domingo, agosto 20, 2017

ONOFRE: CIGARRO, GARRAFA E COMPRIMIDO


Nunca soube o seu nome de família. Todos que o conheciam tratavam-no pelo prenome e o apelido Onofre"Bacalhau”. Alcunha óbvia, era magro, quase transparente. Em chuva de pingos grossos era capaz de caminhar entre eles sem se molhar. Tinha outra característica ímpar. Tinha o estopim muito curto. Aliás, nem tinha: explodia por qualquer motivo.
Proprietário de um barzinho numa rua que começava numa pracinha em frente a antiga venda do Serafim (rua Silva Jardim), descia e depois subia, atravessando o Córrego da Praia. O botequim era ao lado da casa do Tiaca, uma ótima figura, casado com Luzia Narcisa. Raça boa de gente do Calambau.
Vou narrar três histórias curtas do Onofre, duas presenciadas por mim. A terceira, marcou época na cidade.

PRIMEIRA HISTÓRIA: CIGARRO PICADO
Estávamos no boteco tomando cachaça e cerveja. O Bacalhau, além de dono, também participava. A roda estava animada e Onofre não queria ser aborrecido por fregueses. Foi aí que entrou um cliente e indagou: "Onofre, tem cigarro picado?
Resposta do Bacalhau: " só maço fechado. Se quiser, tem Continental, Beverly e Lincoln". O freguês insistiu: será que não dá pra abrir um maço e me vender três cigarros?  Já nervoso, Onofre respondeu: " não dá não e não insista"!!!
Teimoso o comprador insistiu. " Só três Beverly, não quero comprar muito. Estou tentando largar o vício".
De imediato, Bacalhau levantou-se da mesa, abriu um maço, apanhou três cigarros, pegou uma faca bem grande e picou os três, bem miúdos no balcão. Ato contínuo, apanhou a " maçaroca" e colocou tudo no bolso da camisa do insistente e disse raivoso: " toma o cigarro picado. E nem precisa pagar"!!!

SEGUNDA HISTÓRIA: TRÊS GARRAFAS
A segunda história, também passada no botequim, aconteceu com o caminhão de cerveja. Naqueles tempos, não existiam cervejas em lata e tampouco as embalagens descartáveis. Para comprar a bebida, o dono do bar tinha de entregar engradados e garrafas vazias, para repor o vasilhame cheio.
Onofre pediu quatro engradados. O entregador contou o vasilhame e deu falta de três garrafas. Argumentou que em tal hipótese, só podia entregar três engradados. O comerciante argumentou que era freguês conhecido e reporia as garrafas faltantes na próxima compra. O entregador não cedeu.
Na terceira tentativa infrutífera, Bacalhau pegou o vendedor de cerveja pelos ombros e o assentou em uma cadeira, dizendo em seguida:  " já que não pode ser assim e eu não posso ficar sem a bebida, fica assentado aí e espere. Em seguida me chamou para compartilhar a cerveja. Vamos beber três garrafas.
 Quando terminarmos, o engradado estará completo. Assim foi dito e assim foi feito. Bebemos calmamente, apreciando cada gole.

TERCEIRA HISTÓRIA: COMPRIMIDO RUA ABAIXO
A terceira história aconteceu na Farmácia Nogueira. Onofre chegou no balcão e pediu uma aspirina. Estava com uma dor de cabeça terrível. O caixeiro, novo no estabelecimento, pegou o comprimido, deu o preço e indagou solicito: " o senhor quer que eu embrulhe? Resposta imediata do Bacalhau: " não precisa. Eu vou rodando o comprimido rua abaixo" !!!

Aí vão três historinhas. Duas são verídicos. Eu presenciei. A terceira, faz parte do folclore da cidade.
*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 20/08/2017.
Acervo: Shorpy


Um comentário:

  1. Pessoas inesquecíveis de Itaúna, mesmo os que estão nesta história sem sere o protagonista. D. Luzia Narcisa, por exemplo casada com o Tiaca, foi minha professora - muito boa professora, inesquecível

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