Sou de um tempo no qual o único transporte
para a zona rural de Itaúna, eram os caminhões leiteiros. Percorriam as fazendas
e retiros recolhendo os latões de leite para serem entregues na Cooperativa
Velha, que ficava na beira da linha da Rede Mineira de Viação.
Traziam o leite e levavam coisas, incluindo
gente que vinha na Sede para comprar sortimento, tecidos, ir ao médico e em
tempos de festas religiosas, acompanhar procissões, ir a rezas, pagar promessas
e se divertir nas quermesses.
Naqueles tempos não existia proibição de
viajar na carroceria. Todo mundo se arranjava no lugar da carga e lá iam
comendo poeira, os homens segurando o chapéu e as mulheres as saias, por causa
do vento. Velocidade pouca: estrada de terra e buraqueira não dava pra passar
dos trinta por hora. Uma exceção era Itatiaiuçu. Para o principal distrito da
cidade, sempre tinha caminhão de minério. Vazio na ida e cheio na volta. Todos os
dias da semana.
Gasolina era o apelido de um lavador de
carros e caminhões que trabalhava no Posto do Bossuet Guimarães. Nunca soube
seu nome verdadeiro. Era o Gasolina e bastava para quem o conhecia. Prestativo,
trabalhador e de boa paz. Cor indefinida, confundida na sujeira de seu
trabalho. Óleo, graxa, barro, terra de minério ajudavam a moldar o personagem.
Uma figura. Era bem conhecido, quase um tipo popular.
Num sábado, depois de dois aperitivos e uma
marmita reforçada acedeu a um convite de um carreteiro para ir até o "Tatiaio". Não ia carregar
minério. Levava umas encomendas para uma mineração e entre outras coisas, um
caixão para um defunto lá do distrito. Não teve tempo de tomar banho e trocar
de roupa. Faria isso na volta. Era sábado, podia tomar mais umas cachaças em Itatiaiuçu
e na chegada tomar banho no posto e trocar de roupa.
Devido a sujeira, não quis ir na boleia.
Preferiu a carroceria. Mais fresco, com vento na cara, podendo se esparramar à
vontade no meio das tralhas, ao lado do caixão.
Logo que saíram da Vila Mozart, perto da
fazenda do Zé Herculano, começou a chover forte. Gasolina não se apertou. Abriu
o caixão, acomodou-se o melhor que pode, fechou a tampa e pouco depois "
ferrou no sono". Efeito dos aperitivos, do cansaço e da boa marmita.
Mais um pouco a frente, o caminhoneiro parou
e deu carona para algumas pessoas que iam para o Córrego do Soldado. Três
homens, duas mulheres e dois moleques adolescentes. Gasolina continuava a
dormir, fechado no caixão.
Alguns quilômetros depois, passada a
Cachoeira dos Chaves, já sem chuva e com céu limpo, Gasolina acordou. Abriu a
tampa do caixão de uma vez só e com os braços abertos, ainda assentado no
ataúde, abriu os olhos e a boca com os dentes muito brancos.
Feito isso, fez menção de se levantar, já
falando em voz alta e rouca:
" Eta ferro, parece que dormi demais!!!!"
Ainda com o caminhão andando, só houve tempo
dos passageiros da carroceria pularem na poeira e rolarem no cascalho. Defunto
feio levantando do caixão e ainda “estrumunhando”,
nunca viram.
Muitos arranhões, roupas rasgadas, e nada de
mais grave. De nada adiantou o dono do caminhão ter parado o veículo mais na
frente e tentado correr atrás dos caronas que já sumiam no "
provisório".
Lucro quem teve foi Gasolina: recebeu muitas
missas por intenção de sua alma, mandadas rezar pelos caronas. Continuou a
viver por muitos e muitos anos.
O Gasolina existiu de verdade. Era um boa
praça. O caso é verídico.
*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José
Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60.
"Causo" enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 14/04/2017.