Saúde, medo e defesa social:
A lepra como problema estruturante em
Itaúna (década de 1930)
A análise dos textos produzidos em Itaúna nas primeiras décadas do século XX, especialmente “Itaúna: os males da época”, a entrevista com o dr. Alcides Gonçalves de Souza e o texto “Ação benemérita”, publicado no Jornal de Itaúna em 1933 , permite identificar a construção de um discurso articulado em torno da lepra que ultrapassa a dimensão estritamente sanitária.
Em conjunto, esses documentos revelam não apenas a presença da doença no
município, mas a forma como ela foi interpretada, problematizada e mobilizada
como questão central para a organização da vida local.
No texto “Itaúna: os males da época”, observa-se inicialmente uma tentativa de sistematização das enfermidades que atingiam a população, como impaludismo, verminoses e sífilis, todas apresentadas como doenças conhecidas, tratáveis e, sobretudo, evitáveis mediante práticas higiênicas e acompanhamento médico.
Essa abordagem estabelece um contraste fundamental com a lepra,
descrita como um mal de natureza distinta, tanto por sua gravidade quanto pela
ausência de tratamento eficaz no período. A doença é caracterizada como
“hedionda” e aterrorizante, sendo associada à inevitabilidade do isolamento, o
que já indica uma ruptura com as estratégias aplicadas às demais enfermidades.
Esse contraste não é apenas médico, mas estrutural. Enquanto as outras doenças são tratadas no âmbito da prevenção individual e da higiene, a lepra é deslocada para o campo da coletividade, sendo apresentada como uma ameaça direta à comunidade.
Essa percepção se intensifica quando o texto associa a presença da doença à possibilidade de desvalorização econômica do município, destacando que produtos agrícolas poderiam ser rejeitados e terras consideradas “amaldiçoadas”.
Assim, o problema sanitário é articulado a uma preocupação com
a estabilidade econômica e com a imagem de Itaúna perante outras regiões.
A entrevista com o dr. Alcides Gonçalves de Souza reforça essa dimensão ao introduzir uma leitura que legitima o movimento em curso. Ao afirmar que a lepra prejudica “as relações sociais, econômicas e comerciais”, o entrevistado desloca o problema para além do campo médico, inserindo-o na dinâmica das interações sociais e do mercado.
A menção a episódios de rejeição de produtos locais por parte de comerciantes externos evidencia que o estigma associado à doença já produzia efeitos concretos sobre a circulação de bens e sobre a reputação do município.
Ao mesmo tempo, sua fala busca equilibrar a necessidade
da campanha com a correção de “equívocos”, sugerindo uma preocupação em
controlar não apenas a doença, mas também a percepção externa sobre Itaúna.
O texto “Ação benemérita”, por sua vez, opera em um registro distinto, marcado por forte apelo moral e emocional. Ao convocar diretamente os “itauenses” e, em especial, os “pais de família”, o texto constrói uma narrativa de responsabilidade coletiva, na qual o combate à lepra se apresenta como um dever cívico.
A caracterização da doença como um “terrível mal” e a
ênfase na necessidade de proteger as “pessoas sãs” reforçam a ideia de perigo
iminente, contribuindo para a mobilização social em torno da campanha. Além
disso, ao mencionar a existência de áreas fortemente afetadas no município, o
texto amplia a percepção de urgência e legitima as medidas propostas.
Apesar das diferenças de tom e abordagem, os três textos convergem em um ponto fundamental: a defesa do isolamento dos doentes como principal estratégia de enfrentamento da lepra.
A referência recorrente ao Leprosário Santa Isabel, em Minas Gerais, indica a existência de uma estrutura institucional já consolidada, para a qual os indivíduos diagnosticados deveriam ser encaminhados.
Dessa forma, o discurso presente no jornal não se limita a uma construção retórica, mas se insere em uma prática concreta de encaminhamento e exclusão, refletindo o temor local diante da doença e a tentativa de evitar que o município fosse atingido por seus efeitos sociais e econômicos.
Tal dinâmica pode ser interpretada à luz do conceito de biopolítica, conforme formulado por Michel Foucault (1988), no qual o controle da doença se articula à regulação dos corpos e à organização da vida social.
No caso de “Itaúna: os males da época”, essa proposta é
acompanhada de um plano detalhado de mobilização financeira, envolvendo diferentes
segmentos da sociedade — fazendeiros, comerciantes, industriais e mulheres,
evidenciando um esforço coletivo organizado em torno da construção de
instalações no leprosário.
Essa mobilização revela um aspecto central do processo: o combate à lepra em Itaúna não se limitava a uma política sanitária imposta externamente, mas envolvia a participação ativa das elites locais e da população, que eram convocadas a contribuir material e simbolicamente para a solução do problema.
As assinaturas de médicos, autoridades e figuras de prestígio ao final do texto
reforçam esse caráter, indicando que a campanha era conduzida por setores com
capacidade de influência e organização.
Dessa forma, a análise articulada dessas fontes permite compreender que o enfrentamento da lepra em Itaúna, na década de 1930, configurou-se como um processo complexo, no qual saúde, economia e organização social estavam profundamente interligadas.
A doença, mais do que um problema médico, foi construída como uma ameaça à ordem do município, exigindo respostas que combinavam mobilização coletiva, intervenção institucional e redefinição das relações sociais.
Nesse contexto, o isolamento dos doentes no Leprosário Santa Isabel aparece não apenas como medida sanitária, mas como elemento central de um projeto de defesa e preservação da cidade.
Como complemento à análise apresentada em “Saúde, medo e defesa social: a lepra como problema estruturante em Itaúna (década de 1930)”, segue abaixo a transcrição do texto original “Ação benemérita”, publicado no Jornal de Itaúna em 25 de junho de 1933.
O documento permite observar, de forma direta, a linguagem, as preocupações e os apelos mobilizados à época no enfrentamento da lepra no município.
Ação benemérita – Fonte Jornal de Itaúna 1933
A campanha de protecção aos lazaros e defeza contra a
lepra, que se promove em Itauna, sob a direcção do dr. Lima Coutinho, é dessas
campanhas santas e dignificadoras que por si só elevam os seus propagadores à
categoria de semi-deuses.
Esta guerra titanica que ora se inicia contra o terrivel mal de Hansen, contra essa horrenda doença que arruina inexoravelmente a integridade physica da pessoa que é victima, levando-a paulatinamente ao tumulo,
é sem duvida uma das nossas mais prementes necessidades, e infelizmente
uma necessidade que se impõe pela urgencia que se tem de evitar a propagação do
mal, preservando do perigo as pessoas sãs.
Itauenses, é preciso saibas a nossa terra, o municipio de
Itauna, é infelizmente em todas Minas um dos mais infestados pela morféa.
Ha no districto da cidade um pequeno povoado denominado
“Corrego do Soldado” onde, desgraçadamente, quasi uma população inteira soffre
da terrivel molestia.
E essa gente, como todos nós, quer viver. Para viver
trabalha, e o producto desse trabalho, farinha, polvilho, queijo, mantimento, é
vendido sem menor escrupulo pela cidade.
Itauenses, precisamos conjurar o mal! Paes de familia,
Itauna, hoje mais do que nunca, necessita do seu valioso e indispensavel
concurso!
A idéa está lançada. Itauna vai ter o seu pavilhão na
Colonia de Leprosos S. Izabel, em Bello-Horizonte. Para lá deverão seguir,
depois de construido o pavilhão, todos os demais contaminados pelo hediondo
mal, em todo o municipio de Itauna.
E assim, desse modo, em pouco tempo, sanearmos Itauna da
morféa.
O homem domador do mar, fecundador da terra, conquistador do ar, senhor dos animaes, construtor de maravilhas, autor da linguagem, do pensamento, dos costumes, da arte e da sciencia só à morte não poderá fugir.
A
morte é mesmo inevitavel, mas poderá ser adiada. E a doença? Esta pode não
existir, pois que todas as doenças infecciosas são de certo modo evitaveis.
Evitemos, pois, o mal, itauenses, concorrendo e
trabalhando em prol da Santa Campanha!
NOTA
O termo “lepra” era amplamente utilizado nas primeiras décadas do século XX para designar a doença hoje conhecida como hanseníase. A substituição terminológica ocorreu ao longo do século XX, especialmente no Brasil, com o objetivo de reduzir o estigma historicamente associado à enfermidade.
No presente trabalho, opta-se por manter o uso do termo “lepra” quando referido às fontes históricas, preservando sua linguagem original, enquanto “hanseníase” é utilizado em referência ao conceito contemporâneo.
Referências:
Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
JORNAL DE ITAÚNA. Ação benemérita. Itaúna, ano I, 25 jun. 1933.
ITAÚNA EM DÉCADAS. História da saúde em Itaúna – parte VII. Disponível em: https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2022/04/historia-da-saude-em-itauna-parte-vii.html Acesso em: 10 abr. 2026.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p.129-144.
IMAGEM:
A imagem apresentada não se configura como registro histórico, mas como uma representação artística interpretativa, construída com o propósito de evocar o contexto social e sanitário de Itaúna nas primeiras décadas do século XX.
Ao representar a mobilização coletiva, a atuação de agentes locais e os discursos de combate à lepra, a imagem dialoga com os elementos identificados nas fontes históricas, evidenciando as dimensões sociais, morais e organizacionais que caracterizaram o enfrentamento da doença no município.
A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
