terça-feira, maio 23, 2017

MEU JARDIM DE INFÂNCIA “ANA CINTRA”

“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem, mais!”
Casimiro de Abreu


Prof. Luiz MASCARENHAS*

         Das brumas de minhas memórias me vem à mente a rua XV de novembro. Ali eu residi em um sobrado (que ainda existe) e que na parte de baixo funcionava o bar do seu Olavo Mandabrasa.  Bem próximo, a Praça “Pe. João Ferreira”; que foi a pracinha da minha infância...de correr, de rolar na grama, de jogar bola, de jogar “amarelinha”, de soltar pipa, de brincar de pique –esconde e de aprender a andar de bicicleta com meu pai. Enfim, uma infância feliz (arteira e suja); solto na rua como tantos outros meninos da minha idade (uma pena que a infância de hoje não sabe mais o que é isto – logicamente todo o contexto social era bem outro...o perigo que havia era quebrar um braço ou coisas assim...porque, por exemplo, automóvel era de vez em quando que passava algum...). O seu Natalino, seu Heleno Amaral, seu Bráz, seu João “Ruela”, as Corradi (dona Euláia...) eram vizinhos que ainda tenho vaga lembrança.
         Pelo ano de 1978 eu estudava no JARDIM DE INFÂNCIA “ANA CINTRA”, que ficava na rua Professor Francisco Santiago, em um velho e elegante casarão neogótico (um dos tantos que salpicavam pela cidade naquele tempo e que também já virou pó).  Depois da escola, serviu o local para a Delegacia de Polícia. Anos mais tarde, na adolescência cheguei a frequentar novamente o velho casarão; pois foi um “barzinho” legal e agitado.
         Para ir para o “Ana Cintra”, minha mãe me levava todos os dias a pé.  Havia um pequeno e gracioso portão de ferro, com duas abas e uma escadaria que levava a um alpendre de onde a diretora costumava falar aos alunos perfilados em alguma data cívica. Eu estudava em uma das salas no grande porão. O piso de “vermelhão” sempre muito bem encerado e toda a escola muito limpa.
         Minha primeira professora foi a dona Ignês Nogueira (viúva do Roque Nogueira; da Casa Nogueirinha – aliás o Roque Júnior foi meu colega de sala, anos depois no Colégio Sant’ana, quando ali fiz parte do antigo curso “científico” ou o atual segundo grau.
         Tudo é muito grande aos olhos de uma criança e assim eu percebia aquele espaçoso e vetusto casarão...Um largo pátio na frente, onde havia uma frondosa mangueira e logo abaixo os costumeiros brinquedos...a caixa de areia, o escorregador, os balanços e etc...
         Gostava muito do cheiro dos “trabalhinhos”, porque eram rodados no mimeógrafo a álcool e eles permaneciam com esse cheiro misturado com uma tinta azulada...Nunca foi muito bom em trabalhos manuais. Mas a professora- que no meu tempo eram “donas” pois as “tias” vieram muito depois; sempre colocava um pequeno carimbo de uma carinha sorridente e escrevia que estava tudo muito lindo (eu mesmo achava tudo muito mal feito...).
         Também recordo da fila para o lavatório, com a saboneteira e a toalha nos braços...E gostava muito de brincar com as massinhas de moldar ou aquelas peças de madeira com as quais construía pequenas vilas e colocava a imaginação para funcionar; porque diferente de hoje, era preciso inventar e criar os brinquedos e diversões.
         Certa manhã, para minha surpresa, a dona Ignês não entrou na sala. Entrou uma outra “dona”...estranha para mim. Não tive dúvidas!  Eu estava ali sozinho, sem a minha querida professora, à mercê de uma estranha?! O que fazer? Bem, olhei de relance para o pátio e vi o portão aberto...Corri o olho na tal dona e – num ímpeto- dei no pé...Fui dali parar em minha casa! Larguei todo o meu material para trás! Na esquina, aonde hoje existe um grande edifício, ficava um mercadinho; era do seu Carlos. Pois bem, o seu Carlos me ajudou a atravessar a rua, não me lembro que mentira contei para ele. Ao chegar em casa, portão fechado, gritei por minha mãe... Que brava ela ficou! Trancou a casa rapidamente e voltamos para o Jardim de Infância. Bem, meu plano não era esse...
         Chegando de volta na escola, veio uma das donas dizer para minha mãe que eu não poderia entrar pois estava atrasado! Contudo, dona Déia (minha mamis) informou a dona dizendo que eu já havia ali estado e deixaram-me fugir! Passado o reboliço, naquele dia voltei mais cedo para casa, com minha mãe e em casa...bem...a pontaria dela com o chinelo era tremenda!
         De outra vez, levei para casa um passarinho. Um pardal que havia caído sei lá de onde e estava meio atordoado. Coloquei-o em um saquinho de papel e fui todo feliz para casa, com o meu passarinho.... Entretanto, ele morreu logo depois.... Que decepção. E como eu chorei ao vê-lo morto.... Queria tanto que vivesse novamente e voasse para longe dali...
         Hoje já não mais me comovo com os pássaros mortos. Pena. O tempo me fez chorar por causas tão maiores e a vida menor não me dói mais. Porém tudo é vida. E na verdade, foi a Vida que endureceu meu coração e secou minhas lágrimas para os passarinhos...


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
  Historiador/ Escritor/ 1º Secretário da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”/ Cidadão Honorário de Itaúna

Prof. Luiz Mascarenhas estudou no Jardim de Infância Ana Cintra no período de 1978


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