quarta-feira, janeiro 11, 2017

Velha Matriz de Itaúna



Esta pesquisa objetiva divulgar algumas páginas da história de Itaúna, em parte quase desconhecidas ou esquecidas!
 No local onde hoje se encontra a Igreja Matriz de Itaúna, “foi construída em 1840 a capelinha da Senhora do Rosário que os pretos edificaram em horas de folga”. (DORNAS, p.22).   Através da Resolução de nº 209 do dia 7 de abril do ano de 1841, era criada a Paróquia de Sant’Anna, sendo o seu primeiro pároco, o Padre Antônio Domingues Maia, importante lembrar que, até no ano de 1853, a Capela de Sant’Anna (hoje Igreja do Rosário) era a Igreja Matriz e que depois desta data, o terceiro pároco, Pe. João Batista de Miranda realizou a permuta das capelas: a Matriz passaria para baixo na praça dr. Augusto Gonçalves, ficando a Capela do morro para Nossa Senhora do Rosário.
O padre João Batista de Miranda, iniciou a ampliação da Matriz em 1854, com a ajuda de pessoas do arraial, em sua maioria grandes fazendeiros. No decorrer da construção, houve um desentendimento entre os colaboradores. “Acontece, porém, que cada um dos fazendeiros queria a porta principal voltada para o lado da sua fazenda e isso constituiu um impasse insolúvel na época, que fez paralisar por dois anos as obras já iniciadas” (DORNAS, p.22). Nesta “querela santa”, o padre Miranda propôs uma condição: aquele que mais fizesse doações para as obras, a igreja seria voltada para o seu lado. A família dos Coelho Duarte ganhou a disputa, todavia, o padre Miranda foi prudente e para que todos ficassem satisfeitos, “fez abrir de cada lado uma porta, o que a nova matriz também conservou”. (DORNAS, p.24) 
Na década de 1954, o Monsenhor Hilton Gonçalves de Souza, escreveu um artigo: “Itaúna e seus Vigários”, relatando sobre a história religiosa da paróquia e de seus párocos, do período de 1841 até 1943, dizendo que, “graças a Deus, neles, Itaúna sempre teve exemplo de moderação e de virtudes, frequentemente admiráveis” (ACAIACA, p.153). O Monsenhor diz que, esta história poderia ser dividida em dois períodos distintos – o Antigo e o Novo.
Sobre o “período novo”, segundo nos informa o Monsenhor Hilton, inicia-se a partir do ano de 1924 com o Padre Cornélio, o qual, foi o 6º pároco de Itaúna.
Com o Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, abre-se um período novo, segundo período. Colocou - o Deus em Itaúna, com a missão de realizar, na Paróquia uma transformação formidável. Cabe-lhe a glória de ter rasgado, aos olhos do povo, um quadro novo, um cenário realista – de mostrar-lhe a religião como alguma coisa séria, que envolve toda a nossa existência e criar, de fato, uma vida cristã, na Paróquia. Por isto mesmo, creio eu, foi o maior de todos os vigários de Itaúna, o que realizou trabalho mais difícil – vencendo preconceitos, destruindo uma mentalidade secularmente errada.  Não vai isto em desdouro dos grandes sacerdotes que lhe seguiram o caminho. Mas foi ele o iniciador e o realizador desta obra admirável.
Vivo, espirituoso, alegre, sabia compreender e amar o povo. Não se enquadrava nos ângulos apertados do rigorismo - mas era cioso dos direitos e dos interesses da Igreja. Fundou associações religiosas, remodelou as existentes, organizou o serviço religioso e criou, em Itaúna, um círculo de admiração e de amizade, que só desaparecerá, quando se extinguirem as gerações que lhe aprenderam exemplo de virtudes e receberam os seus admiráveis ensinamento. (ACAIACA, p.154)
No dia 7 de outubro de 1924, chegava em Itaúna o Pe. Cornélio Pinto da Fonseca sendo o coadjutor do Pe. João Ferreira Álvares da Silva, quinto padre da Paróquia de Sant’Anna. O Pe. João Ferreira, desejava trabalhar na Santa Casa de Itaúna e fazendo um pedido ao Bispado de Belo Horizonte, foi prontamente atendido seu desejo (TOMBO, p.7v). 
Dom Antônio dos Santos Cabral.
Por mercê de Deus e da Santa Fé Apostólica, Bispo de Belo Horizonte. Aos seus esta Provisão virem, Saudações, Paz e Bênçãos no Senhor.
Fazemos saber que, atendendo nós ao bem espiritual do rebanho que pela Divina Misericórdia, foi confinada à nossa pastoral solicitude e querendo que os fiéis da Paróquia de Itaúna deste nosso Bispado não fiquem privados de pastor que zele de sua eterna salvação: Havemos por bem prover, como pelo presente nossa Provisão, faremos na recuperação de Vigário Encomendado dessa Igreja, com as faculdades ordinárias por tempo de um ano se antes não determinarmos o contrário, ao Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, servirá este cargo com convêm ao serviço de Deus e aos bens das almas de seus paroquianos ... (TOMBO, p.7v).
O Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, no dia 8 de dezembro de 1924 era nomeado pároco da paróquia de Sant’Anna de Itaúna e o Pe. João Ferreira Álvares era nomeado capelão da Santa Casa de Itaúna.  Por ocasião desta posse, o Pe. Cornélio elaborou um Inventário da Igreja Matriz:

DESCRIÇÃO                                                                                                                    MATERIAL                QUANTIDADE
Almofadas

2
Almofadas decentes

2
Altar da Imaculada Conceição

1
Altar de São Vicente

1
Altar do Sagrado Coração de Jesus

1
Alvas[1] de missa

9
Âmbula[2]

1
Amito

17
Andores

2
Armário grande
Madeira
1
Armário pequeno
Madeira
1
Aureolas
Folhas Flandres
2
Aureolas[3] pequenas
Prata
2
Bancos velhos
Madeira
14
Banqueta de 6 grandes castiçais niquelados e 1 crucificado
Metal
1
Bilha
Barro
1
Cadeiras velhas
Palhinha
13
Caixas velhas

9
Cálice
Dourados
3
Cálice
Prata
1
Cálice dourado na Santa Casa

1
Cálices de Sacristia

2
Campainhas quebradas
Metal
2
Campainhas velhas em serviços
Metal
2
Camporaes

2
Capa asperges branca com o véu correspondente

1
Capa de asperges preta e velha

1
Capa de asperges[4] rica com o véu correspondente

1
Capa roxa

1
Capa roxa da Cruz

1
Capa verde de São João

1
Capa vermelha de São João

1
Castiçal pequeno
Madeira
9
Castiçal Niquelado médio
Metal
6
Castiçal Niquelado pequeno
Metal
12
Casula[5]verde conservada com estola, balsa e manípulos velhos

1
Cômoda grande
Madeira
1
Cômoda pequena
Madeira
1
Concha Batismal
Metal
1
Concha para hóstias
Madeira
1
Confessionários aberto

2
Corporaes

3
Crucificados
Madeira
1
Crucificados niquelados[6] 
Metal
2
Cruz para procissões
Metal
1
Custódia[7]

1
Dalmática[8]
Par
1
Dalmática duas cores
Par
1
Dalmática preta
Par
1
Estandartes velhos

7
Estantes de Côro

2
Estantes de missal velho

3
Estolas paroquiais imprestáveis

2
Ganchos

4
Genuflexórios velhos

3
Grande Caldeira de Água Benta

1
Grande Cruz
Prata
1
Guião branco de fazenda

1
Guião roxo

1
Guião Vermelho

1
Harmonium

1
Imagem de João Batista
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora da Conceição pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora das Dores grande
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora de Lourdes
Carton-pierre[9]
1
Imagem de Nossa Senhora de Lourdes
Carton-pierre
1
Imagem de Nossa Senhora do Carmo
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora Sant’ Anna
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora Sant’ Anna pequena
Madeira
1
Imagem de Nosso Senhor Morto

1
Imagem de Santa Ignez
Carton-pierre
1
Imagem de Santo Anjo
Carton-pierre
1
Imagem de Santo Antônio
Madeira
1
Imagem de São Benedito pequena
Madeira
1
Imagem de São Francisco
Madeira
1
Imagem de São Geraldo
Carton-pierre
1
Imagem de São José
Madeira
1
Imagem de São Sebastião pequena
Carton-pierre
1
Imagem de São Sebastião pequena
Madeira
1
Imagem de São Thomaz
Madeira
1
Imagem de São Vicente pequena
Carton-pierre
1
Imagem do Espírito Santo
Madeira
1
Imagem do Menino Jesus pequena

1
Imagem do Sagrado Coração de Jesus grande
Carton-pierre
1
Imagem do Sagrado Coração de Jesus pequena
Carton-pierre
1
Jarras
Vidro
15
Jarras
Louça
12
Jarras
Vidro
5
Jarras 
Barro
2
Lâmpada do Santíssimo Sacramento
Vidro
1
Lâmpada do Santíssimo Sacramento pequena
Metal
1
Mesa nova

1
Mesa pequena

1
Mesas velhas

3
Missaes gasto
Livro
1
Missaes iprestáveis
Livro
5
Missaes novos
Livro
2
Missal[10] velho na Santa Casa

1
Opas

8
Oratório para Santos Óleos
Madeira
1
Pallio branco velho

1
Par de galhetas
Vidro
1
Paramento branco rico

1
Paramento antigo

1
Paramento branco estragado

2
Paramento branco-vermelho

1
Paramento conservado de 2 cores roxa e verde

1
Paramento preto novo

1
Paramento preto velho

1
Paramento roxo

1
Paramento verde estragado

1
Paramento vermelho

1
Paramento vermelho velho

1
Paramento vermelho velho

1
Paramento vermelho velho

1
Pedras d’ara[11] - Sacras velhas para 2 altares

4
Pequena Eça

1
Pequeno oratório do Sagrado Coração de Jesus

1
Pia Batismal 

1
Pia de água Benta
Pedra
1
Píxide pequeno para comunhões de enfermos

1
Pote
Barro
1
Pratinho de galhetas
Vidro
1
Púlpito conservado

1
Púlpito velho

1
Quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

1
Quadro de Nossa Senhora Sant’ Anna

1
Quadros da via-sacra

14
Relicário para Viático
Metal
1
Salva
Vidro
1
Sanguíneos[12]

19
Semana Santa (S.P.Q.R.)[13]
Bandeira
1
Singulos

4
Sinos

4
Sobrepeliz de coroinhas

4
Toalha de cabide pequena

6
Toalhas capas de altar

3
Toalhas de Altar-mor

17
Toalhas de cabide

3
Toalhas de mesa da comunhão

7
Tochas

4
Turíbulo
Metal
1
Turíbulo[14] velho

2
Umbela

1
Varas de Estandartes

12
Vaso velho para Santos Óleos

1
Velha escada

1
Velhos tapetes

2
Véu encarnado

1

No ano de 1926, o Pe. Cornélio fez um “Remodelamento da Matriz”:
A Matriz estava em condições nojentas e miseráveis. Com a graça de Deus e pela reforma completa que sofreu, tomou outro aspecto bem agradável. O telhado onde se alojavam milhares de morcegos foi todo removido e outra vez engessado; as paredes caiadas; as grades que no centro da Matriz formavam uma espécie de V foram suspensas como também 2 púlpitos à altura do côro nas paredes; no assoalho foi aplanado e aí colocados bancos; todas as figuras muito mal pintadas no forro e outros lugares foram cobertas por nova tinta a óleo. A importância deste gasto foi de 6:848$145 (seis contos, oitocentos e quarenta e oito mil e cento e quarenta e cinco réis) (TOMBO, p.14).
A grande virtude deste trabalho, foi a elaboração do inventário que o Pe. Cornélio realizou da Velha Matriz de Itaúna, com isso, temos mais informações sobre a história da nossa paróquia de Itaúna.


REFERÊNCIAS:
- FILHO, João Dornas. Itaúna: Contribuição para a história do município, 1936.
- Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Anna de Itaúna -  15/09/1902 a 31/12/1947.
- Revista Acaiaca, 1954.
- Diocese de Divinópolis/Minas Gerais. Disponível em: <https://www.diocesedivinopolis.org.br/index.asp?c=padrao&modulo=conteudo&url=5213>.  
- Paróquia Sant’Anna Itaúna. Disponível em:< http://www.paroquiadesantana.com.br/site/index.php>.
 FOTOGRAFIAS:
- Instituto Cultural Maria Castro Nogueira/ Patrícia Gonçalves Nogueira 
COLABORADORES:
- Professor Marco Elísio Chaves Coutinho / Itaúna – Minas Gerais
-  Revmo. Pe. Professor José Raimundo Batista Bechelaine / Carmo do Cajuru -  Minas Gerais
PESQUISA E ELABORAÇÃO:
- Charles Aquino, graduando em História, 7º período, UEMG/Divinópolis – MG.



[1] Alva: Veste branca, longa e por vezes com tenda na barra. Traduz purificação, alegria, consagração ao serviço da Igreja.
[2] Âmbula (ou Cibório): A vasilha (de diversos formatos e tamanho e com tampa) que contém as Partículas (Hóstias Consagradas)
[3]  Algumas imagens de Santos, tinham aureolas ou Resplendor.
[4] Pluvial ou capa de asperges (latim: cappa, pluviale, casula processaria) é um paramento litúrgico usado sobretudo no exterior, mas também dentro das igrejas para bençãos e aspersões com água benta, casamentos sem missa e para os solenes ofícios divinos
[5] Casula: Veste sacerdotal igual a uma pequena capa que é usada sobre a alva (túnica) durante as celebrações. A cor da casula varia de acordo com o tempo ou circunstâncias litúrgicas: branca, verde, vermelha ou roxa.
[6] Niquelados: Revestidos de metal de níquel.
[7] Custódia: O mesmo que ostensório.  Uma peça de ourivesaria usada em atos de culto da Igreja Católica Apostólica Romana para expor solenemente a hóstia consagrada sobre o altar ou para a transportar solenemente em procissão.
[8] DALMÁTICA: Veste própria do Diácono. É colocada sobre a alva e a estola.
[9] -  Carton Pierre ("stone carton" em inglês) é uma espécie de arte de papier-maché (Papel machê), imitando escultura de pedra ou de bronze. Foi muito utilizado também como ornamento de colunas, portas e janelas internas, imitando basicamente pedra, substituindo o gesso.   Definição de carton pierre: um papier-mâché feito para imitar pedra ou bronze e geralmente usado para ornamentos estatutários e arquitetônicos.

[10] MISSAL: Livro Litúrgico que contém todo o formulário e todas as orações usadas nas celebrações da missa para todo o ano litúrgico.
[11]  D’ara:  Letra d, Apóstrofo, ara. Ara é a palavra latina para Altar. É uma pedra de formato quadrada, contendo relíquias de Santos no altar. No centro do altar, há uma pequena cavidade onde se coloca uma pedra, comumente de mármore, denominada, Pedra d'ara, que encerra dentro de si relíquias de santos mártires, recordando o costume primitivo cristão de celebrar o Santo Sacrifício sobre o túmulo dos mártires e suas preciosas relíquias. Durante a Missa, o cálice e a hóstia devem pousar sobre a pedra d'ara.
[12] SANGUÍNEO, SANGUINHO OU PURIFICATÓRIO: Pequeno pano de forma retangular utilizado para o celebrante enxugar a boca, os dedos e o interior do cálice, após a consagração. Pano retangular que serve para a purificação dos vasos sagrados (cálice, patena e ambulas).
[13]  Nas irmandades de Semana Santa aparecem estas siglas romanas (SPQR) nos estandartes com significado em latim: Senatus  Populos Que Romanus .
[14] Turíbulo: Vaso em que se queima incenso sobre brasas, em cerimônias especiais. É o mesmo que incensário ou incensório.

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