Entre nomes,
memórias e projetos: a gênese simbólica das ruas de Sant'Anna do Rio São João
Acima
(18/04/1891-18/04/2026)
No dia 18 de abril de 1891, no edifício do antigo Theatro do arraial de Sant’Anna de São João Acima (embrião da atual cidade de Itaúna) um pequeno grupo de conselheiros distritais reuniu-se para realizar um ato que, embora aparentemente burocrático, possuía profunda carga simbólica: atribuir nomes às ruas do povoado.
Sob a presidência do dr. Augusto Moreira, os conselheiros
Miguel José de Faria e João Antônio da Fonseca não apenas organizaram o espaço
urbano — eles inscreveram no território a memória que desejavam perpetuar.
Era o início da Primeira
República, período em que o Brasil buscava substituir símbolos imperiais por
novos marcos cívicos, celebrando datas e personagens republicanos. Não
surpreende, portanto, que muitas das ruas nomeadas expressassem essa adesão ao
novo regime e seus ideais modernizantes.
1. Datas e ideais
republicanos impressos no chão
Entre as denominações propostas, sobressaem as alusões a efemérides da construção nacional:
Rua 15 de Novembro — homenagem direta à Proclamação da República, e que permanece
com este nome até os dias atuais;
Rua 13 de Maio, alusiva à Abolição da Escravidão, igualmente mantida no
traçado urbano contemporâneo;
Rua 7 de Setembro, Rua 21 de Abril, Rua 15 de Junho e outras marcações
temporais, compondo uma cronologia patriótica na cartografia local.
Cumpre destacar
que, mesmo sem constar na ata apresentada, a Rua Silva Jardim, existente em
Itaúna e preservada até hoje, insere-se nesse mesmo movimento de exaltação
cívica. Seu nome homenageia Antônio da Silva Jardim, militante
republicano fluminense, orador apaixonado e mártir da causa, morto tragicamente
em 1891, ano da sessão analisada. Sua memória encontra, assim, eco e reverência
no espaço itaunense.
Essas referências
demonstram que o arraial almejava situar-se dentro do espírito republicano,
incorporando-se simbolicamente à nova ordem nacional.
Ao lado da
modernidade republicana, o tecido urbano preservou nomes ancorados na devoção
católica, como Rua da Matriz, Rua do Rosário, Rua de São José, Rua de São
Sebastião, Largo do Cruzeiro e Largo dos Passos. Em uma terra marcada por
irmandades, procissões e fé comunitária, o sagrado continuava a orientar
caminhos, reafirmando que o nascimento cívico da cidade não apagaria sua alma
religiosa.
Persistiram
também referências locais e comunitárias, tais como Beco do Tio João, Rua da
Harmonia (antiga do Felizardo), Rua da Concórdia, Rua do Buracão, entre outras.
São vestígios do modo como o povo nomeava os espaços antes da
institucionalização: pelos moradores, pela paisagem, por acontecimentos
cotidianos. O Conselho, assim, congelava em letra pública uma geografia que já
existia na memória viva dos habitantes.
A
metamorfose da Rua Direita
Dentre as
alterações posteriores, merece destaque especial a antiga Rua Direita, eixo
estruturante da malha urbana. O nome, tradicional em vilas coloniais
brasileiras para designar a rua principal, foi posteriormente substituído por Avenida Getúlio Vargas, durante o período autoritário do Estado Novo.
Trata-se de um
exemplo emblemático de como o poder político também inscreve seus símbolos na
cidade: um nome republicano e popular cedendo lugar, por imposição do regime, à
exaltação do governante centralizador e ditatorial.
Hoje, ao caminhar
pela avenida, o cidadão pisa não apenas no asfalto, mas na disputa histórica
entre memória local e intervenções do poder estatal.
Além das
denominações, a ata revela outras preocupações típicas de uma comunidade que se
modernizava: criou-se uma comissão para estudar o desvio das águas pluviais,
evidenciando as primeiras ações de planejamento urbano, e reclamou-se sobre as irregularidades
nas malas postais vindas pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, sinal da
importância crescente da comunicação e do transporte ferroviário para o
desenvolvimento econômico local.
Considerações
Nomear ruas é
escolher memórias e escolher memórias é escolher identidades. Em 1891,
Sant’Anna de São João Acima delineou, na tinta e no papel, o que desejava ser:
uma comunidade enraizada na fé, mas aberta à República e à modernidade; uma
vila que registrava sua oralidade e seu cotidiano, mas que almejava civilidade,
ordem e lugar na história nacional.
Curiosamente,
alguns nomes sobreviveram incólumes ao tempo, como Rua 15 de Novembro, Rua 13 de Maio e Rua Silva Jardim, não apenas como placas de ferro, mas como símbolos
de permanência e memória coletiva. Outros se transformaram, como a antiga Rua
Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, lembrança viva de que a cidade, assim
como a história, também pode ser moldada por decisões centralizadoras e por
projetos políticos impostos.
Cada esquina
nomeada naquela data, portanto, é um capítulo da formação urbana e simbólica de
Itaúna. E ao revisitarmos essa ata, não lemos apenas uma lista, lemos o
instante em que uma comunidade gravou sua alma nas ruas.
TEXTO ORIGINAL
CONSELHO
DISTRITAL
ATA
DA 1ª SESSÃO ORDINÁRIA
Aos 18 dias do
mês de abril de 1891, no edifício do Theatro deste distrito de Sant’Anna de São
João Acima, às 12 horas do dia, presentes os srs. Conselheiros: dr. Augusto
Moreira, presidente, Capitão Miguel José de Faria e João Antonio da Fonseca,
havendo número legal o sr. Presidente declara aberta a sessão.
ORDEM
DO DIA
O sr. Presidente
propõe e é aceito pelo Conselho um projeto dando às ruas desta freguesia as
seguintes denominações:
A rua
compreendida entre as casas dos srs. Serafim Caetano e Francisco da Costa — Rua
Direita.
A que que vai da casa do sr. Primo
Ribeiro ao beco do Costa — Rua Direita.
A que vai da casa do sr. Primo
Ribeiro ao beco do Costa — Rua 15 de Novembro.
A antiga dos Ferreiros — Rua 14 de
Junho.
A que vai da casa do sr. Custódio
Dornas à Igreja do Rosário — Rua 21 de Abril.
A que vai do Serafim à Matriz — Rua Silva Jardim.
A que vai do sr. José Pinto à
Porteira do Vigário — Rua Tiradentes.
A que vai da Matriz à Vargem — Rua da
Matriz.
A antiga das Viúvas — Rua da Boa
Vista.
A que vai do sr. Joaquim de Freitas
ao sr. Francisco Dornas — Rua São José.
A antiga da Vargem — Rua da Alegria.
A que vai da casa do sr. José
Silvério ao Mirante — Rua do Rosário.
O antigo beco do Tio João — Beco do Tio
João.
A antiga do João Lopes — Rua do
Theatro.
A antiga do Felizardo — Rua da
Harmonia.
A antiga do Canto — Rua 7 de Abril.
A antiga Rua Nova — Rua Nova.
A antiga de São Sebastião — Rua de
São Sebastião.
A antiga do Buracão — Rua do Buracão.
A que vai da Rua 13 de Maio à 15 de
Novembro — Rua 7 de Setembro.
A que vai da Rua Direita ao Quitão —
Rua de Santo Antônio.
A antiga Rua do Xilindró — Rua da
Justiça.
A que fica paralela a do Buracão —
Rua do Fogo.
A antiga das Diogas — Rua da
Concórdia.
A que vai do sr. José Pinto a Vargem
— Rua 15 de Junho.
O antigo beco de Francisco Gonçalves
— Beco 15 de Novembro.
Antigo beco do Costa — Beco do Costa.
A Rua que vai da 15 de Novembro à do
Buracão — Rua do Descanso.
O antigo beco do Rosário — Beco do
Rosário.
O que vai da Rua Direita a da
Concórdia — Beco da Concórdia.
O antigo Largo da Matriz — Largo da
Matriz.
O antigo do Cemitério — Largo do
Cemitério.
Antigo Lardo do Serafim — Largo do
Cruzeiro.
Antigo Largo do Primo — Largo dos
Passos.
Por proposta do
Presidente nomeou-se a seguinte comissão, composta dos srs. Capitão Miguel José
de Faria, João Antônio da Fonseca e Capitão Vicente Gonçalves de Souza para
apresentar na sessão de junho deste ano um plano de desvios das águas pluviais,
nas ruas desta freguesia.
Foi apresentada
uma outra proposta do Presidente, mandando que se oficie ao Ilustrado Diretor
dos Correios deste Estado, pedindo providencias sobre as irregularidades
havidas nas malas desta freguesia, na estra de ferro Oeste de Minas.
Aprovada. E nada
mais havendo a tratar o sr. Presidente levanta a sessão até que se lavre a Ata.
Reaberta a sessão e, esta aprovada, o sr. Presidente marca a 2ª sessão para 28
de julho, e encerra a presente sessão. Eu dr. Augusto Moreira, Presidente,
servindo de secretário a escrevi.
<Miguel José
de Faria>
<João Antônio
da Fonseca>
Jornal Centro de Minas, Sant’ Anna de São João Acima, 24 de abril de 1892, p. 2-3.
Logradouros de Itauna (MG) by Itaúna Décadas
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407

