terça-feira, março 31, 2026

DAMA DONA LADOMILA

Dama Dona Ladomila: Fé, Caridade e Memória em Itaúna

Este texto apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em 22 de abril de 1956.

 Mais do que uma homenagem, o registro permite compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu tempo.

DONA LADOMILA

Corria o ano de 1872, quando nasceu em Santana de São João do Rio Acima, Ladomila  Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro.

Cresceu e desfrutou a vida de família rica e opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e Odilon, em 11 de agosto de 1900.

Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e, depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de cada dia para seus queridos filhos.

Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer. Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.

Era católica fervorosa, estava enterrado o Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi a representante da Terra Santa em Itaúna.

Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.

Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.

Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra. Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que sofria.

Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou, porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer aquilo que essa senhora fazia!”

Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida, alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: — Uma sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora. Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir à sua casa.

Terminada a novena, negou-se a entregar a santa. Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar, vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora, pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. Dias depois, briga ela na igreja, em frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem, a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe da hipoteca!...”

E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!

Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a saudade, que é a memória do coração.”

Fotografia original publicada no jornal, integrando a biografia.

 
Rua Dona Ladomila - Itaúna/MG CEP 35680-365

Referências:

Organização, pesquisa e arte: Charles Aquino

Texto biográfico: Stella Máximo

Imagem: Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e sua presença marcante na vida social de Itaúna.

Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião Nogueira Gomide.

Prefeitura e Câmara Municipal de Itaúna/MG.

Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP: 35680-365 (Lei 1343/76) 

Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.

Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho.  Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf