sexta-feira, agosto 22, 2025

ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

Encomendação das Almas em Itaúna 

Quando a Quaresma se instala em Itaúna, a cidade parece ganhar outro fôlego, mais lento, mais denso, como se as ruas guardassem segredos que só a noite conhece. É então que, às quartas e sextas-feiras, um pequeno cortejo rompe a rotina, trazendo consigo a memória de tempos antigos: a Encomendação das Almas.

Não há badalos de sinos nem anúncios festivos. O chamado vem do silêncio, da chama trêmula das velas, do som áspero da matraca que corta a noite como um lamento. À frente, uma cruz coberta por pano roxo guia os passos — cor da penitência, da espera, do mistério. 

Atrás dela, homens e mulheres seguem com o olhar fixo, em silêncio profundo, obedecendo ao preceito de nunca voltar os olhos para trás. Dizem que quem ousa quebrar essa regra pode ver o que não deve: as almas que caminham junto ao grupo, invisíveis, mas presentes, ansiosas pelas preces que lhes são oferecidas.

As ruas, de repente, se tornam santuário. Em cada encruzilhada, em cada cruzeiro de pedra, o cortejo se detém. O “tirador” entoa, em tom grave, o cântico que atravessa gerações: “Alerta, pecador, alerta...” E o coro responde, como um eco antigo, unindo vozes em súplica pelas almas esquecidas no purgatório. É um canto de dor, mas também de esperança — um fio que costura o visível e o invisível, o humano e o divino.

Do lado de dentro das casas, moradores acompanham em silêncio. Rezam suas Ave-Marias, acendem pequenas luzes, deixam-se tocar pela melodia que entra pelas frestas das janelas. A cidade inteira parece rezar junto, ainda que muitos nem estejam nas ruas. O rito não é apenas visto, é sentido.

A cada parada, a cena se repete, mas nunca é a mesma. No cemitério, o ar parece mais denso; diante da igreja, mais leve; na encruzilhada, mais misterioso. O som da matraca anuncia o início e o fim de cada momento, despertando não apenas as almas, mas também a consciência dos vivos: somos todos, um dia, memória à espera de oração.

Quando a meia-noite se aproxima, o cortejo se encerra diante de uma igreja. O último cântico, “Bendita sejais”, sobe como uma prece derradeira. As velas se apagam, e o silêncio retorna às ruas. Mas não é um silêncio vazio: é o silêncio cheio da presença dos que já partiram, reconfortados pelas vozes dos vivos.

Assim, ano após ano, a Encomendação das Almas em Itaúna refaz a ponte entre tempos e mundos. É mais que um ritual; é uma crônica viva, cantada e rezada, que recorda aos vivos a fragilidade da existência e oferece às almas a esperança da eternidade.

 

RELIGIOSIDADE, PRESERVAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO

A Encomendação das Almas em Itaúna constitui-se como um dos mais expressivos exemplos de continuidade e reinvenção das práticas do catolicismo popular em Minas Gerais. A tradição, de origem luso-brasileira, foi retomada em 2014 após anos de interrupção e, desde então, passou a integrar de forma viva o calendário religioso da cidade.

Trata-se de um ritual exclusivamente quaresmal e noturno, marcado por um profundo caráter penitencial. Os participantes, conhecidos como encomendadores, percorrem ruas e cruzamentos do centro urbano após as 22h, carregando velas, terços, lenços e sobretudo a cruz coberta por pano roxo, sinal de luto e penitência no período litúrgico.

À frente do cortejo, um guia conduz a caminhada em silêncio absoluto, sendo a fala reservada apenas aos momentos de canto e oração. O gesto de não olhar para trás, enfatizado pela tradição, traduz a crença de que as almas acompanham os vivos durante o trajeto e podem se manifestar de forma aterradora caso alguém rompa o protocolo do olhar fixo no crucifixo.

O percurso inclui um número ímpar de paradas – três, cinco, sete ou nove – realizadas diante de encruzilhadas, cruzeiros, igrejas ou cemitérios. Cada parada é marcada pelo som seco da matraca, instrumento que desempenha papel ritual central, tanto para iniciar e encerrar cânticos quanto para simbolicamente “acordar” as almas.

A musicalidade surge, então, como elemento-chave: cânticos de entonação lúgubre, como “Alerta, pecador, alerta”, são entoados de forma responsorial, com um “tirador” iniciando os versos e o coro respondendo em uníssono. Esse diálogo sonoro expressa não apenas a intercessão pelos mortos, mas também uma pedagogia religiosa, advertindo os vivos sobre a penitência, o pecado e a necessidade de conversão.

A participação dos fiéis não se limita à rua. Nas casas por onde o cortejo passa, espera-se que os moradores, mesmo sem sair, rezem em silêncio as orações solicitadas – Pai Nosso e Ave Maria – em sintonia com os encomendadores. Desse modo, o ritual cria uma atmosfera que ultrapassa o espaço físico do grupo e envolve toda a comunidade no sufrágio das almas.

Um aspecto singular em Itaúna é o apoio eclesial. Diferente de outros locais onde a prática subsiste de modo residual, aqui padres e paróquias não apenas autorizam, mas incentivam a celebração. Os folhetos com letras dos cânticos são distribuídos após missas, e muitos sacerdotes chegam a participar, ainda que discretamente, como simples devotos, reforçando a legitimidade do rito. Esse amparo institucional fortalece os encomendadores e garante a continuidade da tradição em meio às mudanças sociais e urbanas.

Outro traço de destaque é o uso das novas tecnologias como recurso de preservação e difusão. Além de panfletos impressos, a prática se vale de flyers digitais e QR Codes que direcionam a áudios e vídeos das celebrações. Essa inovação insere a Encomendação das Almas no universo midiático contemporâneo, ampliando seu alcance e oferecendo uma forma de documentação viva da tradição. Ao mesmo tempo, demonstra a capacidade de adaptação da religiosidade popular frente aos desafios da modernidade urbana – como trânsito, iluminação artificial, barulho da cidade e presença de curiosos.

Mais do que uma tradição isolada, trata-se de uma manifestação que atravessa décadas e que, em Itaúna, apresenta um percurso histórico particular. Uma hipótese relevante é que a “Reza ou Procissão das Almas” tenha tido início em 1933, conforme registrado no Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana, sob a pena do vigário Pe. José Ferreira Neto. Nesse documento, o sacerdote anotou:

“Foi introduzido pelo atual Vigário, o piedoso dos costumes de se fazer no dia de Finados, uma tocante procissão, chamada das almas no cemitério.”

Esse registro permite compreender que a prática, hoje parte da memória coletiva, remonta às primeiras décadas do século XX e já naquele tempo era concebida como expressão tocante da piedade popular.

Do ponto de vista musical e simbólico, os cânticos cumprem múltiplas funções: marcam ritualmente cada momento; reforçam os valores da fé católica; definem quais almas são lembradas e beneficiadas; e orientam os devotos sobre como participar. Eles condensam uma visão de mundo em que a vida e a morte se entrelaçam, reafirmando a esperança na intercessão e na misericórdia divina.

Em síntese, a Encomendação das Almas em Itaúna não é apenas a reprodução de uma tradição antiga, mas sim sua ressignificação. O grupo atual mostra-se capaz de articular fé, comunidade e tecnologia para manter viva uma prática ancestral. O resultado é uma celebração que, a cada Quaresma, percorre as ruas da cidade, entre velas e matracas, como um testemunho da permanência do catolicismo popular. Trata-se, portanto, de uma devoção que une gerações, conecta vivos e mortos e insere Itaúna no mapa das expressões culturais e religiosas de Minas Gerais.


Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Imagem meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto. 

Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana — 1902 a 1947, p. 30v.

EUFRÁSIO, Vinícius; ROCHA, Edite. A Encomendação das Almas na cidade de Itaúna-MG: cânticos e contexto. In: XXIX Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – Pelotas – 2019, p.1-7. Disponível em: https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2019/5631/public/5631-20583-1-PB.pdf