sexta-feira, novembro 15, 2013

Jove Soares


JOVE SOARES NOGUEIRA
Por Mário Soares


 Ombro alto, magro, 1,75 de altura, cenho carregado, cabelos ralos e grisalhos, barba e bigode feitos, lúcido e jovial, aos 85 anos de idade, andava o Cel. Jove Soares teso e desempenado como um moço.
Nascera aqui mesmo na fazenda das Três Barras , quando Santana do Rio São João Acima era distrito da cidade de Pitangui, em 8 de julho de 1868, na quadra mais tormentosa da guerra do Paraguai, entre as batalhas de Humaitá e Itororó.
Era filho de Firmino Francisco Soares, de Onça de Pitangui, hoje Jaguaruna , e de Fabiana Nogueira Duarte, filha caçula do velho Manoel Ribeiro de Camargos, da fazenda da Vargem da olaria, um dos turunas da sua época, nos tempos de Santana.
Aos 26 anos de idade, isto é, em 25 de agosto de 1894, casara-se com sua prima Augusta Gonçalves Nogueira, uma garota de 16 anos , viva e bonita, inteligente e prendada, filha primogênita de Josias Nogueira Machado, que lhe enfeitiçou a vida e lhe infundiu animo e força de vontade para trabalhar como um gigante, criar uma família de onze filhos, dar a estes educação e estudo nos melhores colégios, deixando a todos, tranquilo e orgulhoso de sua obra, o amparo de uma dignificante educação moral e cívica, de uma boa cultura e de regular fortuna. No tempo de sua mocidade, fora sobretudo boiadeiro .
Não era do tipo desgracioso, desengonçado e torto da personagem de Euclides da Cunha, mas possuía em toda a sua plenitude a tenacidade , a bravura e a fortaleza do sertanejo.
Não possuía o hábito de se recostar, quando parado, ao primeiro umbral ou à parede que encontrasse ; nem cair de cócoras sobre os calcanhares; nem o de descansar sobre   os estribos, quando sofreava o animal, pra trocar duas palavras com um conhecido. Era um sertanejo um tanto quanto civilizado, sem chapéu de abas largas, de vestimenta comum, com muita compostura nos gestos e nas palavras.
Impulsionado pela fibra inata, deste meninote se acostumou a varar os sertões. Acompanhado do criolo Hortêncio, ou do preto Paulino , ou do seu primo Versol, ombro alto, relho de cabo de peroba à mão, tronco pendido para frente e oscilando à feição do trote de seus surrados cavalos, desferrados e tristonhos, rumava para Goiás, por trilhos, veredas e estradas quase intransitáveis, em busca de gado.
 Sem saber nadar, vadeava rios caudalosos agarrado à cauda de seu animal. Isto numa era em que não existia nem o avião, nem o automóvel e nem o rádio. Levava três meses tangendo vagarosamente, daquelas brenhas longínquas para Santana, o gado bravio e chucro ali adquirido. Ora cantarolava em surdina atrás  daquela mole ondulante toadas de senzala; ora afundava nas caatingas garranchentas colado a um garrote arribado e esquivo; ora lutava loucamente para conter o estouro da boiada.
Em casa, só ficava o tempo necessário à engorda do gado invernado nas suas fazendas da Bagagem, das Três Barras e do Pedro Gomes.
Se não lhe aparecesse comprado à porta, com a mesma fibra e tenacidade, punha o gado gordo em marcha e ia vende-lo  à charqueada de Santa Cruz, ou abatê-lo em Niterói, no Estado do Rio, outra tirada de mais de seiscentos quilômetros no lombo de seus  célebres cavalos.
Tinha apenas o conhecimento das primeiras letras; mas, inteligente e cônscio disso , sabia porta-se com compostura, nas reuniões mais seletas. Trazia sempre pronta uma verve de ironia para os pomadistas, para os pelintras e para os metidos a sabichões . Bom palrador  , deliciava-se com uma boa prosa, simples ou picante . Pouco crédulo , desconfiado e sem respeito humano, nunca se deixou apanhar por espertalhões. Estava sempre a par do que ia pelo mundo, através da leitura dos jornais, no que era um viciado. Não fumava, não bebia e não jogava  , mas em compensação fora um emérito galanteador, fino e respeitoso.
Na luta pelo direito, era um obstinado; demandista, ferrenho, porém leal . Chegara até a demandar, em pleitos memoráveis , na repulsa daquilo que julgava intolerável injustiça, com um irmão amado e com o vigário João Ferreira Álvares da Silva. Era visceralmente econômico . Dava ao dinheiro extraordinário valor, talvez pelas canseiras do trabalho honrado e duro em adquiri-lo e por possuir no mais alto grau o senso da previdência .   Depois dos quarenta e dois anos, convidado respectivamente pelos amigos Dr. Augusto  Gonçalves de Souza  , Cel . João de Cerqueira Lima, Dr. Cristiano França Teixeira Guimarães, e Dr. Tomas de Andrade, fundara com os mesmo, em maio de 1911, a Companhia Industrial Itaunense, e em janeiro de 1923 o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, S.A. , de que fora grande entusiasta e onde invertia invariavelmente as suas economias na compra de suas ações. Com o falecimento do Cel. Antônio Pereira de Matos , ocorrido em 27 de fevereiro de 1926, fora eleito diretor secretário da Itaunense  , posto em que se manteve pela consideração de seus amigos até o fim de sua vida.
Nunca fora forte em política.  Mas vangloriava-se em tom de caçoada, em poder contar, em  qualquer emergência , com dois votos seguros: o da Galinha Gorda, seu rendeiro da fazenda da Bagagem, e o do Antônio Luiz , seu sobrinho por afinidade.
mas, mesmo assim , foi vereador à primeira Câmara Municipal de Itaúna , em 1902 , mandato que lhe foi renovado até 1916; e foi Conselheiro Municipal  em 1932 e 1936.
Enviuvou-se em 14 de maio de 1935. E venerou a memória de sua esposa querida até o último alento. Todas  tardes , ao por do sol , em casa ou em qualquer lugar em que estivesse, voltava-se em espírito e coração pra o local onde jazia a amada,  guardando uns minutos de silêncio, rezando baixinho, ou balbuciando coisas ininteligíveis, como a confidenciar  com alguém de muita estima  e respeito.
Falecera em 17 de novembro de 1953. Fora um bravo até para morrer. Se lhe fosse possível vencer a morte, ele a venceria, porque com ela disputava palmo a palmo , conscientemente, bravamente, o direito de viver um pouco mais, contendo, inúmeras de suas tremendas investidas, contrariando todos os prognósticos dos médicos assistentes , até tombar inconsciente, debaixo de seus inexoráveis tentáculos .

Revista Acaiaca  / Década : 1952 nº 56, p. 28 a 31.

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