segunda-feira, março 27, 2017

BONFIM: DAS CINZAS À LUZ



Prof. Luiz MASCARENHAS*

         Capela do Bonfim, 16 de outubro de 2014. Capela do Bonfim, 26 de março de 2017. A primeira data refere-se ao grande sinistro: o incêndio. A segunda marca o novo tempo: sua reinauguração.
         O rosáceo dos paramentos dos clérigos se tornou mais vivo com a intensidade do sol naquela manhã. Presentes o bispo da Diocese, Dom José Carlos de Souza Campos, o Pe. Breno Antônio dos Santos – responsável pela Paróquia Nossa Senhora de Fátima- circunscrição religiosa aonde se localiza a Capela do Bonfim; seu vigário auxiliar, Pe. Marcelo Geraldo de Oliveira; Pe. Everaldo Quirino Ferreira –  da Paróquia Sant’ana- e o Pe. José Luiz de Freitas. Dentre as autoridades civis, o Prefeito Neider Moreira e a primeira dama, bem como diversos secretários municipais; representante do Ministério Público e a Imprensa local.
         Os vibrantes dobrados da Banda de Música “Sagrado Coração de Jesus” deram o tom festivo à solenidade.
          Após o rito cerimonial de praxe, as nominadas de autoridades e de pessoas gradas da Sociedade, com execução do Hino Nacional Brasileiro e a sentida ausência do Hino Municipal de Itaúna – visto se tratar de um resgate da História da cidade, o Sr.  Bispo ao final de sua fala fez ecoar pelo vale do São João o som do velho sino a conclamar os fiéis para a Santa Missa.
         No trecho do Evangelho de São João (Jo 9,1.6-9.13-17.34-38)   ouviu-se o mesmo a jogar com as palavras luz/ trevas, cegueira/visão, cego que vê, doutores com boas vistas e que não enxergam....Fez-se  pensar e muito. Se na noite do dia 16 de outubro de 2014, a cegueira de alguns poucos levou a uma violência contra o Patrimônio de todos, naquela manhã de domingo, 26 de março, a luz era intensa novamente- não somente vinda do alto do céu, mas na percepção daqueles que ali estavam para fazer reviver a pequena capelinha do Senhor do Bonfim.
         Na noite de outubro, quando do incêndio, as chamas do mesmo não conseguiram iluminar os corações, mas conseguiram tornar claro a cegueira de todos ao relegar o Bonfim ao abandono. O arder das chamas fez inflamar as consciências adormecidas... “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” ( Ef 5, 14) , alertou São Paulo aos itaunenses.  Não se trata apenas e tão somente da capela de pedra, cal e madeiras…Mas do templo espiritual interno de cada um que reside nas barrancas de Sant’ana do rio São João Acima. É tempo de reconstruir-se. E segue Paulo Apóstolo em sua admoestação... “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as” (Ef 5, 11).
         E naquela manhã o “Senhor nos conduziu pelos prados e campinas verdejantes” (Sl 22)  até o alto do Bonfim. Capela restaurada através de parcerias diversas; entre a Mitra Diocesana de Divinópolis, a Paróquia de Fátima, o Ministério Público, a Prefeitura Municipal e tantos outros agentes anônimos. Apesar de ainda não ter sua peça sacra principal que a caracterizava – o seu antigo altar-mor: o altar do SENHOR DO BONFIM- e carecer também de uma otimização da via de acesso, de segurança, de uma adequada arborização e sua ocupação sadia, através de eventos religiosos e civis...Mas... “Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” ( 1Sm 16, 7). As lentes das câmeras registraram o que se vê; o olhar de Deus sondou  os corações dos homens e enxergou o real motivo de cada um ali estar naquela manhã.
          Enfim, resta agora aos itaunenses – com a Capela do Rosário restaurada, com a Matriz de Sant’ana restaurada (leia-se e agradeça-se à Arquê Construtora) e com a Capela do Bonfim reconstruída, passar à restauração de nossa gente. A restauração da alma itaunense. Que se restaure a luz dos corações para que nos unamos na reconstrução de nossa própria cidade. Deixemos de lado as cegueiras das vaidades políticas pessoais que nada constroem; vamos abrir os olhos do espírito e caminhar para as águas repousantes da Justiça Social e do Bem Comum.
         E assim, Felicidade e todo bem hão de seguir-nos por toda a nossa vida.
        
* Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ 1º Secretário da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna

Fotografias:
Adilson Nogueira
Luiz Mascarenhas

Organização:
Charles Aquino

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