quarta-feira, fevereiro 11, 2026

CRUZ ROJA ESPAÑOLA

Entre protocolos e pessoas: aprender a cuidar no cotidiano da Cruz Roja na Espanha

Atuar como voluntário na Cruz Roja Española, na cidade de Elda, tem sido uma experiência que ultrapassa em muito a ideia inicial de “ajuda humanitária”. 

O que se revela no cotidiano não é apenas a urgência social, mas um modo específico e profundamente histórico de organizar o cuidado, a responsabilidade e a dignidade humana.

Elda está localizada na província de Alicante, na Comunidade Valenciana, e é amplamente conhecida por sua tradição industrial ligada ao calçado. 

No entanto, há um aspecto menos visível e igualmente constitutivo de sua identidade que ajuda a compreender o ambiente em que essa experiência de voluntariado se desenvolve: Elda carrega, historicamente, a memória de uma  "Ciudad de acogida" (Cidade de acolhida).

Durante a Guerra Civil Espanhola, a cidade recebeu crianças deslocadas, feridos e pessoas em situação extrema de vulnerabilidade, desempenhando um papel ativo na proteção de vidas em meio ao conflito. 

Esse episódio é hoje reconhecido como parte do patrimônio histórico local e ajuda a explicar por que, ainda no presente, Elda se apresenta como um espaço socialmente acessível, com forte presença de redes comunitárias e instituições voltadas à inclusão. É nesse ambiente  simultaneamente histórico e atual que se insere a atuação da Cruz Roja.

Para quem vem do Brasil, especialmente de cidades médias do interior como Itaúna, o primeiro impacto não está apenas na existência da pobreza ou da vulnerabilidade, mas na forma como essas realidades são tratadas institucionalmente. Nada é improvisado. Nada é decidido de maneira individual. Tudo passa por protocolos claros, responsabilidades definidas e formação contínua. 

Essa estrutura não esfria a ação solidária; ao contrário, ela a torna sustentável, ética e previsível valores raramente associados à assistência social no imaginário latino-americano.

No Centro de Servicios (CES), onde atuo regularmente, a rotina é marcada por tarefas aparentemente simples: organização de alimentos, montagem de kits, registro de entregas, controle de turnos. No entanto, é justamente nesse nível do detalhe que se percebe uma concepção madura de ação social. 

Cada entrega é documentada. Cada pessoa usuária é reconhecida pelo nome, pelo código, pela data. Não se trata de desconfiança, mas de garantia de direitos tanto para quem recebe quanto para quem atua como voluntário.

Historicamente, sabemos que a assistência aos pobres, tanto no Brasil quanto na Europa, esteve ligada à caridade religiosa, ao favor pessoal e, muitas vezes, ao controle moral. 

O que se observa aqui é um deslocamento significativo: a ajuda deixa de ser um gesto individual e passa a ser uma política humanitária organizada, ancorada em princípios universais e em normas claras de atuação. Isso não elimina a desigualdade social, mas redefine a forma de enfrentá-la.

Essa lógica se torna ainda mais evidente nas chamadas saídas noturnas, ações voltadas ao atendimento de pessoas em situação de rua. Ao contrário do que se poderia imaginar, não se trata de ações espontâneas. Há calendário, planejamento, logística e definição de funções. 

Cada voluntário sabe exatamente o seu papel. Existe sempre uma pessoa de referência, responsável pela coordenação do grupo, e há articulação prévia com outros serviços.

Essas saídas revelam algo fundamental: o cuidado também envolve responsabilidade coletiva, e reconhecer limites é parte do compromisso ético. Em termos históricos, isso marca uma ruptura com a imagem romantizada do voluntariado heroico e solitário. 

Aqui, o voluntário não é um salvador, mas parte de uma engrenagem coletiva, onde a ação individual só faz sentido quando integrada a um projeto maior.

Um ponto que aprofunda ainda mais essa reflexão foi a entrevista concedida por Alejandro Pascual, trabalhador social da Cruz Roja em Elda. Ele chama atenção para uma distinção frequentemente apagada no discurso público: imigrante não é sinônimo de refugiado

Segundo Pascual, as pessoas refugiadas não chegam buscando simplesmente “um mundo melhor”, mas buscando viver, muitas vezes fugindo de guerras, perseguições políticas, religiosas ou étnicas e contextos que tornam a permanência em seus países de origem impossível.

A partir dessa distinção, Pascual destaca um elemento decisivo para compreender a prática da Cruz Roja: a língua como serviço transversal. O domínio do idioma local não é tratado como um complemento opcional, mas como uma condição estrutural de inclusão. A língua atravessa todos os serviços: o atendimento inicial, a orientação jurídica, o acesso a políticas públicas, a formação profissional e a construção de vínculos comunitários. 

Sem ela, o direito permanece abstrato; com ela, a autonomia se torna possível. Nesse sentido, o trabalho linguístico não apenas facilita a comunicação, mas organiza o próprio processo de integração social, funcionando como elo entre acolhida, dignidade e cidadania.

Outro aspecto central dessa experiência é a formação. Não se atua sem estudar. Direitos humanos, diplomacia humanitária, proteção da infância, perspectiva de gênero, ética institucional, meio ambiente, combate à desinformação e todos esses temas compõem um corpo formativo obrigatório. 

Isso indica que a Cruz Roja não forma apenas executores de tarefas, mas sujeitos conscientes do impacto político, social e simbólico de suas ações.

Para alguém que se dedica à pesquisa histórica e à memória social, essa vivência provoca inevitáveis comparações. No Brasil, muitas iniciativas de assistência ainda dependem excessivamente da boa vontade individual e sofrem com a descontinuidade. 

Falta estrutura, formação e, sobretudo, reconhecimento institucional do voluntariado como prática social qualificada. Aqui, o voluntário não “ajuda quando pode”; ele assume responsabilidade.

Essa experiência também desloca o olhar sobre o próprio conceito de solidariedade. Solidariedade não é apenas empatia ou compaixão. É organização, método, limite e permanência. É compreender que o cuidado, para ser justo, precisa ser regulado. Essa talvez seja uma das lições mais importantes deste percurso.

Ao registrar essas reflexões no Itaúna Décadas, não pretendo narrar uma trajetória pessoal de mérito, mas oferecer um testemunho comparativo. A história se constrói justamente nesses encontros entre realidades distintas, onde aprendemos que outras formas de agir são possíveis e que muitas delas podem, e devem, ser pensadas criticamente a partir de nossa própria experiência brasileira.

Entre protocolos e pessoas, o que se aprende é simples e profundo: cuidar também é uma forma de pensar o mundo.


Referencias

Organização e elaboração: Charles Aquino

Cruz Roja Española.

Sitio oficial de la Cruz Roja en España. Información institucional, principios fundamentales, programas de acción social y voluntariado. Disponible en: https://www.cruzroja.es

Ayuntamiento de Elda. Elda, ciudad de acogida.
Página institucional que recoge el papel histórico de la ciudad de Elda como espacio de acogida durante la Guerra Civil Española, integrando este episodio en su patrimonio histórico y memoria colectiva.
Disponible en:
https://www.elda.es/patrimonio-historico/elda-ciudad-de-acogida/

Cadena SER – Radio Elda. Alejandro Pascual.

Las personas refugiadas no vienen buscando un mundo mejor, vienen buscando vivir.
Entrevista que aborda la diferencia entre inmigrante y persona refugiada, así como el papel de la lengua como servicio transversal en los procesos de acogida e integración social desarrollados por la Cruz Roja.
Disponible en:

https://cadenaser.com/comunitat-valenciana/2025/10/21/alejandro-pascual-trabajador-social-cruz-roja-las-personas-refugiadas-no-vienen-buscando-un-mundo-mejor-vienen-buscando-vivir-radio-elda/

Comité Internacional de la Cruz Roja (CICR).
Principios del Derecho Internacional Humanitario y acción humanitaria en contextos de conflicto y desplazamiento forzado.

Disponible en: https://www.icrc.org