Dama Dona
Ladomila: Fé, Caridade e Memória em Itaúna
Este texto apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em 22 de abril de 1956.
Mais do que uma homenagem, o registro permite
compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se
articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o
papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu
tempo.
DONA LADOMILA
Corria o ano de 1872, quando nasceu em Santana de
São João do Rio Acima, Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro.
Cresceu e desfrutou a vida de família rica e
opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e
Odilon, em 11 de agosto de 1900.
Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o
esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e,
depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu
todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas
amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de
cada dia para seus queridos filhos.
Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres
de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se
pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer.
Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal
sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.
Era católica fervorosa, estava enterrado o
Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais
conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da
igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi
a representante da Terra Santa em Itaúna.
Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia
lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.
Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a
construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das
Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação
foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do
governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.
Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade
foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava
modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas
para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra.
Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que
sofria.
Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por
mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou,
porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana
como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu
desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer
aquilo que essa senhora fazia!”
Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida,
alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e
sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: — Uma
sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora.
Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir
à sua casa.
Terminada a novena, negou-se a entregar a santa.
Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar,
vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora,
pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. Dias depois, briga ela na igreja, em
frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem,
a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus
Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe
da hipoteca!...”
E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus
deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente
nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que
lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!
Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é
um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é
como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito
impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a
saudade, que é a memória do coração.”

Rua Dona Ladomila - Itaúna/MG CEP 35680-365
Referências:
Organização, pesquisa e arte: Charles Aquino
Texto biográfico: Stella Máximo
Imagem: Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial,
inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro
histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços
de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e
sua presença marcante na vida social de Itaúna.
Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião Nogueira Gomide.
Prefeitura e Câmara Municipal de Itaúna/MG.
Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP: 35680-365 (Lei 1343/76)
Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.
Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho. Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
