terça-feira, outubro 24, 2017

ITAÚNA: OS DIAS ERAM ASSIM...


Nos anos cinquenta do século passado, em Itaúna, a molecada de minha idade era desprovida de posses. Bola de futebol, nem pensar. Era cara e difícil. Chamada de bola de " capota”. Câmara de ar de encher com a boca, esconder o bico dentro da pelota e fecha-la com uma cordinha de couro. As de válvula, apareceram depois.
Bola grande era de bexiga de boi, que arranjávamos no matadouro, na beira do São João. Bolas para " bente altas" eram de pano, bem costuradas com linha quarenta, dobrada e encerada. Não existia um calendário de brincadeiras. Tempos de pouca chuva eram tempos de jogar pião. Com fieira tecida na Itaunense. Barbante comum não servia.
Tempo também de bolas de gude, compradas na Loja do Teco. Lá eram vendidas também armas e munições. Nossos olhos brilhavam. Lá comprávamos também os anzóis. Chumbadas e engate, feitos por nós mesmos. Dentifrícios (creme dental) e pomadas eram embaladas em tubos de chumbo. Derretidos na colher de ferro no braseiro do fogão de lenha, davam ótimas chumbadas. Linha de nylon não existia. Era linha de algodão, fina e forte. O engate tinha de ser mais comprido, para deixa-la longe da boca do peixe.
Fim de julho e todo agosto era tempo de papagaios. Taquaras tiradas no mato para fazer as varetas e papel de seda comprado na Papelaria do Carmelo. Tudo colado com grude feito com polvilho azedo, com gotas de limão para acola caseira durar mais. Armazenada num vidro de boca larga, servia por bom tempo.
Assim que começavam as chuvas, tempo de " finquete". Um pedaço de vergalhão e mãos a obra. Esquentar no braseiro do fogão até ficar vermelho. Malhar no " olho da enxada" até ir afinando. Depois da ponta feita, esfregar em  uma pedra para afinar  mais. Depois, bastava arranjar o parceiro, riscar as casas no chão úmido e toca a jogar.
Pegando na ponta, fazendo pirueta. Se errasse, era a vez do adversário. Quem chegasse na casa do outro primeiro ganhava a partida. Eu tinha ótimos finquetes, feitos por mim na forja e na bigorna do velho e bom " João Coisa Boa". Era vizinho da casa de meus pais. Depois de bem preparado, amolado no " rebojo", um esmeril tocado a pedal. Coisa boa, tal qual o dono.
Os papagaios também careciam de linha quarenta, marca corrente. Empinados com manivelas de madeira, de nossa produção. Não existia o tal " cerol" que transformou uma brincadeira sadia e comum no mundo todo, em arma mortífera. Os tempos eram outros.
Pescávamos com caniços de bambu, tirados no mato e curados com sebo de virilha de boi, moqueado no fogo brando, para dar elasticidade e rigidez ao bambu. Uma beleza para lambaris. Trairas pediam varas de ponta grossa. Peixe sem sutileza, tirado d'agua com um arranco. Lambari era tinhoso e sabia correr com a isca.
Íamos a escola, sem mochila e sem pastas. Nos bastava uma capanga feita de pano de saco de açúcar. Pendurado como um embornal. Lá dentro, um ou dois cadernos simples e baratos, o livro de leitura, lápis e borracha "capacete", enfiada na cabeça do lápis. Canetas, nem pensar. Eram muito caras.
Brincávamos de pique quadrilha e corríamos quarteirões a noite. Em festas da igreja, ajudávamos a bater os sinos e corríamos atrás das varas dos foquetes preparados e soltos pelo Parente. Fogueteiro e coveiro. Uma excelente alma.
Trabalhávamos em casa. Guardar a lenha, rachar se preciso, buscar leite na cooperativa velha, carne no açougue e gêneros no armazém. Fazer o " para casa" e estudar a lição. Vida ocupada, ainda com tempo de engraxar sapatos, fazer estilingues e catar sucata na descarga dos altos-fornos. Ajuntar um dinheirinho para a matinê de domingo.
Os dias eram assim!!!!



Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 16/10/2017.
Acervo: Shorpy



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