Encomendação das Almas em Itaúna
Quando a Quaresma
se instala em Itaúna, a cidade parece ganhar outro fôlego, mais lento, mais
denso, como se as ruas guardassem segredos que só a noite conhece. É então que,
às quartas e sextas-feiras, um pequeno cortejo rompe a rotina, trazendo consigo
a memória de tempos antigos: a Encomendação das Almas.
Não há badalos de sinos nem anúncios festivos. O chamado vem do silêncio, da chama trêmula das velas, do som áspero da matraca que corta a noite como um lamento. À frente, uma cruz coberta por pano roxo guia os passos — cor da penitência, da espera, do mistério.
Atrás dela, homens e mulheres seguem com o olhar fixo, em silêncio
profundo, obedecendo ao preceito de nunca voltar os olhos para trás. Dizem que
quem ousa quebrar essa regra pode ver o que não deve: as almas que caminham
junto ao grupo, invisíveis, mas presentes, ansiosas pelas preces que lhes são
oferecidas.
As ruas, de
repente, se tornam santuário. Em cada encruzilhada, em cada cruzeiro de pedra,
o cortejo se detém. O “tirador” entoa, em tom grave, o cântico que atravessa
gerações: “Alerta, pecador, alerta...” E o coro responde, como um
eco antigo, unindo vozes em súplica pelas almas esquecidas no purgatório. É um
canto de dor, mas também de esperança — um fio que costura o visível e o
invisível, o humano e o divino.
Do lado de dentro
das casas, moradores acompanham em silêncio. Rezam suas Ave-Marias, acendem
pequenas luzes, deixam-se tocar pela melodia que entra pelas frestas das
janelas. A cidade inteira parece rezar junto, ainda que muitos nem estejam nas
ruas. O rito não é apenas visto, é sentido.
A cada parada, a
cena se repete, mas nunca é a mesma. No cemitério, o ar parece mais denso;
diante da igreja, mais leve; na encruzilhada, mais misterioso. O som da matraca
anuncia o início e o fim de cada momento, despertando não apenas as almas, mas
também a consciência dos vivos: somos todos, um dia, memória à espera de
oração.
Quando a
meia-noite se aproxima, o cortejo se encerra diante de uma igreja. O último
cântico, “Bendita sejais”, sobe como uma prece derradeira. As
velas se apagam, e o silêncio retorna às ruas. Mas não é um silêncio vazio: é o
silêncio cheio da presença dos que já partiram, reconfortados pelas vozes dos
vivos.
Assim, ano após
ano, a Encomendação das Almas em Itaúna refaz a ponte entre tempos e
mundos. É mais que um ritual; é uma crônica viva, cantada e rezada, que recorda
aos vivos a fragilidade da existência e oferece às almas a esperança da
eternidade.
RELIGIOSIDADE,
PRESERVAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO
A Encomendação
das Almas em Itaúna constitui-se como um dos mais expressivos exemplos de
continuidade e reinvenção das práticas do catolicismo popular em Minas Gerais.
A tradição, de origem luso-brasileira, foi retomada em 2014 após anos de
interrupção e, desde então, passou a integrar de forma viva o calendário
religioso da cidade.
Trata-se de um
ritual exclusivamente quaresmal e noturno, marcado por um profundo caráter
penitencial. Os participantes, conhecidos como encomendadores, percorrem ruas e
cruzamentos do centro urbano após as 22h, carregando velas, terços, lenços e
sobretudo a cruz coberta por pano roxo, sinal de luto e penitência no período
litúrgico.
À frente do
cortejo, um guia conduz a caminhada em silêncio absoluto, sendo a fala
reservada apenas aos momentos de canto e oração. O gesto de não olhar para
trás, enfatizado pela tradição, traduz a crença de que as almas acompanham os
vivos durante o trajeto e podem se manifestar de forma aterradora caso alguém
rompa o protocolo do olhar fixo no crucifixo.
O percurso inclui
um número ímpar de paradas – três, cinco, sete ou nove – realizadas diante de
encruzilhadas, cruzeiros, igrejas ou cemitérios. Cada parada é marcada pelo som
seco da matraca, instrumento que desempenha papel ritual central, tanto
para iniciar e encerrar cânticos quanto para simbolicamente “acordar” as almas.
A musicalidade
surge, então, como elemento-chave: cânticos de entonação lúgubre, como “Alerta,
pecador, alerta”, são entoados de forma responsorial, com um “tirador”
iniciando os versos e o coro respondendo em uníssono. Esse diálogo sonoro
expressa não apenas a intercessão pelos mortos, mas também uma pedagogia
religiosa, advertindo os vivos sobre a penitência, o pecado e a necessidade de
conversão.
A participação
dos fiéis não se limita à rua. Nas casas por onde o cortejo passa, espera-se
que os moradores, mesmo sem sair, rezem em silêncio as orações solicitadas –
Pai Nosso e Ave Maria – em sintonia com os encomendadores. Desse modo, o ritual
cria uma atmosfera que ultrapassa o espaço físico do grupo e envolve toda a
comunidade no sufrágio das almas.
Um aspecto singular em Itaúna é o apoio eclesial. Diferente de outros locais onde a prática subsiste de modo residual, aqui padres e paróquias não apenas autorizam, mas incentivam a celebração. Os folhetos com letras dos cânticos são distribuídos após missas, e muitos sacerdotes chegam a participar, ainda que discretamente, como simples devotos, reforçando a legitimidade do rito. Esse amparo institucional fortalece os encomendadores e garante a continuidade da tradição em meio às mudanças sociais e urbanas.
Outro traço de
destaque é o uso das novas tecnologias como recurso de preservação e difusão.
Além de panfletos impressos, a prática se vale de flyers digitais e QR Codes
que direcionam a áudios e vídeos das celebrações. Essa inovação insere a
Encomendação das Almas no universo midiático contemporâneo, ampliando seu
alcance e oferecendo uma forma de documentação viva da tradição. Ao mesmo
tempo, demonstra a capacidade de adaptação da religiosidade popular
frente aos desafios da modernidade urbana – como trânsito, iluminação
artificial, barulho da cidade e presença de curiosos.
Mais do que uma
tradição isolada, trata-se de uma manifestação que atravessa décadas e que, em
Itaúna, apresenta um percurso histórico particular. Uma hipótese relevante é
que a “Reza ou Procissão das Almas” tenha tido início em 1933, conforme
registrado no Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana, sob a pena do
vigário Pe. José Ferreira Neto. Nesse documento, o sacerdote anotou:
“Foi
introduzido pelo atual Vigário, o piedoso dos costumes de se fazer no dia de
Finados, uma tocante procissão, chamada das almas no cemitério.”
Esse registro
permite compreender que a prática, hoje parte da memória coletiva, remonta às
primeiras décadas do século XX e já naquele tempo era concebida como expressão
tocante da piedade popular.
Do ponto de vista
musical e simbólico, os cânticos cumprem múltiplas funções: marcam ritualmente
cada momento; reforçam os valores da fé católica; definem quais almas são
lembradas e beneficiadas; e orientam os devotos sobre como participar. Eles
condensam uma visão de mundo em que a vida e a morte se entrelaçam, reafirmando
a esperança na intercessão e na misericórdia divina.
Em síntese, a Encomendação das Almas em Itaúna não é apenas a reprodução de uma tradição antiga, mas sim sua ressignificação. O grupo atual mostra-se capaz de articular fé, comunidade e tecnologia para manter viva uma prática ancestral. O resultado é uma celebração que, a cada Quaresma, percorre as ruas da cidade, entre velas e matracas, como um testemunho da permanência do catolicismo popular. Trata-se, portanto, de uma devoção que une gerações, conecta vivos e mortos e insere Itaúna no mapa das expressões culturais e religiosas de Minas Gerais.
Referências:
Pesquisa
e elaboração: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
Imagem
meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.
Livro
do Tombo da Paróquia de Sant’Ana — 1902 a 1947, p. 30v.
EUFRÁSIO,
Vinícius; ROCHA, Edite. A Encomendação das Almas na cidade de Itaúna-MG:
cânticos e contexto. In: XXIX Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e
Pós-Graduação em Música – Pelotas – 2019, p.1-7. Disponível em: https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2019/5631/public/5631-20583-1-PB.pdf