domingo, abril 09, 2017

SANTANENSE x ITAUNENSES


Clube Atlético Souza Moreira 1961

A rivalidade dos naturais de Santanense com os itaunenses era quase centenária. Afinal, o bairro Santanense tinha vida própria. A fábrica de tecidos era pioneira. A luz elétrica também. Tinha Grupo Escolar, Campo Futebol, Igreja e empregos. Promovia seus bailes nos quais as moças do lugar definitivamente não dançavam com os rapazes de Itaúna. Aliás, era temerário os moços da sede irem à noite em Santanense. Se ficassem muito "aprumados", era briga e surra.
Pior era com o futebol. Se havia jogo da "matriz" com a " filial", podia apostar: briga na certa!!!
Dia de domingo. Jogo em Itaúna, no campo do Zé Flávio. Chamado pomposamente de Estádio. Naqueles tempos, não tinha sequer alambrado. A torcida assistia ao jogo em pé, nas beiradas do campo. Também não tinha vestiário. Os atletas já vinham "montados", prontos para a peleja. Todo mundo aboletado na carroceria de caminhões. Time e torcida. Uma festa.
O jogo transcorreu sem muitos incidentes. Caneladas de lado a lado. Campo sem grama. Uma poeira danada. Um baita calor e as torcidas cada vez mais acaloradas. Jogo empatado até quase o final. O time do Zé Flávio era aguerrido e o de Santanense não menos. Até que um beque (naquele tempo zagueiro tinha esse nome) aprumou o atacante do Zé Flávio em plena área.
Pênalti, sem apelação. Confusão. Empurra, empurra, palavrões, torcida exaltada e briga generalizada. No meio da confusão, uma facada e um morto.
De imediato a briga parou. Os de Santanense apanharam o defunto, botaram ele deitado na carroceria de um dos caminhões e subiram no veículo, prontos para irem embora com o enorme prejuízo. Levavam um morto, mas, não perderam o jogo.
Antes de se mandarem, eis que surge o Delegado. Figura ímpar. De nome Sebastião Dias Duarte, apelidado " Tiao Secreta ". Bebia muito. Sempre de terno escuro era delegado de "calça curta" denominação que se dava aos delegados que não eram bacharéis e supriam a falta desses em caso de vacância. O seu efetivo policial era minúsculo. Um cabo e dois praças. O cabo era o "Pedro Soldado", que foi promovido e passou a ser chamado de Cabo Pedro Soldado. O outro, magro e desajeitado tinha o apelido de Pluto. Lembrava bem o cachorro do Pateta. Do terceiro não me lembro o nome. Sei que era um baixinho invocado.
O delegado, bem cheio de cana, mandou o cabo parar o caminhão e disse com autoridade, segurando a dentadura: "Cabo: você e os praças vão apontar quem estava na briga. Eu vou mandar descer do caminhão. Depois de identificados, vamos tocar pra delegacia, lavrar a ocorrência, já com todos os quesitos formulados. Entendido? "
O diminuto contingente assentiu às ordens do chefe e começou a ladainha — "Aquele lá tava na briga"; O delegado dizia: "Desce ". E um a um iam descendo os de Santanense.
Tudo ia muito bem e a turma de brigões já somava uns vinte, quando o cabo apontou para o Tinho, exímio raspador de tacos e aplicador de sinteco, dono de um papo de fazer inveja. — "Delegado: aquele papudo lá também tava na briga"
De imediato, antes do delegado manda-lo descer o Tinho respondeu: " Na briga eu tava, mas papudo é a P.Q.P.!!!!
Foi a senha para a briga começar de novo. Por pouco não morre mais um!!!



*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 04/04/2017.

Acervo Fotográfico: Dimas de Santanense/Década: 1961- Clube Atlético Souza Moreira


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