ANÁLISE DO POEMA
O poema "O Mendigo" de Nise Campos escrito em 1937, apresenta uma reflexão profunda sobre a condição humana, a passagem do tempo, e a fragilidade das conquistas materiais diante das incertezas da vida. Através da figura do mendigo, a poeta explora temas como o envelhecimento, a desilusão, a solidão, e a perda de tudo o que um dia foi importante.
O poema é estruturado em forma de diálogo, o que aumenta a carga emotiva da narrativa. A repetição do pedido de esmola pelo mendigo reforça sua situação desesperadora e a sua condição de desamparo. O uso de versos simples e diretos, em uma linguagem acessível, contribui para a identificação imediata com a dor e a miséria do personagem.
O mendigo é descrito como uma figura quase espectral, alguém que carrega no corpo e na voz os sinais do sofrimento prolongado. A "neve do tempo" que branqueara seus cabelos e a "espessa barba" que perdeu a cor são metáforas que sugerem não apenas a velhice, mas também a erosão da identidade e da vitalidade. Seus olhos são comparados a um "cofre aberto", uma imagem poderosa que sugere que tudo o que restou ao mendigo é a dor, que ele carrega como um tesouro sombrio.
O tema da perda é
central no poema. O mendigo revela que já foi rico, poderoso, e amado, mas tudo
isso foi destruído por um "falso amigo" e um "falso norte".
Essas expressões sugerem traição e a escolha errada de caminhos, elementos que
conduzem ao fracasso e à ruína. A queda do personagem de uma posição elevada
para a mendicância é uma reflexão sobre a impermanência e a vulnerabilidade das
conquistas humanas.
O contraste entre
o passado glorioso do mendigo e sua presente miséria cria uma tensão trágica. A
ironia está presente na transformação de alguém que um dia possuía
"palácios" em alguém que agora depende da caridade para sobreviver.
Esse contraste sublinha a ideia de que a fortuna é efêmera e que o destino pode
ser cruelmente caprichoso.
O poema convida o
leitor a refletir sobre o valor real das posses materiais e a transitoriedade
da vida. A narrativa triste e melancólica do mendigo serve como um lembrete de
que o orgulho, a riqueza e o poder são frágeis e podem desaparecer com a mesma facilidade
com que surgem. Além disso, o poema sugere a importância da empatia e da
compreensão para com aqueles que a sociedade muitas vezes marginaliza e
esquece.
Assim, "O
Mendigo" é uma meditação poética sobre a decadência humana e a necessidade
de olhar além das aparências para reconhecer a dignidade e a história que cada
indivíduo carrega, independentemente de sua condição atual.
O MENDIGO
Nise Campos — 1937
— Uma esmola, moça! Era tão velho o pobre,
Que se não podia calcular-lhe os anos ...
Trôpego e cansado pelo mundo andava,
Vítima da dor e dos desenganos ...
A neve do tempo branqueara seus cabelos bastos.
E a espessa barba lhe roubar à cor.
Seus olhos pareceram-me, ao fitá-los,
Um cofre aberto, onde guardara a dor.
— Uma esmola, moça! Repetiu-me ele.
Uma esmola do velho sem carinho e lar ...
E a voz tremia-lhe na garganta rouca,
Sendo ela triste como seu olhar.
Tinha nas faces o palor doentio.
Dos que não tem lume, dos que não tem pão.
De que lhe serviria a moeda avara
Que lhe lançasse na rugosa mão?
Sentei-me ao lado do velhinho pobre.
Ele contou-me o drama da existência sua.
Havia lágrimas nos seus olhos tristes
Que se alongavam pela extensão da rua.
— Fui rico, moça! Fui poderoso e forte!
— Tive palácios! Tive amor até!
Um falso amigo atrapalhou-me a sorte
E um falso norte amorteceu-me a fé!
Hoje, sou trapo, pelo chão jogado!
Nem o céu da Pátria me é dado ver!...
Tenha piedade deste desterrado,
Que a Pátria ama, como ao próprio ser!...
Enxuguei-lhe as lágrimas que caiam quentes,
E tão ardentes como o ardente amor,
E, compadecida desse desgraçado,
A vivei-lhe a fé e amorteci-lhe a dor ...
Filha querida, que agora achei!
—Que nunca seja por ninguém traída,
Dizendo isso, abençoou-me crente,
Com a fé ardente que ressuscitei.
Seguiu o velho o seu caminho certo.
Escutei, atenta, os rogativos seus
Estendendo a mão e para o algo olhando:
— Uma esmola, amigo, pelo amor de Deus!
Edson D’Amato
Não irei levar ao
conhecimento dos leitores desta “Polianteia”, os dados biográficos de uma vida
dedicada quase que exclusivamente ao magistério, mas, sim, por em relevo as
qualidades de espírito e de coração dessa incansável e modelar mestra. O
magistério é um ideal, em que os espinhos são mais abundantes do que as flores.
E somente os que estão marcados pela vocação para o ensino, abraçam esse ideal,
com os olhos fixos na grandeza da Pátria.
Nise Campos é,
antes e acima de tudo, professora dedicada, que não mede sacrifícios, no
sentido de formar, intelectual e espiritualmente, os futuros responsáveis pelo
destino deste País. Nessa missão árdua e espinhosa, que vem sendo realizada,
desde longos anos, põe todo o seu entusiasmo, todo o seu devotamento e todas as
energias latentes de sua inteligência aprimorada. Incansável no seu trabalho
diuturno, não tem horário para lecionar. Se alguma criança a procura interessada
em estudar, abre os seus braços e sempre, com sorriso aos lábios, procura
encaminhá-la pelas sendas da virtude e da sabedoria.
No poema “O
Mendigo” escrito em 1937, nota-se que a poetisa escolhera um tema, que comove a
qualquer leitor. Entre os versos musicalmente cadenciados surge a figura daquele
que perambula pelas ruas da cidade maltrapilho e esfomeado, à procura de uma
esmola pelo amor de Deus.