segunda-feira, julho 03, 2017

ITAÚNA: ESCOLA NORMAL


*Maria Lúcia MENDES

Tempo de estudante. A vida, uma alegria, o futuro um mundo que ainda fica do outro lado. A Escola Normal, um Ateneu de Raul Pompéia, com duas diferenças: sem internato e sem a figura doentia de Aristarco.
Internato houve, em épocas passadas, com irmãs de caridade no comando e moças de várias cidades que aqui chegavam para completar seus estudos. Da querida escola guardamos lembranças boas da juventude, mas certas marcas que não se apagam como de alguns professores, que apesar da competência exageravam na rigidez. Havia aulas que nos causavam medo: desde a véspera, ensaiávamos lições até à exaustão. Medo de ganhar zero, de ser chamada à frente e do vexame; medo, medo...
Aprendizagem sofrida, mas que valeu a pena pela formação e conhecimentos adquiridos. Em compensação, certas matérias davam gosto de serem estudadas tamanha a capacidade e eloquência dos que as lecionavam, transportando-nos para o mundo inteiro, numa época em que o material didático era somente livros e um mapa pendurado na parede.
Num relance percorríamos as geleiras dos Andes, as margens férteis do Rio Nilo para desembocarmos atônitas na misteriosa floresta dos Incas, a colonização das Américas, a tragédia do Titanic. Trabalhos manuais, canto orfeônico, desenho, todas estas matérias reprobatórias, além de latim, inglês e francês...
“Le matim maman n’appelle. George, leve toi”. Quanto suor frio e leitura gaguejada, a fala não saía.
— Tome de mim a segunda declinação.
— Servus, servorum.
Quantas noites a fio varávamos o livro aberto, estudando para a prova da manhã seguinte. Em junho, realizavam-se as provas parciais que todos temiam por terem peso dobrado.
No final do ano, apôs as provas escritas, todos os alunos eram submetidos a exames orais de todas as matérias. Se a turma fosse numerosa, as provas prolongavam-se até à noite, os alunos e fila para confessionários. Diante da banca examinadora sorteávamos trêmulas um ponto, cujo número vinha escrito em papeizinhos enrolados.
— Ponto sorteado número cinco. Falar sobre ciclos econômicos do Brasil. São muitas as lembranças de quando lá estudávamos. Revejo as salas de cadeiras duplas, os corredores, uma escadaria de madeira que dava acesso ao segundo andar, o museu, lugar fascinante, onde tudo era novidade, pois não nos cansávamos de contemplar animais embalsamados entre eles um tamanduá, além de aves de lindas plumagens empalhadas com arte e cobras enormes mergulhadas em formol. Dava pavor aproximar-se dos vidros e alguns não se arriscavam cismados que as serpentes pudessem avançar.
Havia também uma infinidade de conchas, pedras e ovos à mostra em mesas com tampas de vidro. Um farto material companha o cenário das aulas de ciências e anatomia, por sinal, muito agradáveis e curiosas. Achávamos o máximo estudar bactérias através dos microscópicos. Era divertimento geral chuchar as penas de um esqueleto em tamanho natural, preso ao teto por uma corrente. Depois corríamos assustadas para vê-lo de longe chocalhando a ossada.
Vez por outra burlando a vigilância, corríamos até o jardim para tentar um jacaré que vivia no repuxo. Sob uma chuva de gominhas atiradas em suas costas o bicho mergulhava procurando refúgio. Para variar jogávamos nele uma ou outra flor apanhada às escondidas ali mesmo e caíamos na risada quando o víamos voltar com a flor agarrada nas costas.
— Meninas, já pra sala! Não ouviram o sinal? Era Dona Carola com aqueles olhos muito azuis e voz mansa.
Juventude sadia, sem o flagelo das drogas, sem o consumismo desenfreado, e os exemplos negativos da televisão. Tínhamos sim, a inquietude própria da idade, e uma preocupação constante: ficar em exames de segunda época. No mais, sem angústia ou revolta, aceitávamos e bem -  tênis surrados, livros de segunda mão e bolsos sempre vazios.
Durante todo o ano, a escola cumpria extensa programação. Além das comemorações cívicas — principalmente sete de setembro — realizado com grande entusiasmo — havia as semanas pedagógicas em sessão solene no salão. Conferencistas famosos em todo o Estado enriqueciam o evento e entre uma palestra e outra intercalavam-se números de canto e poesia acompanhados ao piano pelo Padre Luís.
Realizavam-se ainda concursos de oratória, exposições de trabalhos manuais que atraíam centenas de visitantes. Por ocasião da festa de Páscoa, nas procissões de Corpus Christi, vestíamos o uniforme de gala com luvas e tudo. Participação em massa pois havia chamada e a falta sem justificativa era suspenção na certa.
Durante o recreio o pátio pipocava em algazarra. Espalhados aqui e ali, os grupinhos de sempre. Nas filas do bebedouro, empurrões e brincadeiras, enquanto o galpão ficava apinhado de alunos, merendando. Vez por outra aconteciam as famosas guerras de limões-capetas roubados no quintal de seu Tonico e atirados lá do galpão, sobre a turma do pátio.
Questão de segundos, dava-se o troco e num vaivém medonho, os limões zuniam sobre nossas cabeças indo se espatifar no chão. Quando a guerra estava no auge, uma voz conhecida, punha água à fervura. As autoras da “revolução” ficavam após o término das aulas, empunhando vassouras, enquanto o restante amargava-se de castigo sob um sol de rachar.
Foram muitas as emoções vividas naquele pátio: recados amorosos, trocas de ideias, planos.... Foi também ali que, posto em fila obedecendo a um sinal dado fora do horário ouvimos a voz embargada do diretor:
— Faleceu o Exmo. Sr. Presidente da República Doutor Getúlio Dornelles Vargas.
Um silêncio pesado dominou a tudo e a todos. Era 24 de agosto de 1954.
Assim era nossa escola. Ali vivia-se intensamente o que disse Ovídio Decroly : “A escola da vida, para a vida e pela vida!. Longe de um simples slide, desconhecendo por completo xerox e informática, percorríamos o mundo inteiro graças às riquezas de detalhes passados pela professora de Geografia, dando-nos a impressão de estarmos diante de uma tela.
Tempos depois terminado o ginasial, ingressamo-nos no Curso de Formação de Professores. O magistério nossa acenava, e cheias de ideal fomos m busca de um futuro melhor.
— Minhas alunas vocês juram que nunca darão aulas passivas? Vou fazê-las pôr a mão sobre a Bíblia e jurar.... Saudosa professora, a de Metodologia do Ensino. Pequenina, dinâmica, ao toc toc de seus sapatos de salto zarpávamos aos bandos sala a dentro, assentávamos num segundo, fazendo caras de santa.
Como D. Graciana não se cansava de repetir: “ O Brasil precisa de professores capazes” e “a motivação é mola real da aprendizagem”.
Escola Normal: se suas paredes falassem quantos sonhos de nossa juventude você relaria. Quantas ilusões e esperanças mortas perambulam como fantasmas naqueles corredores. Saudade sepultada pelo tempo, onde entre uma aula e outra sonhávamos com Elvis Presley dançando o rock e Marlon Brando enfeitiçando nossos corações de adolescente. Tempo inesquecível; quando os sonhos ainda eram verdades.

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.66,67,68,69.

Acervo: Shorpy

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