Poucas cidades
podem orgulhar-se de ter sua identidade cívica tão fortemente marcada por uma
obra musical como Itaúna. O Hino Oficial do Município, cuja letra foi
composta pelo Dr. José Valeriano Rodrigues e cuja melodia nasceu do talento
do Professor e Maestro Jesus Ferreira, é uma síntese da história, da fé, do
trabalho e do progresso que moldaram a comunidade.
Jesus Ferreira,
homem simples e profundamente ligado às raízes itaunenses, possuía a habilidade
rara de traduzir em sons aquilo que a poesia exalta em palavras. Sua música deu
vida aos versos que celebram Sant’Ana, a fé dos primeiros habitantes, o trabalho
árduo dos ancestrais e o desenvolvimento industrial da cidade.
Em 1956, escrevendo de São Paulo, o Professor Jesus Ferreira
dirigiu-se ao irmão Cosme Caetano da Silva – "jornalista, advogado,
radialista, dramaturgo, político e também homem das artes". Nessa carta,
registrada com carinho e esperança, ele relatava o desafio de musicar os versos
de Valeriano Rodrigues e o desejo de ser útil à sua “cara Itaúna”:
“Fiz tudo o que
estava ao meu alcance para agradar a vocês e me sentirei muito feliz se puder
ser de alguma forma útil a nossa cara Itaúna. Se conseguirmos o prêmio, irei
até aí, e celebraremos…”
A carta revela
não apenas o processo criativo, mas também o afeto que Jesus nutria pela cidade
e pela família. Com humildade, ele confiava que seu trabalho pudesse conquistar
o júri e perpetuar-se como símbolo municipal.
Veio a confirmação: a melodia de Jesus Ferreira foi escolhida em
concurso público, recebendo a consagração oficial. A Lei Municipal nº 331,
de 11 de outubro de 1956, sancionada pelo prefeito Milton de Oliveira
Penido, oficializa o hino, legitima a escolha popular e reconhece a obra de
Valeriano Rodrigues (letra) e Jesus Ferreira (melodia).
A norma resultou
de um concurso público, previsto por Lei Municipal que estabeleceu uma comissão
julgadora composta por personalidades locais (Lincoln Nogueira Machado, Padre
Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e Professor Osvaldo Chaves). Mais tarde, a Lei nº 416, de 2 de junho de
1958, reforça juridicamente a decisão, corrige e consolida a redação legal,
transformando o hino em um símbolo municipal.
A importância do
Hino de Itaúna e dos demais símbolos oficiais foi reforçada décadas depois pela
Lei nº 3.278, de 12 de agosto de 1997, que determinou a obrigatoriedade
do ensino do significado e valor dos símbolos oficiais do município, bem
como do canto e da interpretação da letra do hino, em todos os
estabelecimentos de ensino público da cidade. Os símbolos definidos pela lei — Hino,
Bandeira e Brasão — tornaram-se parte da formação cidadã das novas
gerações, garantindo que o legado de Jesus Ferreira e de José Valeriano
Rodrigues permanecesse vivo não apenas em cerimônias cívicas, mas também nas
salas de aula, onde crianças e jovens aprendem a valorizar sua história e
identidade.
Legado
e Memória
A melodia criada
pelo Maestro Jesus Ferreira não é apenas acompanhamento musical: ela transforma
a poesia em experiência coletiva. O ritmo solene e ao mesmo tempo vibrante
permite que o hino seja entoado em cerimônias oficiais, escolas e eventos
culturais, unindo gerações em um mesmo sentimento de pertencimento.
A música ressalta
a grandeza da terra natal, reforça a religiosidade com a devoção a Sant’Ana e
ecoa o som das fábricas, do ferro e dos teares que fizeram de Itaúna um centro
de trabalho e esperança.
Hoje, ao se ouvir
o Hino de Itaúna, ressoam não apenas versos e notas, mas também a dedicação de
um professor que, em meio às dificuldades da vida cotidiana, soube transformar
talento em patrimônio cultural. A carta ao irmão Cosme é um documento vivo desse
momento histórico, mostrando que, antes da glória, houve esforço, humildade e
amor pela cidade natal.
O legado do
Maestro Jesus Ferreira, bem como o de seu irmão Cosme Caetano, ultrapassa a
obra musical. Representa a união de família, arte e cidadania em prol de
Itaúna. Cada vez que o hino é entoado, é como se a voz do professor ainda
ecoasse, conduzindo em melodia o orgulho de um povo. Assim, o nome do Professor
e Maestro Jesus Ferreira ficou eternamente gravado na história de Itaúna (Pedra Negra), como
o compositor da trilha que embala os ideais de fé, luta e progresso.
Referências:
Pesquisa e
elaboração: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
Imagem
meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.
Carta
datilografada de Jesus Ferreira (SP) ao irmão Cosme Silva (MG) – Acervo
Professor Giovanni Vinicius (sobrinho de Jesus e filho de Cosme).