sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Dona Cota


MARIA GONÇALVES DE SOUZA MOREIRA

“Dona Cota”

Nasceu em Sant’Ana do São João Acima, em 23 de Novembro de 1875, filha do capitão Vicente Gonçalves de Souza e de sua esposa Joaquina Maria da Conceição (Dona Quinota). Casou-se na Matriz de Sant’Ana, com seu primo-irmão Manoel Gonçalves de Souza Moreira (Monoelzinho do Hospital), nascido em 19 de Dezembro de 1853, filho de Manoel José de Souza Moreira e de Anna Joaquina de Jesus.
Segundo depoimentos orais chegados ao nosso conhecimento, Dona Cota ao nascer e até os 10 anos, ficou aos cuidados de um casal que residia nos fundos da casa, mãe Tininha e seu marido José, escravos de seu pai, capitão Vicente. O barracão era uma pequena senzala, onde moravam outros escravos que serviam à família. Consta que a jovem “Cotinha” (seu apelido), quis se casar com um rapaz comprador de gado, residente em Ouro Preto, mas houve oposição de seu severo pai que cultivava a tradição: “case sua filha com o filho de seu vizinho”. O casamento com Manoelzinho nasceu de uma homenagem que a comunidade itaunense lhe prestou, quando ela foi a oradora, escolhida para falar em nome de todos, saindo-se muito bem e com muita graça. Tudo muito bem arranjado pelas famílias de ambos, para que das palavras proferidas nascesse o amor. Em 14 de Julho de 1894 aconteceu o casamento, ele com 40 anos e meio, ela com 18 anos e meio. Ele já maduro e experiente, ela uma menina-moça.

Estiveram em Paris, na Cidade-Luz, e lá, depois de convencidos de que não teriam filhos, trocando ideias sobre o futuro de ambos, teriam feito um pacto de que deixariam suas fortunas para os pobres e humildes de sua terra natal, Itaúna. O esplendor de Paris contrastando, naquela época, com a pobreza e falta de recursos do Brasil, motivou a decisão do casal.

Em 3 de Março de 1917, ele já com 63 anos e ela com 41 completos, com quase 23 anos casados, Manoelzinho fez seu testamento. Residiam em Belo Horizonte. Os bens de ambos não se ligavam em virtude do regime de casamento adotado. Ambos eram ricos. Deixou para ela no testamento, “o usufruto, durante toda a sua vida, de uma casa de morada, sita à rua dos Tupis, nº 51, nesta capital, como todo seu terreno cercado de gradil de ferro e muros, que são três lotes com 1.800m2, números 20, 21 e 22 do quarteirão 24, da terceira urbana. Mais o usufruto de 100 apólices federais emissão de 29 de Março de 1911, todas de valor nominal de um conto de réis cada uma, e juros de 5% ao ano. Mais o usufruto de uma casa que estava construindo em Itaúna, perto da casa de caridade, em terreno comprado ao senhor Tobias Viana e sua mulher. E, ainda, toda mobília que existir, roupas de cama e de vestir, na casa do rua Tupis, bem como o cofre de ferro (burra), os anéis de ouro com brilhantes que existir e todas mais joias”.
Determinou que os bens supra relacionados e onerados com a cláusula de usufruto, “passarão por minha morte a pertencer à Casa de Caridade “Manoel Gonçalves de Souza Moreira (...) e que esta casa será administrada pela Câmara Municipal da Cidade de Itaúna, que poderá criar uma associação ou irmandade para administrá-la, e em sua falta, pela diretoria da Companhia Tecidos Santanense.
Manoel Gonçalves de Souza Moreira revogou, através deste testamento, um anterior aprovado pelo Tabelião Doutor Plínio de Mendonça. Faleceu em 20 de Julho de 1920, com 66 anos e meio de idade, 3 anos, 4 meses e 17 dias depois de elaborado seu último testamento.

Lamentavelmente, seus sobrinhos, indignados, após a abertura do testamento de seu marido, Manoelzinho, disseram para Dona Cota: “Tia, isto é um absurdo! Ponha advogado!” Ao que ela respondeu: “Eu? Tocar demanda contra os pobres de Jesus? Deus me livre de tal coisa!” Cota era muito religiosa e temente a Deus. Piedosa, sabia rezar e conversar com Ele, pedindo sempre Sua proteção e amparo par a sua obra e os que nela trabalhavam e fossem por ela assistidos.
Temos grande admiração pelas mulheres da família Gonçalves de Souza. Nossa história é rica de exemplos deixados por estas extraordinárias figuras humanas. Sem dúvida, Dona Cota merece um lugar de grande destaque nesta galeria. Após a morte de seu ilustre e benemérito marido, maior figura de Itaúna em termos de capacidade administrativa, tino comercial e serviços filantrópicos prestados à comunidade, Dona Cota trilhou seu caminho e na qualidade de viúva ainda viveu 34 anos, 4 meses e 7 dias, vindo a falecer em 27 de Novembro de 1954.
Nestes longos anos soube aumentar e construir seu patrimônio. Edificou uma bela casa em Belo Horizonte, à rua Espírito Santo, nº 1594, onde viveu a maior parte de sua viuvez.
Seis anos antes de seu falecimento instituiu a Fundação São Vicente de Paulo, em 6 de Dezembro de 1948, com escritura pública registrada no Cartório do 1º Ofício, no Livro de Notas nº 32, às folhas 164v., com assistência do Doutor Promotor de Justiça, Dr. José Valeriano Rodrigues, com o objetivo: “proteger, moral e materialmente, menores desamparados, de preferência do sexo feminino, com especialidade, os naturais e residentes na cidade de Itaúna”:  estabelecendo que “são absolutamente inalienáveis o terreno localizado à Avenida Getúlio Vargas, nesta cidade, onde foi a casa de residência de seu pai Vicente Gonçalves de Souza e os a ele adjacentes que a fundação vier a adquirir, bem como as ações das seguintes sociedades: Companhia Tecidos Santanense, Companhia Industrial Belo Horizonte e Companhia Renascença Industrial”. Nesta escritura, a instituidora promete “transferir à fundação uma casa de morada e seu terreno situados em Belo Horizonte, à rua Espírito Santo, nº 1594, reservando para si o usufruto vitalício sobre ela”.
Imitando seu marido, em 15 de Janeiro de 1949, Dona Cota chamou à sua presença o Tabelião do 5º Ofício de Notas, Carlos Bolivar Moreira, e fez o seu testamento. Nele, admitiu que sua casa em Belo Horizonte, encontrando um bom negócio, poderia ser vendida e produto da venda se converteria em ações inalienáveis.
Aos 20 de Março de 1949, na primeira reunião da entidade, com os dirigentes Dr. Lincoln Nogueira Machado (presidente), Dr. Alcides Gonçalves de Sousa (vice-presidente), Dr. Fajardo Nogueira de Souza (1º secretário), Victor Gonçalves de Souza (2º secretário) e Astolfo Dornas (tesoureiro), Dona Cota também presente, foi apresentado e aprovado o acordo com as Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, visando a direção interna do Orfanato. Foram aprovadas as plantas para a construção do Orfanato, ficando o engenheiro Dr. Rubens Vaz de Melo encarregado de dirigir e fiscalizar as obras. Decidiu-se que o capelão indicado pelo Arcebispo Dom Cabral seria irmão conselheiro com direito a voto.
Em 14 de Fevereiro de 1950, faleceu Dona Tereza Gonçalves de Souza, destinando seu patrimônio ao Orfanato instituído por sua irmã, Cota, ainda viva. Vários sobrinhos tentaram anular o testamento que consistia de ações de várias companhias, apólices do Estado, dinheiro, casa de morada à Avenida Getúlio Vargas e seu terreno com 1.400m2, também um anel de brilhantes, tudo avaliado, na época, em um milhão, duzentos e quatorze mil cruzeiros.
Em resumo, esta foi a vida de grandes personalidades da família Gonçalves de Souza as quais, com espírito cristão e religioso, demonstraram que dinheiro não é um mal, mas um bem, que filantropicamente aplicado, melhora a vida dos mais humildes, carentes e sofredores.


Fonte: Guaracy de Castro Nogueira -
Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC
Digitalização: Juarez Nogueira Franco
Pesquisa  / Fotografia : Charles Aquino

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