sábado, julho 08, 2017

FRANGO DE DOMINGO: HISTÓRIAS DE ANTANHO



Nos anos cinquenta, frango era comida de domingo. Aliás, o cardápio do ajantarado, uma mistura de almoço com jantar, tinha frango, arroz de forno e macarronada. Falar em comer "uma massa" é palavreado moderno. Comia-se macarronada. Nas casas de ascendência italiana, o macarrão era feito em casa. O rolo de madeira, conhecido como rolo de pastel, na verdade é o " pau do macarrão".
Voltemos ao frango. Comida cara naqueles tempos de famílias numerosas. Tão caro a ponto de existir o ditado: "pobre quando come frango é sinal de doença nele ou no frango!!!!"
Apesar de quase todas as casas terem na época, galinhas no terreiro e por consequência frangos, eram os tais "caipiras", criados soltos, tratados com milho, sobras de comida, sobras de verdura, ciscando e " pastando" no quintal. Demoravam a crescer e chegar no ponto de abate. No mínimo seis meses ou até mais. Isso, se não morressem antes de doenças. Bouba aviária, doença de "new castle", caroços e outras pestes. Quando apareciam, dizimavam a criação, sem dó nem piedade.
O brasileiro tinha uma inveja danada do americano do Norte. Lá, em razão do desenvolvimento de várias raças, a carne de frango era a mais barata. Comida comum, tanto quanto os hambúrguers e as salsichas.
O frango era abatido de véspera. No sábado, a dona de casa apanhava o desditado. Na cozinha de fogão a lenha, já tinha na trempe uma panela grande com agua a ferver. Pegava o galináceo e no chão da cozinha com o pé direito prendia as duas asas do "sacrificado" e com o pé esquerdo imobilizava os pés da ave.
Feito isso, com uma das mãos pegava a cabeça do bicho e esticava o pescoço do frango. Com a outra mão, devidamente munida de uma faca, arrancava penas do pescoço, deixando a mostra a jugular da ave. Um corte certeiro e o sangue fresco escorria num prato colocado ali para tal serventia. Depois de sangrado, não demorava fechar os olhos. Morto e bem morto.
De imediato era mergulhado na água fervente. A fervura amaciava as penas e em pouco tempo já estava depenado. A penugem remanescente era sapecada no fogo. Bem pelado, hora de abrir o galináceo. Tirar a "barrigada" e descartar. Separar fígado, moela e coração. Se era para ser assado, aproveitar os miúdos para colocar na farofa. Se era para ser feito ensopado, cortar a ave em pedaços, sempre pelas "juntas" para separar coxas, sobrecoxas, asas, contra-asa. A parte mais nobre era o peito, depois o "sobre" e o Santo Antônio. A carcaça com as costelas e os pés, pedaços piores.
Por fim, abrir a moela, retirar a sujeira, tirar com a faca a parte interna, dura e amarga. Jogar água quente em todas as partes e lavar bem lavado. Em seguida, passar um limão capeta em toda a ave e preparar a "vinha d'alhos", com os temperos. Temperar bem e deixar na "marinada". No dia seguinte, jogar na panela. Em tempo: se a receita fosse de frango ao molho pardo ou "cabidela" como preferem os portugueses e os nordestinos, o sangue tão logo aparado no sangramento, carecia de um pouco de vinagre para não "talhar". Sem sangue não tem molho pardo.

Duas notas
Receitas e temperos ficam para outra ocasião. Em Minas Gerais a preferência é do Frango com quiabo e angu ou do Frango ao molho pardo. Assado, normalmente era recheado com a farofa de miúdos. Frito na gordura de porco bem quente, tomou o nome de Frango a passarinho. Nessa receita, as partes são cortadas em partes menores e as vezes, empanadas com ovo batido e farinha de rosca.
Frango vai bem com quase todos os acompanhamentos. A dificuldade era sempre da dona de casa. Tinha de cumprir todas as tarefas listadas acima e depois dividir com sabedoria de Salomão, os pedaços para a família.
Na repartição no almoço, as preferências eram observadas. O pai da família gostava mais do "sobre". Asas, coxas, sobrecoxas, Santo Antônio, distribuídas aos filhos. O peito era disputado. Dentro dele tem um osso, vulgarmente chamado de aposta ou jogo. Depois de bem limpo e seco, servia para uma disputa. A dificuldade maior era no domingo em que havia visita. Era a tão temida hora de um ou outro filho dizer que não gostava de frango e ter a sua parte no prato da visita. Enorme frustração.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 07/07/2017.

Acervo: Shorpy

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