Terras férteis, produção
agrícola em expansão, um rebanho de mais de 35 mil cabeças de gado, fábricas de
manteiga e laticínios modernos, ferrovia cortando o território, e uma população
rural ativa e empreendedora fazem parte deste retrato impressionante de uma
Itaúna em plena construção de sua identidade.
Este inquérito
econômico, produzido pela Inspetoria Agrícola, não apenas enumera dados: ele
nos transporta para um tempo em que o progresso se fazia com o esforço das
mãos, a força da terra e o espírito coletivo de uma gente determinada.
Convidamos você a
explorar esse valioso registro e descobrir como Itaúna, em apenas onze anos de
existência como município, já demonstrava sinais claros de modernização,
organização econômica e visão de futuro.
Este é um convite à memória, ao orgulho local e ao reconhecimento da trajetória que construiu a cidade que hoje conhecemos. O texto revela uma rica análise do panorama abrangente da estrutura territorial, da economia agrícola e pastoril, da incipiente industrialização e da organização social da vila de Itaúna em 1913.
A elevação do antigo distrito de Sant’Ana
do Rio São João Acima à condição de Vila, por meio da Lei Mineira nº 319 de 16 de setembro de 1901, representa um marco da afirmação político-administrativa de Itaúna como
unidade autônoma dentro da divisão territorial de Minas Gerais. Em 1913, o
município já se encontrava bem delineado, com área de 3.774 km², fazendo limite
com importantes municípios da região central mineira, como Pará de Minas,
Bonfim, Entre Rios (atual Pará de Minas), Divinópolis e Cláudio.
A composição
interna incluía cinco distritos de paz: Cajuru, Conquista, Itatiaiuçu,
Serra Azul, além da sede (a própria Vila de Itaúna), bem como diversos
povoados rurais e núcleos de ocupação. Essa malha territorial reforça a
existência de uma dinâmica populacional dispersa, com pequenos aglomerados que
provavelmente giravam em torno da agricultura de subsistência, do extrativismo
e do pastoreio.
O documento estima a população total em cerca de 22.000
habitantes, sendo 4.000 residentes na sede da Vila, o que indica que
aproximadamente 18% da população se concentrava em ambiente urbano, enquanto a
maioria permanecia na zona rural, refletindo o caráter predominantemente
agrário da região.
Em termos de
infraestrutura, destaca-se a presença do ramal ferroviário (Ramal de
Minas) que conectava Divinópolis a Belo Horizonte, passando por Cajuru, o que
conferia à Vila de Itaúna uma vantagem logística relevante para o escoamento de
produtos agrícolas e industriais. A menção a estradas de rodagem que cortavam o
município “em todas as direções” revela a importância das rotas terrestres para
a integração interna e com os municípios vizinhos.
Embora os
“modernos processos de cultura” começassem a ser introduzidos (com uso de
arados e maquinário agrário), a maioria dos agricultores ainda se utilizava de
técnicas rudimentares (como a enxada). Isso indica uma agricultura em
transição, marcada pelo início da mecanização, mas ainda profundamente
enraizada nas práticas coloniais.
Os proprietários
rurais destacados — Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim
Nogueira Penido — representam a elite agrária local, controlando grandes
propriedades no distrito sede, provavelmente com influência sobre decisões
econômicas e políticas locais.
A pomicultura também é referida como um setor em ascensão, com destaque para frutas tropicais como laranja, jaboticaba, abacate, manga, abacaxi e banana — esta última já sendo uma fonte de renda e objeto de exportação para Belo Horizonte. A diversificação produtiva revela tanto adaptação climática quanto um olhar voltado para o comércio regional, sinalizando o surgimento de excedentes agrícolas.
A pecuária aparece como o eixo central da economia local, com cerca de 35.000 cabeças de gado bovino, incluindo raças caracu, curraleira, indiana, holandesa e suíça. A criação era subdividida entre gado leiteiro e de corte, com manejo eficiente entre pastagens e invernadas. A menção às feiras de “Sítio” e “Benfica” como destinos do gado sugere circuitos comerciais locais bem estabelecidos.
A produção anual
de 25.000 kg de manteiga e volumes significativos de queijo
evidenciam o protagonismo da indústria de laticínios, reforçada pela
fundação da Cooperativa de Laticínios Itaunense, empreendimento coletivo
de grande porte, que contou com capital de 50 contos de réis — um valor
expressivo para a época. Essa iniciativa indica uma mentalidade empresarial já
estruturada entre os fazendeiros da região.
A economia local não se restringia à produção primária. Havia também fábricas com tecnologia relativamente moderna, com uso de turbinas hidráulicas e motores para movimentar máquinas de beneficiamento de arroz, café, enlatamento de produtos e fabricação de gelo. Destaques incluem: Usina Nogueira (30 kg diários de manteiga, além de fábrica de gelo e beneficiamento de arroz); Fábrica do Calambau (20 kg diários de manteiga e beneficiamento de café); Usina Quintão (preparo de peles e arroz).
Esses dados mostram que, já em 1913, Itaúna reunia as condições para um processo de industrialização artesanal e descentralizada, impulsionada por agentes privados e ligada à agropecuária. Essa industrialização era regional, voltada principalmente para o consumo interno e mercados próximos. O retrato de Itaúna neste período permite concluir que, em apenas 11 anos após sua instalação como Vila, o município apresentava: Estrutura administrativa consolidada; População expressiva com forte base rural; Integração ferroviária e rodoviária relevante; Solo fértil e clima propício; Diversificação agrícola crescente; Potente economia pastoril com industrialização acoplada; Adoção gradual de tecnologias agrícolas e industriais.
A combinação
entre iniciativa privada, organização cooperativa e recursos naturais
abundantes foi determinante para o desenvolvimento rápido da Vila,
consolidando-a como polo produtivo regional. Em síntese, Itaúna emergia, em
1913, como um exemplo de progresso interiorano mineiro, ainda ligado às
tradições agrárias, mas já conectado às dinâmicas da modernização econômica.
VILA DE ITAÚNA 1913
Inquérito
econômico (Segundo dados da Inspetoria Agrícola) — Pertencente a zona Central
do Estado, o município de Itaúna deve a sua criação a Lei Mineira nº 319 de 16
de setembro, que elevou à categoria de Vila o antigo distrito de Santana do Rio
São João Acima em 1901, dando-se a sua instalação a 2 de janeiro de 1902.
Tem 3.774 km
quadrados o seu território e limita-se com os municípios do Pará, Bonfim, Entre
Rios, Divinópolis e Cláudio. Compõe-se de cinco distritos de paz que são: a
vila de Cajuru; Conquista, Itatiaiuçu e Serra Azul; e conta ainda os seguintes
povoados: Olaria, Pedra, Garcias, Tabuões, Domingues, Campos, Angu Seco, Cruz
das Almas, Medeiros, Retiros dos Pintos, Córregos das Pedras, Conceição,
Agrilho, Salgado, Ribeiro, Cunha e Empaturrado.
Sua população é
calculada em 22.000 almas, sendo que só a vila conta com 4.000 habitantes. Além
do Rio São João que atravessa o município do sul a norte, tendo como afluentes
os ribeirões Capotos, Olaria, Angu Seco, Jacuba e Pintos, pelo Pará, que a
divide com o município do mesmo nome, e pelos ribeirões Conquista e Vermelho
tributários dos rios Pará e Paraopeba.
O ramal de Minas,
que liga Divinópolis a Belo Horizonte, atravessa o município, passando pelos
distritos de vila de Cajuru, em cujas sedes tem estações. Várias estradas de
rodagem cortam o município em todas as direções ligando a sua sede aos
distritos e aos municípios vizinhos. Possui o município jazidas de ferro e
manganês, ainda não exploradas; encontram-se estas no distrito de Serra Azul. O
clima é quente, seco e saudável em todo o município.
Os terrenos de
Itaúna, são geralmente acidentados, secos e reconhecidos como de muita
fertilidade, atestando isso as vegetações que revestem o município e o
resultado das colheitas de cereais, etc. A terra argilosa que muito se aproxima
da afamada terra roxa, oferece ali grande porcentagem, encontrando-se também
muita terra misturada e alguma arenosa. Tem o município 10% de terrenos em
matas virgens, 25% em capoeiras de muito valor, 5% em cerrados e 64% em campos
naturais e pastagens artificiais de capim gordura, roxo e provisório.
É muito
importante a vida agrícola e industrial do município, habitado por um povo
inteligente e empreendedor, notando-se mesmo, na sua população rural, grande
animação pelos magníficos resultados da colheita de cereais e do
desenvolvimento das criações.
Na agricultura,
só agora vão sendo introduzidos os modernos processos de cultura, por meio do
arado e outros instrumentos agrários. Todos plantam em larga escala pelos
primitivos sistemas do emprego da enxada, etc., e consideram compensadores os
resultados das colheitas. A principal cultura é a dos cereais, vindo, em
seguida, as do café, do algodão e da cana-de-açúcar.
Os agricultores
do município, em geral, encontram-se em prósperas condições, existindo avultado
número de importantes propriedades rurais. Dentre estas, destacam-se as dos
senhores Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim Nogueira
Penido, todas no distrito da vila.
A pomicultura
está bastante desenvolvida no município, não pela variedade de frutas raras
próprias do clima frio, mas pela quantidade de frutas de clima quente, que ali
são cultivadas, tais como a laranja, muito variada e de excelente sabor; a
jaboticaba, o abacate, a manga, o abacaxi e a banana, que já constitui fonte de
renda, havendo grande exportação para Belo Horizonte, tendo boa aceitação.
A indústria
pastoril, explorada em grande escala no município, apresenta-se como sua
principal fonte de renda. Realmente fazendeiros há, possuidores e largas áreas,
divididas em seções, onde, desfalcada a parte destinadas às culturas, mantém um
efetivo anual de 1.200 bovinos, das raças caracu e curraleira, encontrando-se também,
em número avultado, belíssimos exemplares da indiana, holandesa e suíça, já
muito propagadas.
Além das
pastagens destinadas ao gado leiteiro, há também grandes invernadas para o de
talho, que, depois de gordo, é levado às feiras do Sítio e Benfica, para ser
vendido. Existem atualmente no município cerca de
35.000 cabeças de gado bovino. A produção anual de manteiga é de 25.000 kg,
sendo muito considerável também a do queijo, que como a primeira, encontra
franca aceitação, não só no mercado desta capital, como nos demais Estados.
É tal o
desenvolvimento da indústria pastoril no município, que os senhores João
Gonçalves de Souza, Luiz Ribeiro de Oliveira e João Rodrigues Nogueira Penido
montaram, com o capital de 50 contos de reis, todo subscrito por fazendeiros do
distrito da vila, a Cooperativa de Laticínios Itaunense.
O prédio construído especialmente para esse
estabelecimento, montado com todo o gosto e capricho, está situado nas
proximidades da estação, que serve a vila, funcionando os modernos machinismos
dessa poderosa empresa com a maior regularidade. Além da Cooperativa de
Laticínios Itaunense, existem no município muitas fábricas de manteiga, como
sejam, entre as mesmas, as seguintes: Usina Nogueira de propriedade do senhor
Josias Nogueira Machado, que mantém a 6 km da vila, uma importante fábrica de
manteiga com a produção diária de 30 kg. Anexas à fábrica de manteiga funcionam
as machinas para enlatamento e fabrico de gelo. Mantém ainda a Usina uma
aperfeiçoada machina de beneficiar arroz. Todos os machinismos da
Usina são movimentados por uma turbina com força de 40 cavalos.
Fábrica de
manteiga do Calambau, pertencente ao senhor Luiz Ribeiro de Oliveira, que se
acha situada na propriedade agrícola desse nome, a 6 km da vila. É de 20 kg
diários de manteiga a produção desse importante estabelecimento industrial, que
tem anexa uma poderosa machina para beneficiar café. Todos os seus machinismos
são movidos por um motor hidráulico.
Oriunda ainda do
desenvolvimento da indústria pastoril no município, existe no distrito da vila,
a Usina Quintão, destinada ao preparo de peles. Dista este estabelecimento 2 km
da vila e é seu proprietário o senhor Washington Alves da Cunha Quintão,
vendo-se junto ao curtume uma bem instalada machina de beneficiar arroz.
Referências:
Elaboração e pesquisa: Charles Aquino
Fonte: Jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, quarta-feira, 1 de outubro de 1913, p. 6.
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