quinta-feira, janeiro 15, 2026

PRIMEIRO TREM

A chegada do primeiro trem em Itaúna/MG: um marco celebrado com flores, música e multidão

Convidamos você a conhecer um dos momentos mais emblemáticos da história de Itaúna: a chegada do primeiro trem à vila, um acontecimento que não apenas representou o avanço da modernização e da conexão ferroviária com o restante de Minas Gerais, mas que também foi vivido e registrado como um verdadeiro espetáculo popular de alegria, orgulho e união cívica.

Embora alguns documentos indiquem que o primeiro trem teria chegado a Itaúna no ano de 1910, fontes impressas da época, como o jornal Pharol, de Juiz de Fora, em sua edição de 16 de março de 1911, registram com riqueza de detalhes que o marco histórico ocorreu no dia 8 de março de 1911. A matéria descreve com entusiasmo e precisão o impacto daquele dia na vida da população itaunense e na paisagem urbana da então vila recém-emancipada.

Naquela manhã de março, o trem do lastro da Estrada de Ferro Oeste de Minas, conduzindo o engenheiro-chefe dr. José de Berredo e acompanhado por famílias importantes de das Estações Ferroviárias de Henrique Galvão (Divinópolis/MG) e Cajuru (Carmo do Cajuru/MG), fez sua entrada triunfal no local onde se construía a estação de Itaúna. 

O cenário que se desenhou foi de comoção coletiva: uma multidão estimada em dez mil pessoas se reuniu para saudar a locomotiva com vivas aos nomes dos senhores Chagas Dória, Ministro da Viação, e do próprio dr. Berredo. O som de três bandas de música, o estouro de foguetes e os aplausos fervorosos criaram uma atmosfera de festa nacional.

Mas o momento mais simbólico e encantador se deu quando a locomotiva foi coberta por pétalas de rosas e confetes, lançados por um cordão encantador de moças e meninas do grupo escolar, como se a modernidade fosse recebida com bênçãos floridas e pura poesia popular. Era mais que uma recepção: era um ritual de acolhimento, de reconhecimento da importância daquela conquista para a vida de todos.

A cerimônia seguiu com discursos públicos representativos: Santiago, como porta-voz do Conselho Municipal, e Enéias Chaves, falando pelas classes comerciais e jurídicas. Também tomaram a palavra o Reverendo Padre Manoel Maria e o inspetor estadual Francisco Jota. Todos saudaram e homenagearam o feito da chegada do trem como um símbolo de desenvolvimento e progresso.

Após o desembarque, os convidados seguiram ao palacete municipal para um requintado lanche, onde novos discursos celebraram o feito. Encerrando o evento, o chefe político local e médico, dr. Augusto Gonçalves de Souza, elevou o brinde de honra, sintetizando o orgulho do povo itaunense. À noite, a vila foi palco de um elegante sarau, com a presença de oitenta senhoritas vestidas com apuro e elegância, simbolizando o refinamento e a vitalidade de uma comunidade em plena transformação.

Naquela época, Itaúna era descrita como uma vila florescente, com cerca de 3 mil habitantes, localizada na fralda da serra homônima, a 95 km de Belo Horizonte. Contava com cinco fábricas (de tecidos, cerveja, sapatos, pregos, ferraduras e manteiga) e já se preparava para a instalação da iluminação elétrica e de uma nova tecelagem. Ou seja, a chegada do trem era apenas uma das engrenagens de um ciclo promissor de industrialização e modernidade.

Convidamos os leitores e leitoras a refletirem sobre esse momento singular da história local, a partir do registro vívido e emocionante da imprensa da época. A chegada do primeiro trem a Itaúna foi muito mais que um evento logístico: foi um ato simbólico, uma festa popular, um gesto de esperança no futuro. Um dia em que a vila parou para celebrar a ferrovia como vetor de transformação e o fez com música, flores, discursos e fé no progresso.


Que esse registro inspire novas gerações a valorizar a memória, o patrimônio e a história de Itaúna.


Referência:

Elaboração e pesquisa: Charles Aquino

Fonte: Jornal “Pharol”, Juiz de Fora, MG, quinta-feira, 16 de março de 1911,  Ed. 60, p. 1.   

Hemeroteca Digital Brasileira

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

 

segunda-feira, dezembro 15, 2025

ITAÚNA A ROMA (1950)

Travessia de Fé: de Itaúna a Roma a bordo do Vapor Duque de Caxias (1950)

Em 1950, o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII mobilizou milhões de católicos em todo o mundo. No Brasil, a celebração foi marcada por um feito inédito: a organização da Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, coordenada por monsenhor Helder Câmara

A iniciativa combinou espiritualidade, articulação política, ousadia logística e profunda sensibilidade pastoral. Este artigo analisa os principais aspectos dessa jornada marcante, destacando sua dimensão religiosa, social e política, bem como a atuação carismática de Helder Câmara.

Embora já fosse uma figura nacional da Igreja e da Ação Católica, Helder Câmara ainda não havia feito nenhuma viagem internacional. O desejo de conhecer Roma e o Vaticano se concretizou quando foi convidado a colaborar na organização da peregrinação brasileira ao Ano Santo.

Em Itaúna, Minas Gerais, os “sinos” da Igreja da Matriz de Sant’Anna repicaram mais altos do que nunca. Era a manhã de 27 de abril, e a cidade vivia um momento de fervor e despedida. No altar principal, o Padre José Ferreira Neto ( Padre Zé Neto ) celebrava a missa de envio dos peregrinos que partiriam rumo a Roma para o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII.

Ao seu lado, as senhoritas Ivolina Gonçalves, Maria Jardim Guimarães, Divina Coutinho, Angélica Lenti, Lídia Braz e o Padre Waldemar Teixeira, da vizinha Maravilhas. A cerimônia foi um misto de emoção, lágrimas e esperança. A pequena Itaúna, de alma interiorana, preparava-se para cruzar o Atlântico e chegar ao coração da cristandade.

Após a missa, a caravana embarcou em um micro-ônibus especial rumo a Belo Horizonte e, de lá, tomou um voo da Aerovias para o Rio de Janeiro — aventura inédita para a maioria. No porto, aguardavam centenas de fiéis vindos de todo o país. Era a Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, organizada por Dom Helder Câmara, figura em ascensão na Igreja brasileira.

Com apoio de dom Rosalvo Costa Rego e intervenção direta junto ao presidente Eurico Gaspar Dutra, obteve-se o navio-escola Duque de Caxias da Marinha brasileira. Além da embarcação, o governo isentou os fiéis da exigência de passaporte e concedeu licença aos funcionários públicos que participassem da peregrinação. 

O Duque de Caxias, de 135 metros de comprimento e mais de 6.900 toneladas, já tinha percorrido os mares da guerra. Construído nos Estados Unidos em 1918 sob o nome Orizaba, transportara tropas nas duas Guerras Mundiais

Em 1945, chegou ao Brasil e trouxe de volta os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Dois anos depois, em 1947, foi cenário de uma tragédia: um incêndio vitimou 27 pessoas. Reformado, renasceu com um novo destino: de navio de guerra, tornou-se navio de paz, e, em 1950, seria palco da maior peregrinação religiosa do país.

Na manhã de 30 de abril, o cais do Rio de Janeiro estava tomado por familiares e curiosos. O sol iluminava a Baía da Guanabara, e a multidão agitava lenços e bandeirinhas. O apito grave do Duque de Caxias ecoou sobre as águas, e a embarcação começou a se mover. Dom Helder, emocionado, dirigiu-se aos peregrinos:

“Não é uma viagem de turismo. É uma peregrinação de fé. Cada sacrifício será parte da bênção.”

O navio partiu lentamente, levando a bordo mais de 1.300 peregrinos — embora sua capacidade fosse de 800. Lá estavam padres, freiras, idosos, jovens e famílias inteiras. Entre eles, o grupo de Itaúna, guiado pela firmeza e serenidade do Padre Zé Neto.

Durante os 22 dias de travessia, o Duque de Caxias se transformou em uma cidade flutuante. As cabines tornaram-se capelas, o convés virou espaço de procissões e orações. O enjoo do mar e o calor sufocante dos camarotes foram vencidos pela alegria dos hinos e pela fé compartilhada confortava os peregrinos adoecidos.

Outro episódio curioso marcou a viagem: diante das dificuldades enfrentadas pelas enfermeiras, foi autorizado o uso de calças compridas pelas mulheres, até então proibido no regulamento do navio. A decisão foi recebida com aplausos — símbolo da fé que se renova sem perder a essência.

Roma: o encontro com o Papa

O Duque de Caxias fez paradas em Salvador e Recife, e após sete dias de mar aberto, os peregrinos avistaram a ilha de Tenerife, nas Canárias (“terra natal do Padre Anchieta”), como escreveu Padre Zé Neto. No dia 19 de maio, chegaram à cidade italiana de Nápoles e, dois dias depois, seguiram rumo a São João de Latrão, em Roma.

O ápice da peregrinação aconteceu em 24 de maio de 1950, quando os brasileiros foram recebidos em audiência pelo Papa Pio XII, na Basílica de São Pedro. O relato no Livro Tombo de Itaúna é comovente:

“Foi um momento de grande comoção quando apareceu no fundo da Basílica a figura cândida de Pio XII. Falou diretamente aos brasileiros em português. Tive a felicidade de tocar em sua mão sagrada.”

Era a voz do Padre José Ferreira Neto, o vigário de Itaúna, que registrava com suas próprias palavras o instante em que tocou as mãos do Papa, gesto que uniria para sempre a fé de um povo mineiro à história da Igreja Universal.

A jornada prosseguiu por Assis, Florença e Pisa, com paradas de oração e contemplação. Em Pistóia, os peregrinos visitaram o Cemitério Militar Brasileiro, onde repousavam os soldados da FEB — o mesmo exército que o Duque de Caxias havia transportado anos antes. Na volta, o navio fez escalas em Marselha, Lisboa, Fátima, Sintra, Cascais e Estoril, unindo espiritualidade e cultura.

Dom Helder, que retornou antes ao Brasil de avião, deixara organizado um segundo grupo para setembro daquele ano, que viajaria no navio Geni — a chamada “Segunda Peregrinação”. Assim nasceram dois nomes simbólicos: os duquistas, do Duque de Caxias, e os genianos, do Geni.

O retorno

O grupo itaunense chegou a Itaúna em 5 de julho de 1950, após mais de dois meses de viagem. A recepção foi apoteótica. O Padre Silvério organizou uma grande celebração. O prefeito Dr. Antônio de Lima Coutinho, o Dr. José Luiz Guimarães e o jovem Guaracy Nogueira discursaram na porta da Matriz, e tudo foi transmitido ao vivo pela recém-inaugurada Rádio Clube de Itaúna (ZY-Z4), que seria oficialmente inaugurada e abençoada dias depois, em 9 de julho.

“Itaúna sentiu orgulho dos filhos que cruzaram o oceano pela fé”, escreveu Padre Zé Neto no encerramento do registro.

A Peregrinação de 1950 marcou para sempre a história religiosa de Itaúna. Foi a união entre a fé simples do interior e a universalidade da Igreja. Para o Brasil, foi o símbolo de um tempo novo: a espiritualidade popular ganhava força, e Dom Helder Câmara, inspirado pela experiência, daria origem à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952.

O Vapor Duque de Caxias, que um dia transportara soldados e feridos, transformou-se em navio de oração. E o gesto de Padre José Ferreira Neto, ao tocar as mãos do Papa Pio XII, ficou para sempre gravado como o símbolo máximo dessa travessia.

Mais de sete décadas depois, as páginas do Livro Tombo II ainda guardam o perfume do incenso daquela missa de envio. E quando se fala em Itaúna e Roma, é importante recordar de que um dia o mar uniu Minas à Cidade Eterna e que um sacerdote levou consigo, nas mãos estendidas ao Papa, a fé viva de todo um povo.




Referências:

Realização e pesquisa: Charles Aquino

Dom Hélder Câmara: o profeta da paz, Walter Praxedes, Nelson Piletti. Editora Contexto, 2009, p. 145-151.

Livro do Tombo II, 1950,  p. 9. Paróquia Santana de Itaúna/MG.

NAVAL — Navios de Guerra Brasileiros. NGB – Duque de Caxias (D-068). Disponível em: https://www.naval.com.br/ngb/D/D068/D068.htm. Acesso em: 24 out. 2025.

MARINHA DO BRASIL. Duque de Caxias : navio-auxiliar/navio-escola (31 jul. 1945-16 maio 1958). Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, s.d. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/dphdm/sites/www.marinha.mil.br.dphdm/files/DuquedeCaxiasNavioAuxiliarNavioEscola1945-1958.pdf. Acesso em: 24 out. 2025.

 

sexta-feira, novembro 28, 2025

MENÇÃO HONROSA: PEDRA NEGRA

Monografia sobre o Reinado de Itaúna recebe 1ª Menção Honrosa no Concurso Sílvio Romero 2025

O resultado preliminar do Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular – edição 2025, promovido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan),trouxe uma notícia de grande relevância para Itaúna e para os estudos sobre cultura popular no Brasil.

Entre as 121 monografias inscritas de todas as regiões do país, o trabalho “Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente”apresentado sob o pseudônimo Pedra Negra, do historiador itaunense Charles Galvão de Aquino, recebeu a 1ª Menção Honrosa, reconhecimento que o coloca ao lado das pesquisas mais inovadoras e consistentes deste ano no campo do folclore e das tradições afro-brasileiras.

A conquista é representativa não apenas pelo resultado em si, mas pelo que simboliza para a cidade de Itaúna e para os debates contemporâneos sobre patrimônio, memória e identidade. O Concurso Sílvio Romero, criado em 1959, é um dos mais tradicionais certames acadêmicos do país.

As monografias vencedoras passam por um processo rigoroso de avaliação, conduzido por uma comissão de pesquisadoras e pesquisadores de instituições como UFBA, UFMG, UFRGS, UnB, UFF e UFMT, referência nacional em antropologia, história, cultura popular e música. 

Esses especialistas analisam cada trabalho a partir de critérios que incluem contribuição teórica, originalidade temática, domínio bibliográfico, consistência argumentativa e clareza na apresentação dos resultados. Em outras palavras, não se trata de um prêmio de participação, mas de um espaço onde apenas pesquisas com real densidade acadêmica ganham destaque.

Neste contexto altamente competitivo, a menção honrosa atribuída ao trabalho evidencia que o estudo sobre o Reinado, o Congado e o adro do Rosário em Itaúna alcançam um nível de maturidade intelectual que dialoga com agendas nacionais e com debates consolidados sobre religiosidade afro-brasileira, memória coletiva, territórios sagrados e patrimônio cultural.

O texto premiado demonstra que o adro do Rosário não é apenas um espaço físico, mas um território ritual e histórico onde narrativas, práticas e símbolos afrodescendentes resistiram e se reinventaram ao longo do tempo, mesmo diante de repressões, tentativas de silenciamento e transformações urbanas. 

Essa perspectiva interdisciplinar coloca Itaúna em posição de destaque ao reconhecer que suas celebrações e tradições não são manifestações periféricas, mas elementos essenciais da herança cultural brasileira.

Ao tratar o adro do Rosário como um “território sagrado da memória afrodescendente”, o estudo ilumina práticas de fé, redes de solidariedade e formas de resistência que estruturaram a experiência negra no município e continuam a moldar sua identidade cultural.

O reconhecimento nacional, portanto, fortalece reivindicações em torno da preservação do patrimônio material e imaterial, especialmente no Morro do Rosário de Itaúna/MG.

Ao receber a 1ª Menção Honrosa, o trabalho Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna ganha visibilidade pública e passará a integrar o acervo da Biblioteca Amadeu Amaral do CNFCP, onde poderá ser consultado por pesquisadores, estudantes e instituições interessadas no tema.

Isso contribui não apenas para difundir o nome de Itaúna e de sua tradição centenária, mas também para ampliar o debate sobre a memória afrodescendente no interior de Minas Gerais, aproximando a cidade de outras pesquisas nacionais sobre congados, reinados e religiosidades negras.

A premiação abre portas importantes para o fortalecimento das políticas culturais locais, já que legitima a relevância do Reinado e do adro do Rosário enquanto patrimônios coletivos.

Num momento em que muitas manifestações de matriz africana ainda enfrentam preconceito, marginalização e disputas simbólicas, ver um estudo sobre Itaúna ser destacado entre tantas pesquisas de alta qualidade reafirma a necessidade de valorização das tradições negras como fundamento da cultura brasileira.

Sob o pseudônimo Pedra Negra, a pesquisa reconhecida nacionalmente demonstra que o interior mineiro produz conhecimento capaz de transformar debates, ampliar horizontes e reposicionar histórias que por muito tempo foram relegadas aos bastidores.

A 1ª Menção Honrosa do Concurso Sílvio Romero 2025 não celebra apenas um pesquisador: celebra o Reinado, celebra a memória do Rosário e celebra a força ancestral que moldou — e continua moldando — Itaúna como um território vivo de fé, resistência e pertencimento.



Resumo: Esta monografia analisa o Reinado, o folclore e a cultura popular em Itaúna, tomando o adro da Capela do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente. O Reinado de Nossa Senhora do Rosário é interpretado como prática religiosa e política, na qual fé, ancestralidade e resistência se entrelaçam de forma coletiva. Embora o antigo cemitério tenha sido suprimido em sua estrutura física, abriga os restos mortais de centenas de afrodescendentes, configurando-se como espaço de pertencimento, dignidade histórica. 

A pesquisa demonstra como a cultura popular afro-brasileira transforma o esquecimento em presença simbólica viva. Diante da desatenção histórica e do apagamento dessa dimensão funerária, o trabalho defende o reconhecimento do antigo cemitério do adro como patrimônio imaterial, imprescindível à história negra e à construção da identidade cultural itaunense.


quinta-feira, novembro 13, 2025

PADRE ROSSINI

Rossini Cândido Nogueira nasceu em Itaúna, Minas Gerais, a 28 de maio de 1902, época em que a cidade ainda assimilava as transformações do final do século XIX e início do XX, marcada por forte religiosidade popular, sociabilidade comunitária e crescente valorização da instrução escolar. 
Seu nascimento foi registrado no Livro Tombo da Paróquia de Sant’Ana de Itaúna, onde consta que era filho natural de Isaltina Cândida, sendo batizado no dia 7 de julho de 1902 pelo Monsenhor Fernando Barbosa. Seus padrinhos foram o Major Senocrit Nogueira e Isma Maria de Jesus.

A presença do Major Senocrit como padrinho não se limitou ao simples ato sacramental: tratou-se de uma figura decisiva na vida do menino Rossini.

Homem influente, de recursos e grande prestígio na sociedade itaunense, Senocrit assumiu para si a responsabilidade pela educação, formação intelectual e, sobretudo, pela sustentação material da vocação religiosa do afilhado.

Foi ele quem financiou seus estudos e, reconhecendo a nobreza e o brilho de sua inteligência, incentivou sua entrada no seminário. Não por acaso, o próprio Rossini posteriormente incorporaria o sobrenome Nogueira — herança espiritual e afetiva do padrinho que o ajudou a se tornar quem foi.

Desde muito cedo, Rossini revelou sinais claros de vocação sacerdotal. Já em criança demonstrava inclinação para a vida de oração, docilidade, espírito de serviço e grande interesse pelas coisas do altar.

O historiador João Dornas Filho, que conheceu de perto a realidade cultural de Itaúna, afirmou que o menino Rossini era dotado de “viva inteligência” e desde criança manifestava uma “piedosa vocação para o sacerdócio”. Frequentou as primeiras letras no Grupo Escolar local e, posteriormente, aprofundou seus estudos com professores que perceberam imediatamente seu talento excepcional.

Entre seus mestres estavam professor José Gonçalves de Melo, respeitado educador, e Padre João Ferreira Álvares da Silva, figura intelectual de destaque no clero itaunense. Este último exerceu papel fundamental ao reconhecer não apenas a vocação, mas o brilhantismo do jovem Rossini.

Foi Padre João Ferreira quem o encaminhou ao Seminário de Mariana, conseguindo sua admissão em 1917, quando o menino tinha apenas quinze anos. A partir desse momento, iniciava-se uma trajetória que combinaria disciplina monástica, rigor acadêmico e profunda espiritualidade.

No seminário de Mariana, Rossini destacou-se imediatamente. Tornou-se aluno distinto, querido pelos colegas e especialmente estimado pelo arcebispo Dom Silvério Gomes Pimenta, o grande intelectual da Igreja mineira e figura central da vida religiosa do início do século XX. 

A amizade entre o jovem seminarista e o venerável arcebispo ficou registrada por Dornas Filho, que o definiu como “dileto amigo” de Dom Silvério — privilégio raríssimo, sinal inequívoco do brilho do seminarista itaunense.

Em 1923, com a fundação do Seminário Eucarístico em Belo Horizonte, Rossini foi transferido para a capital, continuando seus estudos e acumulando responsabilidades intelectuais: além de seminarista destacado, tornou-se professor no novo seminário criado pelo recém-nomeado arcebispo D. Antônio dos Santos Cabral. Ali completou sua formação teológica, consolidando um perfil equilibrado entre o saber acadêmico e a mística da vida sacerdotal.

Finalmente, no dia 29 de maio de 1927, Rossini Cândido Nogueira recebeu a Ordenação Sacerdotal, coroando dez anos de formação e dedicação. Poucos dias depois, retornaria triunfalmente à sua terra natal para celebrar a Primeira Missa, evento que ficaria para sempre gravado na memória coletiva de Itaúna.

No dia 5 de junho de 1927, ao chegar na Estação Ferroviária, encontrou um cenário de emoção incomum: segundo o Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana, a plataforma estava “apinhada de povo como nunca se vira”. Famílias inteiras, crianças em uniforme escolar, autoridades civis e religiosas, irmandades e pessoas simples, todas reunidas para acolher seu primeiro filho sacerdote ordenado após muitos anos.

O professor Anselmo Rosset, em discurso vibrante, saudou-o em nome da cidade, exaltando tanto sua vocação quanto o orgulho cívico daquela geração. Padre Rossini respondeu com profunda comoção, dizendo que aquela recepção possuía “duplo caráter de fé e de civismo”.

No dia seguinte, celebrou sua Missa solene na Matriz de Sant’Ana, paramentado ricamente e acompanhado liturgicamente por figuras de prestígio: Monsenhor João Alexandre, Padre Cornélio Pinto e o Vigário Geral, Monsenhor João Rodrigues de Oliveira. Uma excelente orquestra abrilhantou a celebração, e o sermão foi proferido pelo Padre João Vernusia, que tomou como tema a profunda pergunta: “Sacerdos, quis es tu?” — “Sacerdote, quem és tu?”

Ao final, o jovem padre apresentou suas mãos ungidas ao povo para o tradicional beijo, que se fez “com muito respeito”, conforme o Tombo registra.

Aquele dia terminou com homenagens, discursos e um almoço solene no Club Itaunense, conforme registra Dornas Filho. A população via em Rossini não apenas o sacerdote recém-ordenado, mas um símbolo da ascensão cultural e espiritual da própria cidade.

Poucos anos depois, sua vida pastoral ganharia novos rumos. Em 31 de dezembro de 1928, foi nomeado vigário da Paróquia de São Gonçalo da Contagem pelo arcebispo Dom Antônio Cabral. Sua posse ocorreu em 20 de janeiro de 1929, conforme ata lavrada por Monsenhor João Rodrigues de Oliveira.

A solenidade foi simples, seguindo o ritual canônico: leitura da provisão, entrega do templo e assinatura pelo novo pároco. Em Contagem, Padre Rossini teria uma atuação marcada pela humildade, zelo pastoral, dedicação silenciosa e atenção profunda aos pobres, doentes e crianças.

A fase final de sua vida, no entanto, é descrita com grande riqueza pelo jornal O Lampadário, edição 791, de 21 de junho de 1941, órgão oficial da Diocese de Juiz de Fora. Ali lemos o relato comovente de sua morte repentina, ocorrida no domingo anterior, após celebrar a Santa Missa. Naquele dia, seu sermão girou em torno de uma só frase, repetida com força espiritual: “Estote parati! Estai preparados!”

A pregação tratava da vigilância cristã, baseada em Lucas 12,37: “Bem-aventurado o servo a quem o Senhor achar vigilante quando vier.”

Pouco depois de proferir esse sermão — chamado pelo jornal de “o grande sermão da vida, sermão mudo, mas eloquente” — Padre Rossini sofreu um mal súbito e faleceu. Uma hora após ele despedir o povo com o “Ite, Missa est”, outro sacerdote já iniciava a Missa de corpo presente.

Sua morte, aos 39 anos, causou enorme comoção. Durante todo o dia, a população formou longas filas para se despedir; muitos ajoelharam diante do corpo; sua mãe, Dona Isaltina, recebeu homenagens tocantes. A Missa de Réquiem, celebrada no dia seguinte, reuniu grande parte do clero mineiro, além de representantes do arcebispo de Belo Horizonte e do bispo de Juiz de Fora. O cortejo fúnebre, descrito como “imponente e silencioso”, revelou a dimensão do amor e do respeito conquistados pelo sacerdote.

O Lampadário resumiu sua existência com a frase latina:

“Subita mors — Sacerdoctum sors.”  “Uma morte súbita — a sorte dos sacerdotes.”

E completou com o versículo evangélico que ele próprio havia pregado minutos antes de partir: “Bem-aventurado o servo que o Senhor achar vigilante.”

Assim foi Rossini Cândido Nogueira: sacerdote desde a infância, brilhante aluno dos seminários de Mariana e Belo Horizonte, afilhado amado e protegido do Major Senocrit Nogueira, filho exemplar de Itaúna, pastor humilde e trabalhador em Contagem, e, sobretudo, um homem que viveu e morreu no altar, consumindo a própria vida no mesmo ato sagrado que dava sentido à sua existência.

Sua história, embora breve, é luminosa e sua memória permanece como testemunho de fidelidade, pureza e entrega total ao chamado de Deus.

Hoje, no Cemitério Central de Itaúna, repousam lado a lado os túmulos do Major Senocrit Nogueira e de Padre Rossini Cândido Nogueira, uma proximidade que não é apenas física, mas profundamente simbólica. 

O gesto de sepultá-los juntos perpetua, em pedra e silêncio, o laço espiritual e humano que os uniu em vida: o padrinho que assumiu papel paternal, custeou a educação, moldou o destino e deu o sobrenome ao afilhado; e o sacerdote que, graças à generosidade e ao amparo desse benfeitor, pôde florescer como um dos mais brilhantes ornamentos do clero mineiro.

Major Senocrit: figura central na articulação da emancipação político-administrativa de Itaúna e verdadeiro guardião da formação intelectual do jovem Rossini — permanece, mesmo após a morte, como sentinela discreto ao lado daquele cuja vocação ajudou a sustentar. Assim, os dois descansam juntos como repousa uma obra ao lado de seu artífice; como se o próprio tempo tivesse reconhecido que a história de um não se completa sem a do outro.

  NOTA FINAL

Há muitos anos, desde minhas primeiras leituras do livro Itaúna: Contribuição para a História do Município (1936), de João Dornas Filho, carreguei comigo o desejo de aprofundar a trajetória do Padre Rossini Cândido Nogueira. Dornas, ao registrar algumas linhas sobre o sacerdote itaunense, despertou em mim a certeza de que ali havia uma história maior, mais rica e quase esquecida, à espera de ser resgatada.

No entanto, durante muito tempo, encontrei pouquíssimas informações adicionais: fragmentos dispersos, registros isolados, ecos tênues da memória de um homem que, apesar de sua breve existência, marcou profundamente a vida religiosa da cidade.

Sempre soube que um dia o tempo apresentaria a oportunidade necessária para preencher essas lacunas. E esse momento chegou de forma inesperada e profundamente feliz.
Recebi uma mensagem do jovem Dalmo Assis de Oliveira, conhecido popularmente como Dalminho, que, por indicação do pesquisador Alexandre Campos, desejava contribuir com documentos e informações históricas sobre o Padre Rossini. Ao abrir seus arquivos e estudos, fiquei maravilhado: eram dados preciosos, registros raros, recortes antigos, imagens, narrativas e detalhes que eu jamais havia encontrado.

Graças ao empenho de Dalmo, que durante anos reuniu silenciosamente esse material, foi possível reconstruir, com rigor e sensibilidade, uma biografia antes incompleta. Suas contribuições permitiram entrelaçar documentos de época, relatos familiares, registros paroquiais e pesquisas acumuladas ao longo da minha própria jornada, resultando em um texto que devolve ao Padre Rossini o lugar que lhe é devido na memória de Itaúna.

Compreendi, naquele instante, que a história, mais uma vez, se fazia presente de forma generosa. Através de encontros inesperados, ela nos oferece as chaves para abrir portas há muito fechadas, permitindo que registremos, preservemos e honremos a vida de pessoas que,  como o Padre Rossini e aqueles que o acompanharam, contribuíram para a formação espiritual, cultural e humana do nosso município.

Este trabalho, portanto, é mais do que uma biografia. É um ato de resgate, um gesto de gratidão e uma reafirmação de que a memória histórica de Itaúna continua viva graças a todos os que se dispõem a compartilhá-la, preservá-la e ampliá-la.



Referências:

Realização e pesquisa: Charles Aquino

Colaboração, Acervo e Pesquisa: Dalmo Assis de Oliveira

DORNAS FILHO, JoãoItaúna: contribuição para a história do município. Belo Horizonte: [s.n.], 1936. p. 120-121

O LAMPADÁRIO: órgão oficial da Diocese de Juiz de Fora. Juiz de Fora, ano XVI, n. 791, 21 jun. 1941.

LAR CATHOLICO. Juiz de Fora: Missionários do Verbo Divino, ano XV, n. 28, 10 jul. 1927, p. 223.

LIVRO BATISMOSArquivo Eclesiástico de Itaúna/MG. "Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica. FamilySearch (https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HT-6X77-ZTC?wc=M5NS-GP8%3A370040701%2C369941902%2C370074301%26cc%3D2177275&lang=pt&i=45&cc=2177275 ): 13/11/2025),  Santana > Batismos 1901, Dez-1918, Nov > image 46 of 398; Paróquias Católicas (Catholic Church parishes), Minas Gerais.

LIVRO DO TOMBO - Paróquia Santana de Itaúna/MG (1902-1947), p. 15, 15v.

PARÓQUIA DE SÃO GONÇALO DA CONTAGEM. Ata de posse do Reverendo Padre Rossini Cândido Nogueira. Livro do Tombo, Contagem–MG, 20 jan. 1929.

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto e acervo. 

quarta-feira, novembro 12, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE VIII)

O texto assinado pelo engenheiro Hudson Santos revela um momento decisivo no debate sobre a preservação da memória urbana de Itaúna, no final da década de 1970 — discussão que se intensificaria ao longo da década de 1980.

 Trata-se de um documento que expressa, com clareza e urgência, a preocupação com o risco de perda definitiva do antigo hospital — edifício que, para além de sua função original, cristalizou valores identitários, afetivos e culturais de gerações itaunenses.

O autor situa o hospital como símbolo do passado arquitetônico local e, sobretudo, como um marco da construção coletiva da cidade. 

Ao enfatizar que “o hospital velho é memória”, ele reconhece o patrimônio não apenas como matéria — tijolos, paredes, telhado — mas como expressão viva da história social, das práticas assistenciais e filantrópicas e da formação da identidade comunitária.

Em seu apelo ao poder público, o texto demarca um período em que Itaúna enfrentava dilemas comuns às cidades brasileiras de média dimensão nas décadas finais do século XX: modernização urbana acelerada, especulação imobiliária e abandono de edificações históricas. Esse cenário muitas vezes colocava o passado em confronto com o presente — e a memória coletiva em posição vulnerável.

A narrativa enfatiza a ação destrutiva do tempo sobre os edifícios históricos. Tal leitura ecoa as discussões contemporâneas de preservação, que reconhecem que o maior inimigo do patrimônio cultural nem sempre é a demolição direta, mas o abandono silencioso e progressivo, capaz de transformar bens materiais em ruínas. 

Cada dia de “descuido”, afirma Hudson, é uma agressão à memória — uma frase que sintetiza o drama do patrimônio em cidades que naturalizam o esquecimento.

Essa visão coincide com princípios defendidos pela UNESCO e por intelectuais como Alois Riegl e Pierre Nora, para quem monumentos, lugares de memória e testemunhos arquitetônicos são pilares da memória social e da consciência histórica.

Ao afirmar que “é no passado cultural de uma civilização que encontramos a chave para o futuro”, o autor se posiciona contra uma ideia de modernidade que rompe com suas próprias raízes. O apelo ultrapassa a preservação física do edifício e atinge uma dimensão simbólica: restaurar é também restaurar o elo social com a história.

Essa perspectiva é fundamental para a compreensão do patrimônio como recurso de identidade, pertencimento e educação histórica — valores que hoje pautam políticas culturais em nível nacional e internacional.

O texto demonstra que a defesa do hospital não era isolada, mas compartilhada por outros moradores atentos ao destino da cidade. A carta assume tom de manifesto: convoca autoridades e sociedade à responsabilidade coletiva sobre o bem cultural.

Essa postura reforça a importância da participação social nos processos de preservação e antecipa debates atuais sobre patrimônio participativo, memória democrática e cidadania patrimonial.

A carta de Hudson Santos é, por si só, documento histórico de grande relevância. Ela representa não apenas a defesa de um edifício, mas a reivindicação do direito à memória, ao legado cultural e à história compartilhada dos itaunenses.

Hoje, diante do processo de restauração em curso do "Hospital Velho" (Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira), o texto ganha novo significado: torna-se testemunho da resistência da memória frente ao abandono, e símbolo da vitória da preservação sobre o esquecimento.

A permanência — mesmo após anos de espera — confirma o que o engenheiro antecipava: salvar o patrimônio não é um capricho nostálgico, mas um dever para com a cidade e suas gerações futuras.

PATRIMÔNIO CULTURAL X RESTAURAÇÃO

A restauração do hospital velho é viável e possível, mas qualquer trabalho de restauração é um empreendimento de alto custo e de grande morosidade. No entanto, é um trabalho que precisa ser feito. O tempo, nas velhas construções, age como mortal inimigo, destruindo-as totalmente ou reduzindo-as a um monte irreconhecível de escombros. 

Cada dia de descuido — ou mesmo de descaso — pode ser fatal ao patrimônio ou implicará em aumento no custo da restauração. Cada dia de descuido — ou mesmo de descaso — é um crime contra a mesma memória histórica e cultural.

Desta forma, apresento ao prefeito municipal e aos senhores vereadores, o meu apelo (e de tantos outros itaunenses), para que nossa jovem — e já fraca — memória municipal, não sofra mais uma perda. Não deixem que escombros venham a ocupar o lugar de uma possível casa de cultura ou mesmo uma faculdade.

O hospital velho é memória. É o passado arquitetônico itaunense, grande referência de nossa história. É no passado cultural de uma civilização que encontramos a chave para o futuro.

HUDSON SANTOS

Engenheiro Geólogo 

 

 Referência:

Organização e arte: Charles Aquino

Jornal ITA VOX - 1979/1980  

terça-feira, outubro 28, 2025

GABRIEL: O FUNDADOR

Gabriel da Silva Pereira: o Fundador de Sant’Ana do Rio São João Acima (Itaúna/MG)

A história de Itaúna, antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, nasce das trilhas abertas pelos desbravadores que, no início do século XVIII, deixaram o litoral e adentraram os sertões em busca de ouro, terras e novas devoções. 

Entre esses pioneiros, um nome ergue-se como símbolo da origem da cidade: Gabriel da Silva Pereira, português da província do Minho, homem de fé, minerador, sertanista e fundador do núcleo que se tornaria o coração de Itaúna/MG.

Mais que um simples colonizador, Gabriel representou o elo entre dois mundos: o europeu e o bandeirante, a disciplina régia e a religiosidade popular. Sua trajetória, assim como a de sua esposa Florência Cardoso de Camargo, descendente direta do bandeirante João Lopes de Camargo, uniu as tradições de Portugal e São Paulo, fixando em terras mineiras o início de uma longa linhagem que moldou a sociedade itaunense.

Gabriel da Silva Pereira era natural de Barcelinhos, freguesia às margens do rio Cávado, no Concelho de Barcelos, Arquidiocese de Braga, província do Minho, norte de Portugal, região de antigas tradições rurais e religiosas. Consta, embora sem comprovação documental definitiva, que era filho do Juiz de Vintena Joaquim Pereira, homem de posição e influência local.

Chegou ao Brasil ainda jovem, com menos de vinte anos, no final do século XVII, em meio ao movimento migratório de portugueses atraídos pelas recém-descobertas minas de ouro. Por volta de 1720, Gabriel encontrava-se firmemente estabelecido nos sertões do rio São João, em território que mais tarde formaria Itaúna, possuindo escravos e trabalhando na mineração aurífera e na ocupação das margens dos rios São João, Manso e Paraopeba.

Gabriel fixou residência definitiva na paragem do rio São João, onde ergueu as primeiras moradias e roças, abrindo a picada que ligava Bonfim a Pitangui, percurso de dezoito léguas (cerca de 108 km). Essa antiga rota, margeando o rio São João até a foz do rio Pará, foi o caminho que deu origem ao núcleo do atual município de Itaúna.

Naquela época, o sertão mineiro era território de risco e de promessas. Gabriel manteve estreitas relações com os desbravadores Thomaz Teixeira, Manoel Neto de Mello e Manoel Teixeira Sobreira, todos ligados à família do bandeirante João Lopes de Camargo, cujas filhas vieram a casar-se com esses pioneiros, estabelecendo alianças familiares e econômicas que estruturaram o domínio da região.

Florência Cardoso de Camargo: Herdeira do Sangue Bandeirante

Gabriel da Silva Pereira casou-se com Florência Cardoso de Camargo, descendente direta do bandeirante João Lopes de Camargo, unindo, assim, as tradições portuguesas de Barcelos ao sangue bandeirante paulista. O casal teve filhos "legítimos" e também filhos "naturais", aos quais Gabriel concedeu terras e dotes, garantindo-lhes sustento e posição. 

Entre eles destacam-se Timóteo da Silva Pereira, casado com Antônia Maciel, e Francisca da Silva Pereira, esposa de Manoel Pinto Madureira, ambos estabelecidos nas sesmarias do Pará e São João.

Esses filhos e genros herdaram as propriedades que originaram fazendas, sítios e povoados rurais que se tornaram o embrião do território itaunense. Os filhos legítimos receberam as principais terras como dote e herança, perpetuando o patrimônio da família Pereira-Camargo-Madureira.

Casada com Gabriel da Silva Pereira em 12 de agosto de 1739, na Capela de São Francisco Xavier, freguesia de Cachoeira do Campo, Florência Cardoso de Camargo nasceu em 1719, na Fazenda Ribeirão do Gama, freguesia de São Sebastião (atual distrito de Bandeirantes, Mariana/MG). Era filha do bandeirante João Lopes de Camargo, um dos grandes desbravadores do interior mineiro.

Florência faleceu em 25 de setembro de 1800, sendo sepultada na Capela de Santana, em Santana do Rio São João Acima — local onde hoje se ergue a Igreja Matriz de Itaúna, símbolo da continuidade da fé e da memória da fundadora.


Seu inventário, arquivado no IHP - Instituto Histórico de Pitangui, teve sentença de partilha proferida em 22 de novembro de 1834. Entre os descendentes, destaca-se o Padre José Teixeira de Camargo, que em 1814 figurava como administrador e testamenteiro, reforçando a vocação religiosa que atravessou gerações.

A tradição local registra que, por volta da terceira década do século XVIII, Gabriel da Silva Pereira foi o responsável pela fundação do povoado da “Paragem do São João Acima” ao erguer um oratório. Esse gesto de fé, típico dos fundadores do período colonial, representou não apenas um ato devocional, mas o verdadeiro marco simbólico do nascimento do arraial. Em torno desse templo primitivo cresceram as casas, as lavras, as famílias e a fé — base sobre a qual se edificaria o futuro município de Itaúna/MG.

LEGADO HISTÓRICO

Gabriel da Silva Pereira recebeu o posto de Sargento-Mor, título dado a homens de reconhecido prestígio, posses e serviços à Coroa. Em 1724, já figura como irmão da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Cachoeira do Campo, fundada em 1716, o que confirma sua inserção no universo religioso e político da época.

Em 1741, já como morador de Cachoeira do Campo, o Sargento-mor Gabriel obteve uma sesmaria de meia légua em quadra no Paraopeba, em terras limítrofes às de Manoel Teixeira Sobreira, Manoel Pereira da Cruz, Domingos de São José e Silva e outros. A carta de concessão menciona que as medições foram feitas “fazendo pião em um pau grosso de gameleira”, descrição típica das demarcações coloniais do período.

Posteriormente, entre 1751 e 1754, recebeu outras duas sesmarias: uma nas cabeceiras do rio São João, termo de Pitangui, e outra na Paragem do Rio Pará, onde estabeleceu seus filhos e genros. Nessas terras, desenvolveram-se lavras de ouro, currais e roças, que se tornariam o embrião econômico e social do futuro arraial de Santana do Rio São João Acima.

Homem de ação, Gabriel participou de movimentos de defesa e ocupação da região. Em 1758, organizou uma expedição contra quilombolas, que ameaçavam os primeiros povoadores de Minas, partindo de Pitangui com conterrâneos portugueses como Antônio Rodrigues da Rocha, Domingos Gonçalves Viana, Antônio Dias Nogueira e Luiz da Silva, acompanhados de escravos e guias. O grupo combateu os quilombos entre os rios Lambari e São Francisco, garantindo a segurança das lavras e das fazendas e permitindo a posterior ocupação por mineradores e lavradores.

A atuação do Sargento-Mor Gabriel da Silva Pereira não se limitou a Itaúna. Fontes históricas apontam sua presença decisiva na formação do Espírito Santo do Itapecerica (atual Divinópolis). A narrativa local demonstra seu papel pioneiro também na expansão de outros núcleos do centro-oeste mineiro. Esses feitos, reconhecidos pelas autoridades, levaram à concessão de novas sesmarias em retribuição aos serviços prestados à Coroa, consolidando o prestígio e a liderança no território que ajudava a moldar.

Na Revista do Arquivo Público Mineiro (1907, ano XIII, folha 77), consta a existência de uma Capela de São Vicente Ferrer, situada em sua fazenda, no alto do Morro do Gabriel, posteriormente substituída, em 1904, por uma capela de pedra erguida no mesmo local. Esse dado reforça a perenidade de sua influência e a memória devocional que o nome “Gabriel” manteve na paisagem local por mais de um século.

Durante o século XIX, os descendentes de Gabriel da Silva Pereira continuaram entre as famílias mais influentes da freguesia. Seus nomes aparecem em inventários, batismos e casamentos da comarca de Pitangui, confirmando sua presença constante no espaço social e religioso.
Com o passar do tempo, as gerações seguintes fundiram-se com outros troncos familiares, como os Rodrigues da Silva, Penido, Fonseca, Nogueira e Camargos, perpetuando a linhagem fundadora até o século XX.

Em 1761, o Sargento-mor Gabriel exercia o cargo de Presidente do Senado da Câmara de Pitangui, o que confirma seu reconhecimento político e econômico. Faleceu provavelmente antes de 1765, com cerca de setenta e poucos anos, deixando viúva Florência, que sobreviveria mais de trinta anos.

A trajetória de Gabriel da Silva Pereira representa o elo entre o bandeirismo paulista e a fixação luso-brasileira no interior de Minas. Sua vida reflete o tripé que moldou o território mineiro: a fé, o trabalho e a posse da terra.

Fundador, sertanista e devoto, ele não apenas desbravou as matas e as margens do rio São João, mas lançou os alicerces da comunidade que, séculos depois, daria origem à cidade de Itaúna — espaço de fé, memória e identidade. Seu nome permanece como símbolo da coragem e da esperança que ergueram, sobre a antiga picada dos desbravadores, o coração de uma cidade mineira.


Referências:

Elaboração e Pesquisa: Charles Aquino

 SILVA, Edward Rodrigues da. O bandeirante João Lopes de Camargo. Revista da ASBRAP – Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, n. 20, p. 348–350, 2022. Disponível em: https://asbrap.org.br/artigos/rev20_art16.pdf  Acesso em: 28 out. 2025.

NOGUEIRA, Guaracy de Castro. Itaúna em Detalhes - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa. Edição: Jornal Folha do Povo, 2003, Fascículos, 6-9, 16-18.

DIOCESE DE DIVINÓPOLIS. Histórico da Paróquia de Sant’Ana – Itaúna. Diocese de Divinópolis, [s.d.]. Disponível em: https://diocesedivinopolis.org.br/historico-da-paroquia-de-santa-ana-itauna/  Acesso em: 28 out. 2025. 

DIOCESE DE DIVINÓPOLIS. Catedral Divino Espírito Santo. Disponível em: https://diocesedivinopolis.org.br/templo/catedral-divino-espirito-santo/. Acesso em: 02 nov. 2025.

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.