quinta-feira, julho 04, 2024

O VESTIDO

A crônica "O VESTIDO" escrita pela escritora Maria Lúcia Mendes oferece um vislumbre encantador e nostálgico da infância, capturando a magia e a inocência desse período através de uma narrativa simples e evocativa.

O tema central da crônica é a relação afetiva da narradora com um vestido especial, representando a valorização das pequenas coisas e a importância dos símbolos de infância. O vestido não é apenas uma peça de roupa; ele se torna um objeto de desejo, um símbolo de status entre as amigas e, mais profundamente, um guardião de segredos e sonhos.

A narrativa é em primeira pessoa, o que proporciona uma visão íntima e pessoal dos sentimentos da personagem. A autora utiliza uma linguagem simples e direta, refletindo a perspectiva infantil e a pureza das emoções descritas. A repetição de ações e o desejo constante de vestir o vestido acentuam a obsessão e o encanto que a peça exerce sobre a menina.

O vestido branco bordado carrega um simbolismo profundo, enquanto os personagens de contos de fadas remetem ao mundo da fantasia e da imaginação infantil. A imposição de que o vestido é "só pra ir à missa e aniversário" sublinha a importância de ocasiões especiais na vida da criança e a distinção entre o cotidiano e o extraordinário.

O príncipe escondido na costura da manga representa os sonhos e segredos que a criança guarda, uma metáfora para as fantasias e expectativas que a infância carrega. Este detalhe quase invisível simboliza o valor subjetivo e emocional que as crianças atribuem aos seus objetos queridos, muitas vezes imperceptível aos olhos dos adultos.

O conflito principal gira em torno do desejo incessante de vestir o vestido e a proibição imposta pelos adultos. Este conflito se intensifica quando a criança descobre que o vestido não lhe serve mais, provocando uma reação intensa de frustração. A tentativa dos adultos de "engabelar" a menina com uma bainha postiça é vista como uma solução paliativa e insatisfatória, que não apazigua a dor da perda.

A resolução, com o vestido sendo eventualmente relegado ao fundo da mala, simboliza o inevitável crescimento e as transições da infância para a adolescência. A perda do vestido é, portanto, uma metáfora para a perda de uma parte da inocência e da magia da infância.

A linguagem poética e as descrições vívidas contribuem para criar uma atmosfera nostálgica e envolvente. A escolha de palavras e as frases curtas e emotivas capturam perfeitamente a voz e os sentimentos da criança. O uso do tempo presente em "Todo dia era sagrado" e "Só hoje: eu pedia sempre" transmite a sensação de um desejo contínuo e persistente, enquanto o tempo passado em "sapateei, ralei o calcanhar no chão e veio o um choro espichado" enfatiza a intensidade da reação emocional.

Situada em Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais, a crônica também oferece um pano de fundo cultural específico. Reflete a vida em uma cidade pequena e a importância de eventos comunitários como missas e aniversários. Este contexto adiciona uma camada de autenticidade e regionalismo à narrativa, permitindo que os leitores se conectem com a cultura local e o ambiente descrito.

A crônica "VESTIDO" de Maria Lúcia Mendes é uma obra sensível e tocante que captura a essência da infância com sua simplicidade e profundidade. Através de uma narrativa evocativa e personagens simbolicamente ricos, a autora nos leva a refletir sobre a importância das pequenas coisas e as transições inevitáveis da vida. A crônica nos lembra que, por mais efêmeros que sejam os objetos da nossa infância, os sentimentos e memórias que eles evocam permanecem profundamente enraizados em nossas lembranças.


História narrada em áudio! Imperdível!



Referência: Organização, arte e análise: Charles Aquino 



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