial.
Esses registros, à primeira vista administrativos, revelam um esforço
sistemático de mapeamento da imprensa regional, indicando que mesmo veículos do
interior eram considerados relevantes no cenário informacional do período.
Na
sequência, o estudo avança ao demonstrar que esse acompanhamento não se
restringia a aspectos técnicos. No caso do Jornal Brexó, por exemplo, os documentos passam a incorporar
interpretações sobre conteúdo editorial e posicionamento político, evidenciando
um deslocamento do registro descritivo para uma lógica de classificação e
enquadramento.
Esse
movimento revela que os órgãos de informação não apenas catalogavam os meios de
comunicação, mas também buscavam compreender sua atuação no campo público,
identificando vínculos, posicionamentos e possíveis impactos na formação da
opinião.
Ao longo
dos capítulos, torna-se evidente que a imprensa itaunense não pode ser
compreendida de forma isolada. Os documentos analisados indicam a existência de
um sistema articulado de coleta e organização de dados, no qual informações
produzidas localmente eram integradas a estruturas mais amplas de análise.
Nesse contexto, jornais do interior passam a ser observados como parte de redes
de circulação de ideias, e não apenas como veículos locais de informação.
O sexto
capítulo representa o ponto de inflexão da análise. Nele, o foco deixa de estar
nos jornais enquanto instrumentos de observação e se desloca para o próprio sistema
que os monitorava. A investigação dos códigos, classificações e fluxos
documentais revela que o acompanhamento da imprensa era sustentado por uma
estrutura técnica sofisticada, baseada na padronização de registros e na
circulação controlada da informação.
Mais do
que isso, os documentos evidenciam que o monitoramento alcançava também os
profissionais da comunicação, identificados por códigos individuais que
permitiam acompanhar suas trajetórias em diferentes veículos e contextos.
Encerrar a série com essa abordagem implica, portanto, inverter o olhar: não mais apenas observar, mas compreender o próprio olhar que os produziu enquanto objetos de interesse estatal.
Esse
dado amplia significativamente o escopo da análise, indicando que o objetivo
não era apenas observar instituições, mas mapear redes e relações no interior
do campo jornalístico.
Dessa
forma, ao longo dos seis capítulos, constrói-se uma interpretação segundo a
qual a imprensa local de Itaúna esteve inserida em um sistema contínuo de
observação, no qual veículos e indivíduos eram simultaneamente registrados,
classificados e analisados.
Mais do
que uma história da imprensa, trata-se, portanto, de uma investigação sobre as
formas pelas quais o Estado produziu conhecimento sobre a circulação de
informações e sobre os agentes responsáveis por sua difusão.
Ao
reunir e analisar esses documentos, o estudo contribui para ampliar a
compreensão sobre o papel da imprensa regional no Brasil e sobre os mecanismos
de vigilância que incidiram sobre ela, evidenciando que, mesmo em contextos
locais, a comunicação ocupava posição estratégica no interior das disputas
políticas e simbólicas do período.
Considerações
finais sobre as fontes e a pesquisa
O
presente trabalho foi desenvolvido a partir da análise direta de documentos
históricos produzidos no período estudado, especialmente aqueles oriundos dos
órgãos de informação e segurança do Estado brasileiro.
Trata-se,
portanto, de uma investigação fundamentada em fontes primárias, cuja leitura e
interpretação permitiram reconstruir aspectos relevantes da relação entre
imprensa e vigilância política no contexto analisado.
Grande
parte dessa documentação encontra-se atualmente disponível para consulta
pública por meio do SIAN – Sistema de Informações do Arquivo Nacional,
plataforma digital que reúne acervos documentais de diferentes órgãos da
administração pública brasileira.
Esse sistema constitui uma ferramenta
fundamental para pesquisadores, ao possibilitar o acesso a registros históricos
que, durante décadas, permaneceram restritos.
O
acesso ao SIAN é aberto a qualquer interessado. Por meio de sua base de dados,
é possível localizar documentos a partir da inserção de termos de busca, como
nomes de instituições, órgãos, veículos de comunicação ou indivíduos,
permitindo o contato direto com fontes originais do período.
No
entanto, é importante destacar que o acesso aos documentos, por si só, não
esgota o trabalho historiográfico. A compreensão dessas fontes exige leitura
crítica, contextualização e cruzamento de informações, uma vez que se tratam de
registros produzidos dentro de estruturas institucionais específicas, marcadas
por interesses, linguagens próprias e lógicas de classificação.
Nesse
sentido, este estudo não se limita à localização dos documentos, mas se dedica
à sua análise interpretativa, buscando compreender não apenas o conteúdo
registrado, mas também os mecanismos de produção, organização e circulação
dessas informações.
Assim,
ao mesmo tempo em que evidencia a importância do acesso público aos acervos do
Arquivo Nacional, este trabalho reforça a necessidade de um olhar analítico
rigoroso sobre as fontes, condição essencial para a construção de
interpretações históricas consistentes.
Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial,
inspirada na análise documental sobre o monitoramento da imprensa em Itaúna/MG
por órgãos de informação do Estado, especialmente no contexto das décadas de
1970 e 1980.
A composição apresenta elementos simbólicos como câmeras de vigilância,
painéis com jornais locais — Folha do Oeste, Tribuna, Ita Vox,
Folha do Centro-Oeste e Brexó — e conexões visuais que remetem à
ideia de mapeamento e controle informacional.
A imagem não corresponde a um registro histórico documental, mas sim a
uma interpretação artística que busca representar, de forma visual, o ambiente
de vigilância, classificação e acompanhamento sistemático da imprensa local,
conforme evidenciado nas fontes analisadas.
Seu objetivo é traduzir, em linguagem imagética, a lógica de
funcionamento dos sistemas de informação da época, marcados pela coleta,
organização e circulação controlada de dados sobre veículos de comunicação e
seus profissionais.