quarta-feira, abril 19, 2017

ITAÚNA: QUERMESSE, SEBASTIÃO E TAQUI!!!



As festas religiosas em Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta eram uma boniteza. Verdadeiro instrumento de confraternização da cidade com seu povo, sem distinção de classe social, cor ou pensamento político. Nos dias de hoje, fala-se muito em " inclusão social", segregação e minorias. Os teóricos de hoje deveriam se inspirar naqueles tempos antes de espalharem pregações, que no meu sentir, acabam sendo excludentes e fomentadores de rancores e divisão social.
No entanto, deixemos de lado as digressões e vamos ao que interessa:

Festa de São Sebastião!!!

Eram no mínimo quinze dias de festejos. Não sei qual a razão de tanto prestígio do "Mártir da Capadócia", mas ele era, ao lado dos santos de junho (Antônio, João, Pedro e Paulo), um dos de " maior audiência " e não ficava nada a dever a Nossa Senhora Sant'Ana, padroeira de Itaúna no mês de julho.
Barraquinhas armadas na praça dr. Augusto Gonçalves. Leilões de prendas e ofertas todo dia a noite. Nos fins de semana, leilão de bezerros, novilhos, leitões e cabritos. Tudo doado ao Santo, por fazendeiros e agricultores da cidade. Animais a vista, podendo ser admirados e cobiçados pelos arrematantes. Ficavam num curral improvisado, ao lado das barraquinhas. Eram tratados ali mesmo e de lá saiam para o sítio ou fazenda do novo dono, disputados acirradamente nos leiloes apregoados pelo saudoso Mineirinho, da famosa dupla caipira da Rádio Clube de Itaúna.
Nem me lembro direito de como funcionava o serviço de som. Só sei dizer que os animais eram anunciados pelo leiloeiro, que anunciava também o nome do doador. Era aí que a disputa se tornava aguda. Dornas a disputar com Penidos, Francos a disputar com Nogueiras e quem sempre lucrava era São Sebastião. Disputa honesta e bem animada pelo pregoeiro. Levava quem desse mais, pagamento na hora, sem prestações, cheque pré-datado ou cartão de crédito. O Santo não tinha bandeira. Valia sempre o velho e bom dinheiro.
Música ao vivo, a cargo do "Regional do Irmãos Barão", com fôlego para toda noite. Às vezes, incluindo Dante de Faria Matos no bandolim, Freitas Alfaiate no piston, Donato no saxofone e Argemiro Ferreira da Silva no trombone de vara. Noutras noites, a família do João Bigode e seus filhos que tocavam violão e violino.
Foguetório toda noite a cargo do "Parente", que era fogueteiro e coveiro. Foguetes de vara qual subiam assoviando e levavam atrás a molecada a correr para apanhar o rabo do foguete.
No sábado à noite e no domingo tinha também pau de sebo, quebra pote, pega porco e outras brincadeiras. Divertimento sadio, cidade e redondezas reunida. Povo da roça fácil de identificar pelas botinas, roupa de brim caqui ou calça "porta de loja". As moças com as bochechas coradas de "rouge" e na falta dele, coradas com o papel crepom molhado. Consumo dobrado de pão doce, pão de sal e picolés de groselha. Um achado para o Bar Azul e para a Padaria do Vasco.
E o tal jogo itaunense?
Tratava-se do Taqui. Simples, honesto e rápido. Antes de cada rodada, eram vendidas as papeletas com sete letras espalhadas. Três em cima, três em baixo e uma no meio. Os prêmios, dependendo do valor da papeleta e dos números dela vendidos eram bolos, frangos assados, pernil de porco ou garrafas de vinho jurubeba. Na melhor das hipóteses, um frisante Michelon.
Uma moça ajudava a rodar a "gaiola das bolinhas", tal e qual gaiola de bingo e sorteava as letras.
O cantador das letras era um caso à parte. Era um tal de T de Tauna, E de "Eliude", Z de "zoios" e C de Sebastião. Os jogadores iam marcando as letras cantadas. Quando coincidia ele ter marcado seis e cantavam a sétima que o premiava, o ganhador gritava eufórico:

" TA AQUI" !!!!!!

Eis a razão do nome do jogo. 

Em tempo: não me esqueci do Pe. José Ferreira Neto e de seu sacristão, o querido "Tio Juca". Eles merecem um capítulo à parte.




*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Crônica enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 19/04/2017.


Acervo fotográfico original: Professor Marco Elísio Coutinho
Montagem & Arte: Charles Aquino


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