Análise do Poema
"Santana" de Nise Campos - 1934
O poema é
composto por versos livres, sem uma métrica rígida ou rimas constantes, o que
confere uma sensação de fluidez e naturalidade, talvez espelhando o curso do
próprio rio mencionado nos primeiros versos. A estrutura do poema é linear,
seguindo uma progressão que vai do rio São João, símbolo das tradições antigas,
até a moderna Itaúna, onde o progresso se impõe.
O poema
contrasta de maneira clara dois mundos: o antigo e o novo. O rio São João,
descrito como correndo preguiçosamente e cantando suas tradições, representa a
antiga vida rural, marcada pela tranquilidade e pelas práticas tradicionais
como a pesca e o lavar de roupas. O rio é personificado, com o poeta
questionando seus pensamentos e emoções, indicando um profundo respeito e
conexão com a natureza e o passado.
No entanto, essa
vida tranquila e tradicional é perturbada pelo "eco do progresso". A
chegada da indústria e do comércio, simbolizada pelas máquinas e pela luz do
sol que ilumina a escola e aquece a oficina, transforma a alma da comunidade.
Há uma sensação de perda e nostalgia, expressa pela imagem do rio
"chorando a Sant’alma antiga". O progresso é visto como um despertar
forçado, um ruído que quebra o silêncio da tradição.
O poema
"Santana" de Nise Campos oferece uma meditação profunda sobre a
tensão entre tradição e progresso. Através de imagens vívidas e simbolismo,
Campos explora como a modernização altera a paisagem física e espiritual de uma
comunidade. A saudade e a nostalgia permeiam o poema, sugerindo que o
progresso, embora inevitável e em muitos aspectos positivo, também traz uma
perda irreparável das antigas formas de vida e das conexões comunitárias.
Campos não
condena explicitamente o progresso, mas apresenta uma visão ambígua e reflexiva
sobre suas consequências. A "alma" que vibra longe do rio e o
"espírito" que dorme na prece indicam um deslocamento espiritual, uma
desconexão entre o corpo físico da comunidade e seu núcleo espiritual. O poema
conclui com Itaúna dormindo como "Sant’Anna Velha", sugerindo que,
apesar das mudanças e do progresso, há uma continuidade e uma persistência das
memórias e das tradições, mesmo que adormecidas.
Em suma,
"Santana" é um poema que capta a complexidade das mudanças sociais e
culturais, convidando o leitor a refletir sobre o equilíbrio entre preservar o
passado e abraçar o futuro. Nise Campos, através de sua sensibilidade poética,
nos oferece uma janela para as dores e as esperanças de uma comunidade em
transição.
Charles Aquino