segunda-feira, maio 01, 2017

ADVOGADO E APRENDIZ EM ITAÚNA


 No meu tempo de ginasiano em Itaúna, tive a sorte de estudar no Colégio e Escola Normal da cidade sob a diretoria de Guaracy de Castro Nogueira. Um homem afável, amigo dos alunos e empreendedor sem limites.
Sempre inovando. Com poucos recursos, transformou o vetusto educandário. Construiu uma quadra polivalente, introduziu basquete e voleibol, ginástica moderna, salto altura e salto com vara, salto à distância, gincanas e brincadeiras. Fui muito bom em corrida de saco, carrinho de mão e outras brincadeiras para os menores. Para as moças, além do vôlei e da ginástica, corrida de ovo na colher, evoluções com arco, fitas e treino para balizas. Fez muito mais. Merece um capítulo inteiro de seus feitos. Incentivava também o gosto pelas letras e a oratória.
De tempos em tempos reunia todos os alunos no auditório. Sessões de corais, jogral, recitativo e outras atividades que objetivavam o convívio social, o bom relacionamento e o cultivo de boas práticas.
Na sua administração, foi criado um jornal interno. Se não me engano, tinha o nome de Gladio - assim mesmo, em latim. Tinha como divisa: "gladiator in arena consilio caput". O gladiador na arena corta cabeças. Publicado mensalmente, impresso na Tipografia Nívia, trazia a colaboração de alunos e professores. Um sucesso.
Uma das atividades mais concorridas e esperadas era o concurso de oratória. Manoel Bernardes, mais conhecido como "Manoelzinho", desde a primeira série de ginásio, se destacava nessa atividade. Tinha o dom da oratória. Sabia a língua, tinha vocabulário, entonação e respiração corretas. Um futuro advogado. Não deu outra.
Cursou Direito em Belo Horizonte. Bom aluno, pequeno e mirrado, crescia quando a palavra lhe era dada. Tinha domínio de palco e de plateia. Formado, filho de pais pobres, voltou para Itaúna.
Tinha talento. Começou a exercer a profissão como estagiário do dr. José Luiz Gonçalves Guimarães. Professor de inglês, grande orador e ótimo penalista. Ver o dr. José Luiz em uma sessão de júri era um espetáculo.
A cidade, pacata e sem crimes se alvoroçava em dia de julgamento. Coisa rara. Quando ocorria, um programa imperdível. Pena que sempre era proibido para menores de dezoito anos.
Tal proibição foi relaxada uma única vez. Na estreia do Manoelzinho, o juiz de direito abriu uma exceção. Deixou entrar na sala do júri, os menores de dezoito anos e acima de dezesseis. Um alvoroço.
O fórum funcionava no velho solar dos Cerqueira Lima, na rua Silva Jardim.  O novo ainda era promessa e o velho tinha sido demolido. A sala de debates estava apinhada. Um calor de arrebentar mamona. Gente pendurada nas janelas, nos pendentes de luz e amontoados na porta. Manoelzinho era assistente da defesa. A cidade inteira torcendo pelo seu sucesso.
Ritual cansativo. Sorteio de jurados, leitura dos autos, acusação a cargo da promotoria e enfim, a palavra de Manoelzinho.
De terno, pequeno, aparecia aos olhos dos presentes, como menor ainda. Por pouco tempo. Tinha bom timbre de voz, apesar de tê-la ainda jovem. Sabia o que queria e conhecia do "riscado”.
Em pouco tempo, cresceu no plenário. Tinha total domínio do " mis en scene" e do público. Gestos estudados, no momento certo. Sabia arrebatar.
Em pouco tempo fez seu arrazoado. Citava códigos, jurisprudência e doutores do direito.
Demoliu os argumentos da acusação. E pasmem: era apenas o assistente do "Mestre José Luiz”.
Aos olhos de seus pais, o filho era motivo de orgulho. Não só dos pais. A cidade inteira "lambia a cria". Manoel Bernardes, o menino mirrado dos concursos de oratória fez jus à fama que conquistara desde os tempos de ginásio. Ao dr. José Luiz, coube apenas o trabalho de respaldar a defesa do pupilo. O réu foi absolvido por unanimidade. A cidade inteira festejou.
Cá entre nós: acredito que até o Promotor gostou do resultado!!!!!


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Texto enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 22/04/2017.

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