quinta-feira, dezembro 21, 2017

CELEBRAÇÕES NATALINAS



Uma das maiores tradições do Natal desapareceu em decorrência da violência que assola o Brasil. Era a Missa do Galo, celebrada do Oiapoque ao Chui, nas igrejas católicas do Brasil. Missa celebrada a meia noite, com frequência garantida de quase todos os habitantes.
As crianças ficavam em casa. Meia noite era muito tarde mesmo para adultos. Tão importante que dá causa e titulo a um dos melhores contos da língua portuguesa. Escrito por Machado de Assis, é uma obra prima.
As ceias eram esparsas. Importante mesmo era o almoço do Dia de Natal. Frango assado, leitão pernil e raramente, o peru. A ave era mais ou menos rara e poucas pessoas criavam o bicho em cativeiro. Morto na cozinha da casa, carecia de uma dose de cachaça na véspera do abate. Diziam que era para amaciar a carne. Lembro-me do Rameh.
Machado conta a história de um peru degolado em sua casa. Atendendo ao pedido de sua mãe, dona Elza, foi dar a dose para a ave. Gostou da incumbência e deu uma dose e bebeu outra. Ao fim e ao cabo, quase esvaziaram a garrafa. Ele é o seu novo companheiro de gole. O peru " apagou”. Coma alcoólico. Morreu anestesiado.
Almoço de Natal tinha além das carnes, arroz de forno macarronada tutu de feijão com linguiça. Cada casa comia o que estivesse dentro de suas posses. Famílias grandes, todos ao redor da mesa, festejando o nascimento do Nazareno.
Vinho frisante Michelon ou Sangue de Boi, de garrafão. Cerveja preta, malzbier. Bebidas destiladas eram raras. Uísque, nem pensar.
Os presentes eram também escassos. O dinheiro era curto para a maioria. Quem ganhava uma bola de couro ou uma bicicleta Philips, inglesa, eram poucos. Coisa de gente rica. Carrinhos de lata ou de madeira. Os que andavam por conta própria eram movidos a corda, tal qual relógios.
O Papai Noel era lenda pagã, desaconselhada pela Santa Madre Igreja. Árvores de Natal também eram raras. Abundância de presépios, inclusive nas igrejas. Grutas feitas de pano, engomado com grude de polvilho azedo e polvilhadas de pó de pedra e malacacheta. Uma belezura. O Deus menino deitado numa caminha de serragem.
José e Maria ajoelhados em torno da manjedoura e os três reis magos mais afastados. Um deles era negro. Sinal que naqueles tempos, nada de racismo. Carneiros, bois e os camelos dos magos que atravessaram o deserto para render homenagem ao judeu recém-nascido. O Natal era uma festa da família, de confraternização em torno de valores cristãos.
As sobremesas eram um caso à parte. Num próximo texto descrevo algumas e passo uma receita de doces natalinos. Prometo.


Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 21/12/2017.

Acervo: Shorpy




0 comentários:

Postar um comentário