sexta-feira, abril 17, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P2

CAPÍTULO 6 (Parte 2)

Mapeando jornalistas: redes,

vigilância e o alcance do sistema de informações

 Dando continuidade à análise, esta segunda parte explora como o sistema de informações não apenas registrava dados, mas construía interpretações sobre a atuação da imprensa. 

A partir de novos documentos, é possível perceber que o monitoramento se estendia para além do âmbito local, alcançando redes mais amplas, espaços institucionais e articulações políticas.

No caso de José Waldemar Teixeira de Melo (B1354048), o nível de circulação é ainda mais amplo. 

Ele aparece como jornalista responsável no Jornal Folha do Oeste (1987 e 1988), mas também como radialista na Rádio Divinópolis (1988) e como jornalista no Jornal A Semana, também em Divinópolis.

Esse monitoramento, no entanto, não se inicia nesse momento. Já em 1981, o SNI havia realizado um “Levantamento de dados de Jornais” em diversos estados, incluindo Minas Gerais. Nesse levantamento, o Jornal Folha do Oeste já aparece registrado, tendo o próprio José Waldemar Teixeira de Melo como proprietário. 

Para isso, foi utilizado um questionário padronizado, o que indica que o acompanhamento da imprensa não era pontual, mas integrava um processo sistemático anterior às fichas analisadas neste estudo.

Além disso, a documentação produzida pelo SNI no final da década de 1980 amplia significativamente o alcance desse acompanhamento ao situar José Waldemar Teixeira de Melo também no circuito nacional da imprensa política. 

Em dossiê classificado como “Confidencial”, com os informes dos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, voltado à atuação de jornalistas credenciados no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, Waldemar aparece listado como repórter credenciado, identificado pelo registro nº 264/87, vinculado ao jornal Diário da Tarde, ao lado de profissionais provenientes de diferentes estados do país.

Mais do que ampliar a escala desse acompanhamento, esse documento também evidencia uma mudança qualitativa importante. Se, nos registros anteriores, o foco recaía sobre a organização técnica do sistema e o acompanhamento dos profissionais, neste documento observa-se um deslocamento: a incorporação de interpretações sobre o próprio papel da imprensa no cenário político.

Nesse sentido, o documento não se limita a um simples cadastro funcional. Ele se insere em uma narrativa produzida pelos órgãos de informação que atribui à atuação da imprensa um papel ativo em disputas ideológicas.

Ao afirmar, com base em “declarações de jornalistas credenciados”, que “as esquerdas” exerceriam um suposto “controle das comunicações” no interior do Congresso Nacional, influenciando a circulação das notícias “do interesse de facções esquerdistas”, o registro evidencia não apenas a coleta de informações, mas também a construção de uma leitura específica sobre o campo jornalístico.

Essa formulação não deve ser tomada como descrição neutra da realidade, mas como parte de um enquadramento discursivo próprio do sistema de informações, que operava por meio da seleção, interpretação e classificação dos dados coletados. Mais do que registrar, o documento interpreta e, ao fazê-lo, revela as lentes através das quais a atividade jornalística era observada pelos órgãos de inteligência.

Nesse contexto, a presença de Waldemar no conjunto documental não apenas confirma a continuidade de sua vigilância, mas o posiciona em um espaço considerado estratégico pelos órgãos de inteligência: o da mediação entre informação jornalística e poder político.

Diferentemente dos registros anteriores, centrados em sua atuação regional, este documento evidencia que seu acompanhamento se estendia a instâncias centrais da vida política nacional, reforçando a hipótese de que o monitoramento incidia prioritariamente sobre indivíduos capazes de transitar entre diferentes escalas, local, regional e federal, no campo da comunicação.

A documentação analisada revela ainda um elemento que amplia significativamente a compreensão do alcance desse monitoramento: a participação da imprensa regional em espaços coletivos de articulação, como o 5º Congresso de Jornais do Interior, realizado entre 30 de outubro e 2 de novembro de 1986, em Caxambu (MG), com a participação de cerca de 500 pessoas e representantes de diferentes estados brasileiros e países sul-americanos.

Esse evento também foi registrado pelo SNI como “Confidencial” e identificado pelos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, o que amplia significativamente a compreensão do alcance desse sistema de vigilância.

No caso de Minas Gerais, o evento reuniu diversos veículos de comunicação do interior, entre os quais se destacam, no âmbito da imprensa itaunense, os jornais Brexó, Ita Vox, Folha do Centro-Oeste e Folha do Oeste. A esses somavam-se periódicos de cidades vizinhas, como a Gazeta Paraminense, de Pará de Minas, e o jornal Agora, de Divinópolis.

Outro aspecto relevante presente na documentação é a indicação de apoio institucional ao evento, registrado na programação oficial como “Apoio: Minas Gerais – Governo Hélio Garcia”. A presença do governo estadual como apoiador do congresso evidencia que a imprensa do interior não operava à margem das estruturas institucionais, mas mantinha relações diretas com o poder público.

No entanto, esse vínculo não pode ser interpretado de forma linear: ao mesmo tempo em que eventos dessa natureza recebiam apoio governamental, os documentos do SNI demonstram que esses mesmos espaços, veículos e profissionais eram objeto de monitoramento sistemático pelos órgãos de informação.

Nesse sentido, a manutenção do mesmo código em todos esses registros indica que o acompanhamento não se restringia a um único meio de atuação ou espaço geográfico, mas ocorria de forma contínua e integrada ao sistema. 

Como demonstrado em capítulos anteriores, cada indivíduo era associado a um identificador, que permitia registrar, ao longo do tempo, suas mudanças de função, inserção profissional e deslocamentos. Tal procedimento evidencia que a vigilância não se vinculava apenas ao cargo ou ao órgão de imprensa, mas à própria pessoa, integrando indivíduos e veículos de comunicação a uma mesma lógica classificatória baseada em códigos específicos.

No caso da Rádio Clube de Itaúna, os documentos revelam que o veículo também foi incluído nas chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, seguindo o mesmo padrão aplicado aos jornais da cidade. Assim como nos demais registros, há a coleta detalhada de informações institucionais, como endereço, estrutura administrativa e a identificação nominal de seus integrantes, acompanhados de suas funções.

Entre os nomes registrados estão Guaracy de Castro Nogueira, diretor-presidente; Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-secretário; Ari Carvalho, diretor-tesoureiro; Arnaldo Gonçalves Moreira, encarregado geral; Geraldo Lopes, locutor esportivo; Antônio Paulo Nogueira, Danilo Lopes de Oliveira e José Coelho Neto, locutores; além de Cosme Caetano Silva, jornalista, e Marcelo Augusto de Faria Matos, locutor. Esse conjunto de dados demonstra que o monitoramento não se limitava à imprensa escrita, alcançando também a radiodifusão local.

Outro aspecto relevante surge ao cruzar essas informações com diferentes fontes do Arquivo Nacional. Embora os registros analisados pertençam ao fundo do SNI, a pesquisa sobre a Rádio Clube de Itaúna também leva a documentos vinculados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambos disponíveis no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), ainda que organizados em tipologias documentais distintas.

No acervo, destaca-se um dossiê da Cia. Industrial Itaunense, com mais de 270 páginas, referente ao período de 1983 a 1987, que reúne informações sobre a companhia e sua estrutura administrativa.

Nesse documento, aparecem nomes de integrantes da Rádio Clube de Itaúna e suas funções, como Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, presidente do Conselho de Administração; Dr. Affonso de Cerqueira Lima, membro do Conselho; Dr. Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-gerente; e Jofre Gonçalves de Souza, também ligado à presidência do Conselho, além de registros detalhados das trajetórias e das atividades exercidas por todos os membros. Esse cruzamento de fontes amplia a compreensão do funcionamento da rádio e reforça a articulação entre diferentes esferas institucionais.

Na prática, esse sistema operava como um banco de dados integrado, capaz de cruzar informações, identificar vínculos e mapear a circulação de profissionais da comunicação em diferentes contextos. Mais do que registros isolados, tratava-se de um mecanismo que permitia acompanhar trajetórias completas e estabelecer conexões entre diferentes veículos.

Dessa forma, os documentos pesquisados no SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional) revelam que o SNI (Serviço Nacional de Informações) não apenas observava jornais e rádios como instituições, mas também monitorava diretamente os profissionais da comunicação, construindo um mapa detalhado das relações e redes de atuação da imprensa em nível local e regional.

Mais do que vigilância pontual, os documentos revelam um sistema contínuo de acompanhamento, evidenciando a profundidade e a sofisticação do controle exercido sobre a imprensa nas barrancas do Rio São João Acima — hoje Itaúna (MG), a histórica Pedra Negra.

Nota final

Ao longo destes seis capítulos, publicados no Jornal Folha do Povo, antigo Folha do Oeste, fundado em 1944, foi possível apresentar uma análise da imprensa itaunense na década de 1980, com base na documentação disponível.

Com a consolidação desta etapa, dedicada aos veículos de comunicação da cidade, abre-se, em um futuro não muito distante, uma nova fase de investigação: o aprofundamento da análise sobre indivíduos e grupos específicos que também foram alvo de vigilância. 

Entre eles, destacam-se cidadãos identificados nominalmente, empresas, representantes do poder público municipal, instituições de ensino, lideranças religiosas e outros espaços de atuação social e intelectual.

Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser ignorado: o fato de que estes capítulos são publicados no Jornal Folha do Povo, herdeiro do antigo Folha do Oeste, reforça a dimensão histórica do próprio trabalho. Trata-se de um veículo que, no passado, esteve inserido nesse contexto de vigilância e que, hoje, permanece ativo, não apenas como meio de comunicação, mas como espaço de memória, reflexão e análise crítica sobre esses mesmos processos.  

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

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BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Jornal A Semana, Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 5–6. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

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BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê (continuação). Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0002de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.  


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