sexta-feira, dezembro 29, 2023

RAINHA DO REINADO

 

  "Maria da Conceição Basílio de Jesus", conhecida carinhosamente como "Dona Sãozinha", nasceu em 10 de novembro de 1925, em Divinópolis, Minas Gerais. Aos treze anos, ela foi coroada Rainha da Irmandade de Santa Ifigênia, uma posição que a marcou como uma figura central no Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna, Minas Gerais, uma celebração de profunda importância cultural e religiosa para a comunidade afro-brasileira local.

   Por 85 anos, Dona Sãozinha liderou a festa do Reinado, transformando sua casa no bairro Santo Antônio em um ponto de referência para as celebrações que ocorrem anualmente de 1º a 15 de agosto. Essa festa atrai milhares de participantes, incluindo políticos, artistas, congadeiros de outras cidades e pessoas da comunidade. Sua hospitalidade e liderança inquestionável fizeram de sua casa o “quartel-general” do Reinado, sede de três ternos ou “guardas” de congado: uma guarda de congo, um candombe e uma guarda de vilão.

   Dona Sãozinha era mais que uma líder; ela era a personificação viva da tradição do Reinado. Todos os anos, no dia 1º de agosto, ela tinha a responsabilidade de levantar a Bandeira de Santa Ifigênia, sinalizando o início das festividades. Essas celebrações eram ricas em dança, música, comida e a exibição de símbolos culturais como bandeiras e foguetes. O som de tambores, caixas, reco-recos, gungas e patangomes ecoava pela cidade, enraizando ainda mais a identidade cultural afro-brasileira na comunidade de Itaúna.

   Sua morte, aos 98 anos, em 26 de dezembro de 2023, marcou o fim de uma era. O velório de Dona Sãozinha foi um evento solene, com cada capitão de guarda prestando sua homenagem com orações e cantos. O ritual de “descoroação” foi conduzido pelo capitão-mor, Mário, acompanhado por outros capitães, num processo repleto de simbolismo e reverência. O descoroamento envolveu a retirada ritual da coroa, manto e cetro da Rainha, todos manuseados com o uso de bastões, simbolizando a passagem de sua autoridade e a reverência pela sua figura.

  O cortejo fúnebre de Dona Sãozinha percorreu locais significativos, incluindo sua casa, a capela da Irmandade das Sete Guardas e o cemitério central. Mesmo em meio à dor da perda, a comunidade celebrou sua vida e legado através de cânticos e homenagens, ressaltando sua importância como patrimônio cultural e religioso de Itaúna. 

   Dona Sãozinha deixou um legado profundo, não só em termos de liderança cultural e religiosa, mas também como uma guardiã das tradições afro-brasileiras. Sua missão agora passará para suas filhas e netas, que terão a responsabilidade de continuar as festividades do Reinado de Nossa Senhora do Rosário. A resistência cultural evidenciada pela construção da capela da Irmandade das Sete Guardas, após a proibição de entrada dos congadeiros na igreja pelo bispo D. Cabral na década de 1940, demonstra a resiliência e a determinação da comunidade em manter viva sua fé e suas tradições. 

   Em suma, Dona Sãozinha foi uma verdadeira matriarca que, através de sua vida, fé, trabalho e resiliência assegurou que as tradições e a cultura afro-brasileira continuassem a prosperar em Itaúna. Sua memória e influência perdurarão, assegurando que as futuras gerações compreendam e valorizem o rico patrimônio cultural, tangível e intangível, que a Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, do tradicional Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, tanto se esforçou para preservar.




REGISTRO DE CASAMENTO: 14/06/1947

Paróquia Sant’Ana de Itaúna


MARIA DA CONCEIÇÃO (BASÍLIO) DE JESUS

&

JOÃO FERREIRA


Aos quatorze dias do mês de junho de mil novecentos e quarenta e sete pelas dezesseis horas na Igreja Matriz de Sant’Ana de Itaúna depois de habilitados canonicamente, por palavras de presente, na forma  do Ritual em, presença do  Revmo. Pe. José Mariano Tavares e das testemunhas, José Barbosa e Sílvio Gonçalves Soares, receberam-se em matrimônio os contraentes João Ferreira e Maria da Conceição de Jesus.
    Ele com vinte e dois anos de idade, filho legítimo de Teófilo Ferreira e de Delfina Maria de Jesus, solteiro, nascido no dia quatorze de agosto de 1925, natural de Carmo do Cajuru, batizado na freguesia de nossa Senhora do Carmo do Cajurú, residente em Itaúna.
    Ela com vinte e dois anos de idade, filha legítima de Antônio Basílio e de Maria Germânia de Jesus, solteira, nascida a 10 de novembro de 1925, natural de Divinópolis, batizada na freguesia de Divinópolis, residente em Itaúna. 
E para constar lavrou-se este assentamento que assino > Pe. José Ferreira Netto. 
Livro de Matrimônio: nº 4  (1943 - 1948), ano de 1947, página 99, nº 55. 

REGISTRO DE ÓBITO: 27/12/2023


Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino

Imagem: Adilson Nogueira

Acervo Matrimonial: Paróquia de Sant'Ana de Itaúna



quinta-feira, dezembro 28, 2023

PARQUE DAS ÁGUAS

A Prefeitura de Itaúna, através de uma nova legislação, criou três Parques das Águas, cada um com uma denominação especial: o parque na Chácara da Prefeitura chamou de "Dr. Lima Coutinho" (13º mandato como prefeito 1947-1951), o parque na Vila Mozart denominou "Dr. Lincoln Nogueira Machado" (10º mandato como prefeito 1936-1947), e o parque nas margens do Ribeirão dos Capotos entre Santanense e Garcias designou "Victor Gonçalves de Sousa" (14º mandato como prefeito 1951-1955).

Criou um cargo de "Fiscal dos Parques das Águas" para garantir a supervisão direta do prefeito sobre essas áreas. Proibiu expressamente o corte de árvores nas imediações dos parques e estabeleceu multas que variavam de Cr$ 1.000,00 (Mil cruzeiros) a Cr$ 10.000,00 (Dez mil cruzeiros) para quem violasse essa proibição. A partir de 1956, incluiu nos orçamentos municipais verbas específicas para a manutenção e serviços relacionados aos parques. A administração definiu as áreas protegidas, após consulta com o engenheiro responsável pela perfuração de poços artesianos.

As denominações dos parques homenagearam figuras importantes para o desenvolvimento do sistema de abastecimento de água de Itaúna. Dr. Lima Coutinho foi um prefeito pioneiro nesse setor, e Victor Gonçalves de Sousa contribuiu significativamente para a pesquisa e perfuração de novos mananciais. Dr. Lincoln Nogueira Machado, homenageado no parque da Vila Mozart, foi reconhecido por seu trabalho contínuo em benefício do município.

A proposta inicial de regulamentar a perfuração de poços artesianos e o uso das águas subterrâneas considerou inconstitucional, pois a matéria ultrapassava a jurisdição municipal, sendo de competência da União.  Aprovou-se esta proposta da lei pela Comissão de Legislação e Justiça e ela passou por três discussões na sala das sessões, sendo finalmente aprovada em 28 de julho de 1955. O prefeito autorizou a criar regulamentos para assegurar o cumprimento desta lei. Revogou qualquer disposição em contrário, e a lei entrou em vigor na data de sua publicação. Assim, entrou em contato com o Ministério da Agricultura para buscar uma autorização que permitisse a fiscalização do uso das águas subterrâneas em Itaúna, aguardando resposta para firmar um convênio nesse sentido.


A PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA

Cria Parques das Águas na cidade de Itaúna, da denominação aos mesmos e indica providências para sua conservação e proteção. O povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:
Art. 1º Ficam criado em Itaúna três Parques das Águas: Chácara da Prefeitura, com denominação de “Dr. Lima Coutinho”; Vila Mozart, com o nome de “Dr. Lincoln Nogueira Machado”; Margens do Ribeirão dos Capotosentre Santanense e Garcias, com a designação de “Victor Gonçalves de Sousa”.
Art. 2º Fica criado, também, o cargo de “Fiscal dos Parques das Águas”, diretamente subordinado ao senhor Prefeito.
Art. 3º Proíbe-se, expressamente, o corte de qualquer árvore, nas imediações destes Parques.
Art. 4º A partir de 1956, dos Orçamentos constará verba própria para o custeio dos serviços previstos nesta lei.
Art. 5º Aquele que, sem licença, cortar árvores nas imediações dos Parques das Águas,  cará sujeito a multa de Cr$ 1.000,00 a Cr$ 10.000,00.
Art. 6º As imediações dos Parques das Águas, em que se proíbe o corte de árvores, serão delimitadas pelo senhor Prefeito, depois de ouvido o engenheiro encarregado da perfuração de poços artesianos em Itaúna.
Art. 7º Fica o senhor Prefeito autorizado a baixar regulamento para o cumprimento desta lei.
Art. 8º Revogam-se as disposições em contrário.
Art. 9º Esta lei entrará em vigor, na data de sua publicação.

   A denominação que propomos traduz uma justa homenagem aos batalhadores do povo de novo serviço em Itaúna. Realmente, o Dr. Lima Coutinho merece esta homenagem por ter sido o Prefeito que abriu, no meio de muitas incompreensões, o caminho do novo sistema de abastecimento de água da cidade. Inegável também é a contribuição dada a este serviço pelo sr. Victor Gonçalves de Sousa, em cuja gestão teve prosseguimento os trabalhos de pesquisa e perfuração de novos mananciais, estes que serão colocados a serviço do povo o mais brevemente possível.
   E ocorreu-nos o nome do Dr. Lincoln Nogueira Machado para patrono do Parque da Vila Mozart, a ser constituído dentro de dois anos, pois, sabemos que estamos prestando com esta medida merecida homenagem ao ex-prefeito que muito trabalhou pelo município e que continua prestando assinalados serviços ao povo como vereador.
   Era nosso intento regular, também, nesta lei a perfuração de poços artesianos e aproveitamento das águas subterrâneas, em Itaúna. Consultado o senhor Advogado da Prefeitura, opinou ele no sentido da impossibilidade de tal regulamentação, pois o assunto foge a alçada dos poderes municipais.
Em seu parecer assinalou o Dr. Hélio Gonçalves de Sousa que a proibição para perfuração de poços artesianos em terrenos particulares pelos seus respectivos proprietários, corresponderia a uma restrição ao direito de propriedade e, por isso mesmo, a Lei municipal, seria frontalmente contra a Constituição e o Código Civil.
   Como, entretanto, o subsolo e consequentemente as águas subterrâneas pertencem à União e não aos particulares, em vista do que preceitua o Código de Minas, sugeriu aquele advogado e entrasse esta Prefeitura em entendimentos com o Ministério da Agricultura – Serviço da Produção Mineral – a de que fosse proibida a utilização das águas subterrâneas, por particulares, em Itaúna, sem prévio entendimento com a Prefeitura. Neste sentido, nos dirigimos, em ofício, ao Ministério citado, estando esta Prefeitura aguardando resposta. Sendo a União a pessoa capaz de legislar sobre o assunto, medida que adotamos é a mais prudente. Acreditamos que conseguiremos pela autorização em convênio, fiscalizar o uso das águas subterrâneas em Itaúna.

Itaúna, 19 de julho de 1955 Milton de Oliveira Penido Prefeito Municipal
 
Comissão de Legislação e Justiça
A Comissão opina por aprovação a proposta Aprovado em 1ª discussão: Sala das sessões, 26/07/1955 Aprovado em 2ª discussão: Sala das sessões, 27/07/1955 Aprovado em 3ª discussão: Sala das sessões, 28/07/1955.

Referências:
Fonte e Texto: Câmara Municipal de Itaúna / Projetos de Lei nº 5/1955
Vídeo da cidade de Itaúna/Acervo Itaúna Bons Temos: 70,80,90 
Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino. 

domingo, dezembro 24, 2023

ESCOLAS EM ITAÚNA

MEMORIAL SENÓCRIT NOGUEIRA

Memorial Senócrit Nogueira é um tributo significativo a um dos mais importantes personagens da história de Itaúna, Minas Gerais. Senócrit Nogueira, cuja vida foi marcada por uma profunda dedicação ao desenvolvimento e progresso de Itaúna, deixou um legado duradouro que ainda ressoa na cidade.

Senócrit Nogueira foi um dos principais responsáveis pela elevação do distrito de Santana do São João Acima à condição de município, contribuindo para a emancipação de Itaúna. Sua atuação foi fundamental na promoção do bem-estar da comunidade, seja na política, economia ou cultura local. Ele participou ativamente da vida pública e trabalhou incessantemente para o desenvolvimento de Itaúna, o que fez com que seu nome se tornasse sinônimo de compromisso e patriotismo. A sua liderança e visão estratégica ajudaram a consolidar Itaúna como um importante centro regional.

O memorial não apenas honra a memória de Senócrit Nogueira, mas também serve como um símbolo de sua contribuição inestimável para a história da cidade. Este Memorial é um ponto de reflexão sobre o passado de Itaúna e a importância de líderes visionários na construção de um futuro melhor. A preservação da memória de Senócrit Nogueira através deste memorial é crucial para manter viva a história e os valores que ele representava. É um lembrete constante do impacto que uma única pessoa pode ter em uma comunidade, incentivando os itaunenses a seguir seu exemplo de dedicação e amor pela cidade.

O historiador João Dornas Filho destaca que para as gerações futuras, o nome de Senócrit Nogueira servirá como símbolo de compromisso inabalável, paixão e amor por Itaúna. Ao longo da rica história do município, que se estende por longos anos, o seu nome esteve entrelaçado com inúmeras iniciativas destinadas a promover e celebrar a sua querida pátria. Em todos os aspectos da trajetória de Itaúna fica a marca indelével de Senócrit Nogueira, inspirando as gerações futuras com sua dedicação e patriotismo.













Organização e pesquisa: Charles Aquino

sábado, dezembro 23, 2023

MAESTRO AZARIAS

 

Lei Municipal 1.343/76 — CEP: 35680-380

Denomina logradouro público: Rua Maestro Azarias – Cerqueira Lima

 

O Maestro Azarias Nogueira Machado pertenceu a uma família proeminente e influente que contribuiu significativamente para o crescimento econômico e desenvolvimento cultural do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna/MG. Era neto materno do Tenente Coronel Manoel José de Souza Moreira e Ana Joaquina de Jesus, fundadores da Companhia de Tecidos Santanense. Além disso, era filho do Coronel Josias Nogueira Machado, um dos principais articuladores da emancipação do município, e de Tereza Gonçalves de Souza. 

Azarias teve outros onze irmãos: Augusta Gonçalves Nogueira, Dr. Ovídio Nogueira Machado, Dr. Lincoln Nogueira Machado, Rachel Nogueira Machado, Aristides Nogueira Machado, Olandim Nogueira Machado, Sady Nogueira Machado, Geny Nogueira Machado, Mozart Nogueira Machado, Alice Gonçalves Nogueira e Josias Nogueira Machado Filho.

Em sua obra, o pesquisador Padre Rodrigo destaca que o maestro Azarias, músico multifacetado conhecido por suas habilidades como pianista, organista, compositor e regente, foi o criador de inúmeras músicas profanas e sacras. Aprimorou seu ofício sob a orientação do renomado músico e compositor João Francisco da Matta

O legado do Maestro Azarias Nogueira Machado e de sua família em Itaúna é notável e abrangente. Proveniente de uma linhagem influente, eles desempenharam papéis fundamentais no desenvolvimento econômico e cultural do município. A homenagem à sua memória, através da Rua Maestro Azarias, é um testemunho do reconhecimento duradouro de sua contribuição para a comunidade.

 
Maestro Azarias

De acordo com a lei municipal número 1.343 de 1976, existe no município uma rua, a Rua Maestro Azarias, em sua homenagem.


Referências:

Texto, organização e arte: Charles Aquino

Acervo fotografia maestro Azarias e : Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira

Pesquisa ao acervo da Câmara Municipal de Itaúna: Charles Aquino, Patrícia Nogueira 

Botelho, Padre Rodrigo. Memórias sonoras e afetivas de nossa gente (p. 26-49-50).

Itaúna Décadas. Criação do Município de Itaúna. Disponível em: https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2012/10/criacao-do-municipio.html

Ruas de Itaúna. Biografia Josias Machado. Disponível em: https://ruasdeitauna.blogspot.com/2017/05/josias-nogueira-machado.html

Calvão/Galvão Web Site: My Heritage. Genealogia da família Nogueira Machado. Organizado e gerenciado pelo genealogista Charles Aquino.

sexta-feira, dezembro 22, 2023

À LUZ DA CIRURGIA


O Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho demonstrou um notável profissionalismo em sua conduta durante o episódio que ocorreu na Santa Casa - Hospital Manoel Gonçalves de Souza Moreira na década de 1954. Sua prontidão em diagnosticar e tratar a apendicite supurada de Eduardo Ferreira Amaral reflete sua competência médica e dedicação ao bem-estar de seus pacientes.

A situação desafiadora devido à escassez de energia elétrica na cidade evidencia a capacidade do Dr. Coutinho de lidar com obstáculos externos de forma proativa. Sua iniciativa ao enviar um mensageiro à empresa de energia para garantir a continuidade do fornecimento durante a cirurgia demonstra seu compromisso com a excelência no cuidado médico, mesmo diante de circunstâncias adversas.

O momento mais marcante da narrativa é a cirurgia realizada à luz de uma vela, ressaltando a determinação e habilidade do Dr. Coutinho em superar desafios imprevistos. Sua decisão de envolver Maria Xavier Ferreira, esposa do paciente, no processo cirúrgico, não apenas evidencia sua confiança no apoio mútuo, mas também ressalta a importância do suporte emocional aos familiares durante momentos críticos.

O desfecho positivo da cirurgia, que resultou na sobrevida de Eduardo Ferreira Amaral por mais 47 anos, é um testemunho do talento e comprometimento do Dr. Coutinho com a sua profissão. Sua conduta exemplar não apenas salvou uma vida, mas também proporcionou anos adicionais de felicidade e convivência familiar.

Em suma, a história do Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho destaca não apenas sua competência técnica, mas também seu profissionalismo, compaixão e capacidade de liderança em situações desafiadoras, exemplificando o verdadeiro espírito da prática médica.


À LUZ DA CIRURGIA

Eduardo Ferreira Amaral encontrou-se na Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira no ano de 1954, localizada na cidade de Itaúna, devido a intenso desconforto abdominal. O Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho examinou-o prontamente e constatou que seu quadro era "APENDICITE SUPURADA", necessitando de intervenção cirúrgica imediata.

Nesse período, a cidade contou com um fornecimento limitado de energia elétrica fornecida pela Companhia Industrial Itaunense. A escassez de eletricidade, especialmente no período de seca, exigiu encerramentos noturnos periódicos. Diante disso, Dr. Coutinho despachou um mensageiro à empresa, solicitando que não cortassem a energia naquela tarde devido ao procedimento cirúrgico agendado.  A cirurgia começou no final da noite, por volta das 18h30.

Maria Xavier Ferreira, a devotada esposa de Eduardo, permanecia ansiosa no corredor do hospital, aguardando ansiosamente as novidades. De repente, uma queda de energia mergulhou toda a instalação na escuridão. Em meio à escuridão, um som fraco de uma porta se abrindo ressoou, chamando a atenção de Maria. Para seu espanto, o Dr. Coutinho saiu da sala de cirurgia segurando uma vela. Tomada de preocupação, Maria, com a voz cheia de tristeza e lágrimas nos olhos, perguntou se Eduardo havia falecido. Sem hesitar, o Dr. Coutinho a tranquilizou, afirmando que Eduardo ainda estava vivo.

 Ele então solicitou a Maria que o acompanhasse até a sala de cirurgia, entregando-lhe a vela e disse: acompanhe-me e preste-me sua ajuda dentro do bloco operatório. Por favor, segure esta vela, pois estamos prestes a iniciar a operação e nosso tempo é de extremo valor. O tempo era essencial e não havia espaço para atrasos. Dr. Coutinho realizou habilmente a cirurgia à luz bruxuleante da vela, resultando em um retumbante triunfo. Após ser operado aos 46 anos, o Sr. Eduardo Ferreira Amaral teve a sorte de desfrutar mais 47 anos de vida alegre e plena com seus entes queridos, até falecer pacificamente em 2001.


Fonte Oral:  Professor Marco Elísio Chaves Coutinho & Dª Vera Coutinho

Entrevistado por: Charles Aquino

Acervo fotográfico: Shorpy (fotografia meramente ilustrativa)



quinta-feira, dezembro 21, 2023

quarta-feira, novembro 29, 2023

ESPIRITISMO EM ITAÚNA


Em 1890, o espiritismo foi criminalizado pelo Código Penal Republicano, em particular pelas interpretações relativas ao artigo 157. Isto resultou em restrições à liberdade religiosa dos espíritas. No que diz respeito aos crimes contra a saúde pública, no artigo 157 delineou que “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública” seria punido a uma multa pecuniária entre 100$000 e 500$000 réis e prisão de até seis meses. 

Apesar do anúncio da Constituição de 1891 de que a nação era agora um Estado Laico, a prática do espiritismo ainda enfrentava obstáculos. Portanto, o Código Penal não reconheceu o espiritismo como uma fé legítima e caracterizou-o como uma violação da lei. Os relatórios indicam que antes do estabelecimento da República, os espíritas sofreram uma enxurrada de críticas por parte dos meios de comunicação, encontraram oposição religiosa e enfrentaram objecções de profissionais médicos. No entanto, a aplicação da Constituição Republicana exacerbou as suas circunstâncias problemáticas.

As advertências contra o espiritismo eram comuns nas publicações locais e também nos jornais regionais e nacionais que chegavam aos municípios. Essas críticas eram muitas vezes enfatizadas com slogans que chamavam a atenção, como “Cuidado com o Espiritismo!” Os responsáveis por essas publicações pretendiam justificar sua condenação relatando supostas verdadeiras tragédias que se abateram sobre os envolvidos na prática. A intenção era desencorajar a crença na doutrina espírita através do uso de táticas alarmistas.

 Além disso, essas publicações incluíam opiniões de especialistas, principalmente médicos, que denunciavam o espiritismo como prejudicial à saúde física e mental. Esses especialistas também criticaram o espiritismo por suas doutrinas, ensinamentos e visão de mundo, muitas vezes desconsiderando as práticas de assistência social. Um tema particularmente angustiante coberto pelos jornais foram as manchetes que detalhavam as “tragédias familiares causadas pelo espiritismo”, retratando a destruição de famílias de forma dramática.

Como por exemplo, a morte do professor Plácido Teixeira Coutinho no arraial Sant'Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna/MG, foi registrada em 17 de dezembro de 1899, no jornal “Gazeta de Minas” de Oliveira/MG. Relatos de “noticiaristas” enviados ao jornal, afirmaram que o professor que lecionava publicamente durante cerca de uma década, começou a organizar sessões espíritas em sua residência há cerca de seis meses. 

Isso fez com que sua filha de vinte anos enlouquecesse e o professor fosse dominado por pensamentos e alucinações mortais, o que o levou ao suicídio com um tiro no ouvido, dentro do cemitério do arraial. O incidente abalou a sociedade e deixou uma marca duradoura no dia 7 de dezembro daquele ano. Os “noticiaristas” do arraial especularam que o espiritismo foi causa deste infortúnio devastador.

Plácido Teixeira Coutinho, renomado educador natural de Trás-os-Montes, região norte de Portugal, era filho de José Teixeira Coutinho e Emília Magalhães Coutinho, casado com Antônia Teodora de Oliveira e teve oito filhos (5 mulheres e 3 homens). No dia 8 de dezembro de 1873, os irmãos da Ordem de São Francisco de Assis se reuniram em Ouro Preto para realizar um encontro dedicado a homenagear Nossa Senhora da Conceição, padroeira de sua ordem. 

Esta ocasião especial incluiu uma exposição ampla e abrangente, cujos rendimentos foram destinados ao financiamento da construção da capela. O professor jovem de ascendência portuguesa e devoto da ordem, esteve entre os que arrecadaram subscrições para ajudar nos esforços da capela. Em 1877, recebeu a notícia do sucesso da aprovação de sua cidadania brasileira através do Ministério do Império.

Em 1881, Plácido trabalhou como professor público de instrução primária na freguesia de São Gonçalo do Ibituruna, termo de São João Del Rei, sendo transferido no mesmo ano para a freguesia de Mateus Leme, termo do Pará. Ao longo da década de 80 ministrou em outras cidades mineiras. 

No início da década de 90, ao chegar ao arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (hoje Itaúna/MG), o professor Plácido iniciou aulas noturnas gratuitas para os alunos do primeiro ano do ensino fundamental. Isso ocorreu no início de 1893, quando Sant'Anna do Rio São João Acima se caracterizava por um conjunto de escolas isoladas, criadas por iniciativa privada, e uma escola estadual. Essas escolas gozavam de grandes vantagens educacionais.

A bisneta do professor Plácido, a professora e escritora Maria Lúcia Mendes, residente em Itaúna, lembra que sua avó, Angelina de Oliveira Coutinho, falava frequentemente dos livros espíritas, que eram enviados da Europa para o professor no Brasil. Diz-se que ele organizava reuniões em casa para discutir esses assuntos. 

A notável atuação do professor Plácido na área da educação certamente influenciou as futuras gerações de sua família, que se tornaram profissionais de destaque e educadores respeitados na cidade. Há fortes indícios de que o professor Plácido teve papel fundamental na organização dos primeiros encontros espíritas em Itaúna, no final do século XIX.

Já na década de 1945, o jornalista, colunista e membro do Instituto Histórico de Ouro Preto, Antônio Caetano de Azeredo, radicado em Belo Horizonte, escreveu uma crônica sobre a cidade de Itaúna intitulada “Terra Abençoada”, que acreditamos ter escrito após visitar a cidade. Curiosamente, ele cedeu a crônica sobre a cidade de Itaúna para dois jornais da região de Minas Gerais - Correio de Uberlândia e A Estrela Polar (Diamantina). 

O jornalista colaborou regularmente com diversos jornais da região mineira (incluindo Divinópolis, Uberlândia, Diamantina, Paraopeba, Baependi, Santos Dumont, Conselheiro Lafaiete, Ouro Preto, entre outros). Azeredo Neto (como assinava em suas crônicas), era conhecido na imprensa pela profundidade e perspicácia evidentes nas suas obras escritas. Em um de seus escritos sobre o município de Itaúna, ele mencionou o tema do espiritismo e compartilhou o seguinte pensamento:

Itaúna, outrora simples arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, é hoje, uma cidade progressista, com intensa vida industrial e privilegiada por excelente clima, qualificado pelo sábio dinamarquês, dr. Lund, como dos melhores de Minas Gerais; e, mais ainda, por vir se mantendo incólume em meio da derrocada de licenciosidade de costumes em que o mundo se debate, como no domínio de novo paganismo. É uma terra abençoada, onde todos se prezam, estimam e respeitam.

 É que nela impera, soberana e excelsa, a sublime religião do Mártir do Gólgota, não existindo, no seio de sua honesta e operosa sociedade, nenhuma seita, nem mesmo o espiritismo, que qual árvore daninha, vai estendendo raízes por outros rincões mineiros, esquecidos de sua bem cuidada formação religiosa, plasmada por eruditos sacerdotes de vida ilibada, cuja voz ali foi ouvida e acatada, traduzindo-se na fidelidade conjugal e na piedade filial reinantes como estimáveis dons da graça divina.

A CÉLEBRE FAMÍLIA CAMPOS

No período de 1923 a 1937, José Maria Álvares da Silva Campos, farmacêutico formado em Ouro Preto, assumiu a função de vereador distrital do Carmo do Cajurú no sétimo mandato da Câmara Municipal de Itaúna. Em 1928, após a inauguração do Grupo Escolar Princesa Isabel no distrito, foi o primeiro diretor até o início da década de 1931. 

Apesar de possuir a Farmácia Campos também no distrito de Cajuru, suas crenças espirituais levaram a um boicote orquestrado. Esse infeliz incidente exemplificou o preconceito religioso da época, levando-o a se mudar com a família para o município de Divinópolis no início da década de 1940. Ao chegar na cidade, abriu uma farmácia de mesmo nome e manteve a carreira de farmacêutico.

Fundado com o apoio de José Maria Campos na década de 1947, um grupo de estudiosos do espiritismo em Divinópolis formou o Centro Espírita Estudantes do Evangelho. A Farmácia Campos serviu de ponto de encontro para a comunidade literária da cidade. 

Isto inspirou José Maria Campos e Sebastião Benfica Milagre a conceberem a ideia de criar uma academia dedicada à literatura na década de 1961. No dia 21 de junho daquele ano, ao lado de personalidades conceituadas, deram origem à ADL - Academia Divinopolitana de Letras. A primeira reunião foi presidida por José Maria Campos, então com 72 anos. Uma rua do município, Rua José Maria Campos, lhe serve de homenagem, através da Lei Municipal nº 1.404 de 12 de junho de 1978.

Nascido em 7 de dezembro de 1889, em Pitangui, José Maria Álvares da Silva Campos, mais conhecido como José Maria Campos, teve sete filhos com a esposa Mariana Fornero de Campos. Foi também trineto de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Mayor de Oliveira Campos ou também conhecida como Dona Joaquina do Pompéu. 

Em 1975, ele faleceu. Segundo pesquisas genealógicas dos historiadores Coriolano e Jacinto registradas na obra “Dona Joaquina do Pompéu” de 1956, seus pais foram Inácio Álvares da Silva Campos e Luíza Álvares da Silva. Juntos, o casal teve um total de dez filhos — o farmacêutico José Maria Álvares da Silva Campos (1888-1975), a professora Maria José Álvares da Silva Campos (1890), Maria Carolina Álvares da Silva Campos (1892-1977), José Luís Álvares da Silva Campos (1894), o tabelião Raul Álvares da Silva Campos (1895-1949), Martinho Álvares da Silva Contagem (1897-1956), Iara Álvares da Silva Campos (1902), Jupira Álvares da Silva Bicalho (1905), a professora Nise Álvares da Silva Campos (1907-1987) e Jandira Álvares da Silva Campos (1910-1991).

CASAS ESPÍRITAS EM ITAÚNA

Desses dez irmãos, três irmãs se estabeleceram em Itaúna. Uma delas foi Maria Carolina, também conhecida como Carola, que ocupava cargo na Escola Normal, hoje Escola Estadual de Itaúna. Outra irmã, Nise Campos, seguiu carreira como professora e escritora, enquanto Jandira trabalhava na agência do correio local. No início da década de 60, as irmãs Campos se uniram com o propósito de se aprofundar nos ensinamentos do Evangelho Segundo o Espiritismo. 

Assim, em 8 de julho de 1963, na residência da rua Melo Viana, centro da cidade, Ferdinando Suppa, Jandira Campos e Nise Campos realizaram “a primeira reunião de preces” registrado em ata oficial em 14 de setembro de 1964 a criação do GEFA – Grupo Espírita Francisco de Assis – no município de Itaúna/MG.

Após estabelecido um número considerável de participantes regulares, a casa atingiu sua capacidade e não tinha mais como acomodar pessoas adicionais. Como solução, conseguiram um terreno no bairro das Graças, justamente no cruzamento das ruas Santana e Bonfim. 

Neste terreno construíram um humilde estabelecimento que acabou por se transformar num amplo e acolhedor centro religioso dedicado à difusão dos ensinamentos da doutrina Espírita. Neste centro foram viabilizados vários programas e iniciativas educativas centradas na assistência social e apoio aos necessitados.

O grupo Espírita Francisco de Assis foi considerado de utilidade pública, municipal, estadual e federal:

Pela Lei Municipal de número 2.990 de 6 de outubro de 1995, que alterou o artigo primeiro da Lei de número 1.569 de 21 de maio de 1981 e passou a ter a seguinte redação: “Fica declarado de utilidade pública o Grupo Espírita Francisco de Assis, entidade sem fins lucrativos, com sede e foro nesta cidade de Itaúna.” Prefeitura Municipal de Itaúna, Prefeito Hidelbrando Canabrava Rodrigues.

Pela Lei Estadual de número 8.110, de 1 de dezembro de 1981 do artigo primeiro declara que “Fica declarado de utilidade pública o Centro Espírita Francisco de Assis – Fé – luz – Amor – Caridade, com sede na cidade de Itaúna”. Palácio da Liberdade, Vice-Governador de Minas Gerais João Marques de Vasconcelos.

Pela Lei Federal Portaria nº 1.588, de 19 de agosto de 2005. O Ministro de Estado e da Justiça, usando da competência que lhe foi delegada pelo art. 1º do Decreto no 3.415, de 19 de abril de 2000, e com base no disposto na Lei nº 91, de 28 de agosto de 1935, regulamentada pelo Decreto nº 50.517, de 2 de maio de 1961, resolve: “Declarar de Utilidade Pública Federal as seguintes instituições: Grupo Espírita Francisco de Assis - GEFA, com sede na cidade de Itaúna, Estado de Minas Gerais”.

Segundo o historiador Guaracy de Castro Nogueira, relata que foi uma imensa honra e privilégio ter a oportunidade de conviver com as irmãs Campos que se dedicaram de todo o coração a esta crença religiosa específica. Ele destaca que durante uma época em que prevaleciam os preconceitos sociais em torno das afiliações religiosas, as irmãs inspiravam grande respeito e admiração. O conceito de ecumenismo, ainda não era abraçado naquela época, mas mesmo assim elas foram aceitas e respeitadas na comunidade de Itaúna — “chegaram, viram e venceram”.

Já o professor e padre José Bechelaine destaca que a professora e escritora Nise Campos, possuía uma riqueza interior que expressava com notável simplicidade, tornando-a uma figura cativante. Sua trajetória educacional começou na cidade de Pompéu, onde cursou o ensino fundamental antes de continuar seus estudos na renomada Escola Normal de Itaúna. Em 1925, ela fez parte do primeiro grupo de professores formados nesta instituição. 

Após iniciar a carreira docente em Pompéu, Nise retornou a Itaúna em 1930, quando a Escola Normal foi oficialmente reconhecida. Dedicou-se à docência no Grupo Escolar José Gonçalves de Melo até à sua aposentadoria, ganhando reputação pela sua competência e empenho inabalável. 

Fora do trabalho na escola, Nise era muito procurada para aulas particulares, principalmente na disciplina de português. Além disso, ela possuía talento para a música e tocava bandolim. Em questões de fé, Nise foi defensora do espiritismo kardecista e participou ativamente dos esforços filantrópicos e religiosos do seu Centro Espirita

No entanto, ela não tinha uma mentalidade sectária, nem procurou ativamente converter outras pessoas às suas crenças. Ela tinha um profundo respeito pelas opiniões divergentes. Ainda tenra idade, Nise escreveu suas primeiras obras poéticas demonstrando talento para a literatura. Seus escritos exibiam consistentemente uma natureza contemplativa e introspectiva, com um toque de melancolia. Além disso, ela fez contribuições valiosas para vários jornais itaunenses.

Em 1965, através da Lei Municipal de nº 775, a Professora Nise Campos foi agraciada com o título de Cidadania Honorária em Itaúna — O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei: Art. 1º Concede o título de cidadã honorária de Itaúna à professora aposentada Nise Álvares da Silva Campos, de acordo com a Lei Municipal que regula a matéria. Prefeitura Municipal de Itaúna, 6 de dezembro de 1965 — pelo Prefeito Municipal Milton de Oliveira Penido.

Com o passar dos anos, foram inauguradas mais duas Casas Espíritas no município de Itaúna. O Núcleo Espírita Nosso Lar que surgiu em 3 de outubro de 1983, como uma organização sem fins lucrativos movida pela filantropia. Começou a funcionar oficialmente em 27 de outubro de 1994, ocupando a atual localização à rua Professora Maria Linda, no Bairro Residencial São Geraldo, município de Itaúna/MG.

Os fundadores guiaram-se por uma sugestão inspirada na escolha do nome, que se alinha com o seu objetivo principal de criar um espaço acolhedor como um verdadeiro “Lar”. Assim, através da Lei Municipal de nº 1740 de 31 de maio de 1984 do artigo primeiro foi “declarado de utilidade pública o Núcleo Espírita "Nosso Lar", sociedade civil, sem fins lucrativos, com sede e foro em Itaúna. Prefeitura Municipal de Itaúna, Prefeito Municipal Francisco Ramalho da Silva Filho.

Já o Grupo Espírita Eurípedes Barsanulfo fundado em 6 de agosto de 2017, entidade sem fins lucrativos sendo uma comunidade de estudos e trabalho social cristão do Espiritismo em Itaúna, situada à rua Agripino Lima, centro da cidade. Através da Lei Municipal de nº 5.988 de 3 de outubro de 2023, o Grupo foi declarado de Utilidade Pública.

MEIMEI

Uma informação relevante, apesar da escassez de documentação histórica, é o relato da trajetória de Irma de Castro Rocha em Itaúna, desde a infância até a idade adulta.  A biografia de Irma conduz inevitavelmente ao município, pois este local significava a região geográfica predominante onde viveu a grande parte de seus dias. Embora suas origens sejam de Mateus Leme/MG, remontando à década de 1920, a família mudou-se para Itaúna/MG, quando Irma tinha apenas dois anos. 

Seu pai, Adolfo Castro, trabalhava como agente ferroviário, e o nome de sua mãe era Mariana Castro. Ela cresceu com outros quatro irmãos. E no dia 5 de março de 1927, um infortúnio se abateu sobre a família quando seu pai faleceu e foi sepultado no cemitério local. Sua morte foi oficialmente registrada no Livro de Óbitos da igreja (1901-1928) na página de número 184r, marcando-o como a 21ª pessoa a ser sepultada naquele ano sendo então devidamente registrado pelo Padre Cornélio Pinto

A renomada Escola Normal, hoje Escola Estadual de Itaúna, proporcionou-lhe educação durante sua passagem pela cidade. Já adulta, Irma mudou-se para a capital mineira ao lado da irmã. Em 1946 faleceu aos 24 anos, apenas dois anos após seu casamento com Arnaldo Rocha. Irma de Castro Rocha foi postumamente referida como Meimei, o que mais tarde, segundo registros, se manifestou através da mediunidade de diversas cartas psicográficas de Francisco Cândido Xavier, popularmente chamado de Chico Xavier, mas também por outros médiuns. 

O desejo de promover mudanças e transformar o ambiente local é o que leva os agentes sociais a realizar mudanças duradouras e significativas. Estas mudanças são mais impactantes quando resultam da capacidade de fazer escolhas e agir de forma consciente. É por meio dessa lente que embarcamos em nossa jornada para pesquisar a relação entre os atores sociais e suas convicções religiosas, reveladas por meio das reminiscências históricas do espiritismo em Itaúna.


Referências: 

Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino:  Mestre pelo programa de Pós-Graduação em História (PGHIS) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Graduado em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Divinópolis MG, com Projetos em Iniciação Científica de Pesquisa e Extensão. Tem experiência na área de História na conservação, tratamento, organização e divulgação do Arquivo Histórico de Pitangui (IHP) nos séculos XVIII, XIX e XX. Genealogista e pesquisador em arquivos Coloniais com leitura paleográfica. Pesquisa nas seguintes áreas: História do Integralismo em Minas Gerais, História dos Ciganos em Minas Gerais, História de famílias em Pitangui descendentes dos Judeus Sefarditas da Península Ibérica do século XV e Cultura Afrodescendente no Centro-Oeste Mineiro.

Academia Divinopolitana de Letras. Prefeitura de Divinópolis. Disponível em: https://www.divinopolis.mg.gov.br/portal/noticias/0/3/7042/academia-divinopolitana-de--letras-inaugura-sede-propria 

Associação Beneficente Cantinho da Meimei. Disponível em: https://cantinhomeimei.org.br/meimei.html 

ARRIBAS, Celia da Graça. Afinal, espiritismo é religião? A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira, p. 88-92, 2008. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/D.8.2008.tde-05012009-171347. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-05012009-171347/pt-br.php 

Assembleia Legislativa de Minas Gerais – ALMG. LEI 8110, DE 01/12/1981. Disponível em: https://www.almg.gov.br/legislacao-mineira/texto/LEI/8110/1981/ 

BATISTA, Márcia Helena. A Restauração Católica no cotidiano da cidade: círculo operário, imprensa e obras sociais em Divinópolis entre os anos 30 e 50. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Pontifícia Universidade Católica, Belo Horizonte, p. 31, 197, 2002. Disponível em: http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/CiencSociais_BatistaMH_1.pdf 

BECHELAINE, Maria Batista. Traços de giz em quadro negro: Memórias de uma estudante que se tornou professora. Belo Horizonte, ed, O Lutador, 1999, p.19-20.

Câmara Municipal de Divinópolis. Lei Ordinária 1.404, 1978. Disponível em:  https://sapl.divinopolis.mg.leg.br/norma/9354 

Câmara Municipal de Itaúna. Galeria de Vereadores. 7ª Legislatura – (01/01/1923-17/05/1927). Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/galeria-vereadores/15/7a-legislatura 

Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 1.740, de 31 de maio de 1984. Disponível em:  https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/1984/8012/1996_texto_integral.pdf 

Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 2.990, de 06 de outubro de 1995. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/1995/8232/2219_texto_integral.pdf 

Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 5.988, de 03 de outubro de 2023. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/2023/10704/lei_5988-2023_-_declaracao_de_utilidade_publica_grupo_espirita_euripedes_barsanulfo.pdf 

Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 775, de 06 de dezembro de 1965. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/1965/8739/2734_texto_integral.pdf 

COELHO. José Demétrio. Emancipação de Carmo do Cajuru: Relato histórico. Organização e compilação Flávio Floral, 1ª ed., Divinópolis, 2020, p.29.

CORGOZINHO, Batistina M. S. Nas linhas da modernidade: continuidade e ruptura. Divinópolis, MG, 2003, p.145-146.

Decreto Nº 847, de 11 de outubro de 1890. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-847-11-outubro-1890-503086-publicacaooriginal-1-pe.html 

DIOMAR, Oswaldo. História do Cajuru: 1747 a 2000, 2 ª ed. Divinópolis, 2000, p.125, 199.

Entrevista com, Guaracy de Castro Nogueira - GEFA ITAÚNA - História Espiritismo em Itaúna Documentário. Produção Naron Tabajara. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=76eDyPLJG8A&t=497s 

Entrevista oral com a professora Maria Lúcia Mendes em 29/11/2023.

Grupo Espírita Eurípedes Barsanulfo GEEB. Itaúna/MG. Disponível em: https://www.youtube.com/@grupoespiritaeuripedesbars3318/videos 

Grupo Espírita Francisco de Assis – GEFA. Disponível em: https://gefaitauna.net/site/sobre/ 

Inauguração da Casa Espírita em 1994. “Núcleo Espirita Nosso Lar. Produção Naron Tabajara. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RpgTe-KUQAY&t=4261s 

Itaúna em Décadas. Professor Plácido Teixeira Coutinho: Atitude educativa e falência da esperança. Disponível em: https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2016/07/o-suicidio-de-um-professor-em-itauna-no.html 

Jornal A Estrela Polar nº 40, Diamantina, 7 de outubro de 1945, p.2. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.

Jornal Brexó. 1988, p.2 Itaúna, J.R. Bachelaine. Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira.

Jornal Correio de Uberlândia nº 1760, 4 de novembro de 1945, p.3. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.

Núcleo Espírita Nossa Lar. Itaúna/MG. Disponível em: http://yan.com.br/nucleonossolar/ 

Paróquia Santana de Itaúna – Family Search. Óbitos 1901, Jan-1928, Imagem 189. Disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:939N-D79T-YW?i=188&wc=M5FD-K68%3A370882003%2C369941902%2C370953901&cc=2177275 

Revista Vida Doméstica: revista do lar e da mulher, nº 143, 1930, p. 8. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.

RIBEIRO, Coriolano Pinto; GUIMARÃES, Jacinto; Dona Joaquina do Pompéu. Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1956, p.526-528.

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, Vol.1, p. 209.

Sumário Atos do Poder Judiciário Atos do Poder: Lei Federal Utilidade Pública: Diário oficial da união – Seção 1. 

União Espírita Mineira (UEM):  Irma de Castro Rocha, MEIMEI. Disponível em: https://www.uemmg.org.br/biografias/irma-de-castro-rocha-meimei